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Quilombos de Santos-História da Resistência

Zumbi e o Quilombo de Palmares
Revolta dos Búzios
Nascimento do Harlem

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   VOLUMES DA COLEÇÃO HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA





Histórico

O Quilombo dos Palmares (localizado na atual região de União dos Palmares, Alagoas) era uma comunidade auto-sustentável, um reino ou república formado por escravos negros que fugiam da escravidão no período colonial escapando das fazendas, prisões e senzalas brasileiras. O Quilombo ocupava uma área próxima ao tamanho de Portugal e situava-se onde era o interior da Bahia, hoje estado de Alagoas. Naquele momento sua população alcançava por volta de trinta mil pessoas.

Zumbi, o grito forte de Palmares
Ele entrou para a história como o último líder do maior foco de resistência negra à escravidão no Brasil, noséculo 17. Mas uma multidão de questões ainda precisa ser respondida para traçar sua verdadeira face
por Reinaldo Lopes

Em fevereiro de 1685, uma carta quase inacreditável cruzou o Atlântico e chegou a Pernambuco. Estava assinada simplesmente “Rei”. O texto dizia: “Eu El-Rei faço saber a vós Capitão Zumbi dos Palmares que hei por bem perdoar-vos de todos os excessos que haveis praticado (...), e que assim o faço por entender que vossa rebeldia teve razão nas maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens. Convido-vos a assistir em qualquer estância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus leais e fiéis súditos, sob minha real proteção”. Quem capitulava na mensagem era o próprio rei de Portugal, dom Pedro II (o deles, não o nosso). Mas não sabemos se o “capitão” aceitou o convite. Na verdade, não sabemos nem se a carta chegou um dia a ser entregue. Mas sabemos que o destinatário, tratado nessa linguagem cheia de honoríficos e rapapés, era mesmo o guerreiro Zumbi, um opositor quase mítico do domínio português no Brasil.

Se ele já era um mito no século 17, os debates e pesquisas dos últimos 300 anos tampouco revelaram muito sobre o verdadeiro Zumbi. Isso se deve em boa parte ao fato de que os relatos acerca de sua vida foram, sem exceção, feitos por seus inimigos: os colonos e portugueses que se puseram a combatê-lo, a soldo de senhores escravistas. “Toda a documentação sobre a vida de Zumbi e de Palmares está meio cifrada, vista pelos olhos das expedições que tentavam tomar o quilombo”, diz a historiadora Silvia Hunold Lara, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ela, a incerteza é tão brutal que se estende até a forma do nome do líder palmarino – o certo é Zumbi ou Zambi? A primeira forma é mais comum nos relatos lusos, mas isso não quer dizer que seja a certa.

Para valorizar o próprio esforço ou para justificar os fracassos em capturá-lo, os primeiros relatos acerca de Zumbi, feitos em sua maioria por militares portugueses, ajudaram a criar o personagem que acabaria se tornando um fundador da identidade dos descendentes de africanos no Brasil. Um homem forte, orgulhoso, inconformado com sua condição social, que resolveu enfrentar seus algozes e libertar seu povo. Mas tampouco essa imagem de um Zumbi revolucionário se sustenta em fatos. Sua biografia está envolta em diversas dúvidas. Entre as mais elementares está sua origem. Era ele um chefe africano trazido à força para ser escravo? Ou teria nascido no Brasil? Sobre uma coisa, pelo menos, os especialistas concordam: ele viveu e morreu em Palmares, um quilombo – ou seja, um reduto de ex-escravos e seus descendentes.

Vida em Palmares

Os primeiros relatos sobre o quilombo de Palmares são desencontrados e datam do início do século 17. Eles indicam que ele surgiu em fins do século 16, no sul da então capitania de Pernambuco. Fugindo provavelmente de um engenho de cana nordestino, um grupo de escravos africanos deixou o litoral e foi para o interior – tentando evitar caçadores de recompensa e soldados que, a mando dos senhores de engenho, capturavam e matavam fugitivos. A jornada a pé, que pode ter durado até dois anos, levou os ex-escravos para a serra da Barriga, região conhecida genericamente como “os Palmares”: um pedaço de mata Atlântica coberto por palmeiras, encravado no meio do sertão (atualmente território de Alagoas). Aquelas terras tinham fama de ser férteis, mas a combinação entre mata fechada e terreno íngreme fazia dela uma fortaleza natural.

Se os criadores do quilombo realmente vieram de um engenho, a grande maioria deveria ser homem, pois as fazendas abrigavam poucas mulheres. A proporção de escravos nascidos no Brasil também devia ser muito baixa, uma vez que era raro que africanos conseguissem viver o suficiente para ter sua própria família. “Tudo indica que africanos do complexo angolano (região que englobava, além de Angola, também parte do atual Congo) teriam tido um papel determinante em Palmares”, afirma Mário Maestri, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Há, por exemplo, a tradição de que eles chamavam seu reduto de Angola Janga, ou “Angola Pequena”. Se essa idéia estiver correta, o povo original de Palmares era composto, em grande parte, por gente do grupo lingüístico banto – um dos primeiros na África a desenvolver a agricultura, a criação de animais e o uso do ferro, tendo se expandido por boa parte de seu continente.

Já nos primeiros anos de organização, o aglomerado de fugitivos se tornou uma pedra no sapato dos portugueses. Os habitantes de Palmares, periodicamente, invadiam engenhos para libertar escravos, roubar comida e armas e raptar mulheres, artigo raro no quilombo em formação. Em 1602, o governador-geral do Brasil, Diogo Botelho, mandou uma expedição contra eles – a primeira de 40, ou até mais de 60, de acordo com alguns historiadores. Depois de destruir cabanas e fazer alguns prisioneiros, os portugueses pensaram ter acabado com a vila. Mas, sempre que uma tropa aparecia, os palmarinos migravam para o mato, deixando para trás roças e cabanas que eram destruídas e queimadas. Dias depois, outras eram erguidas.

Esse modo de vida limitava o crescimento do povoado. Mas, em 1630, a sorte sorriu para Palmares. Foi quando os holandeses desembarcaram em Pernambuco, na tentativa de tirar os lucros do açúcar das mãos de portugueses e espanhóis, então governados pelo mesmo rei. A invasão colocou em polvorosa o Nordeste. Com a vitória inicial dos holandeses, em 1645, parte dos luso-brasileiros manteve uma espécie de guerrilha. Donos de engenho alistaram seus escravos para a luta, o que facilitava as fugas. Em meio à instabilidade, Palmares cresceu, recebeu milhares de novos moradores e, quando enfim os holandeses foram expulsos, em 1654, a vila tinha virado uma potência formada por vários aglomerados populacionais.

Os dados sobre as dimensões de Palmares são desencontrados. Documentos coloniais falam em 30 mil pessoas, número provavelmente superestimado. O crescimento demográfico deu-se principalmente pela chegada de novos moradores. Existe também a possibilidade de que a população de Palmares fosse poligâmica e até poliândrica – o que significa que uma mulher podia ter vários maridos. Para alimentar a população crescente, a economia local era composta por uma mistura de caça, coleta e agricultura, em que se plantavam gêneros como mandioca, batata-doce e feijão. É certo que também havia comércio com os vizinhos. “A idéia de que Palmares era um refúgio isolado no mato pode até ser verdadeira para os primeiros anos de assentamento. No entanto, após a metade do século, o relacionamento entre os negros e seus vizinhos certamente já evoluíra para um intenso intercâmbio com índios e até com brancos”, diz Flávio Gomes, pesquisador do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A presença de brancos em Palmares ainda é motivo de discussão, mas sabe-se que isso ocorreu depois em quilombos de outras regiões. Apesar da suposta hostilidade em relação aos brancos, há indícios de que criadores de gado levavam seus rebanhos para pastar na região de Palmares e mantinham comércio com os quilombolas, a ponto de serem chamados, com desdém, de “colonos dos negros”.

Em relação aos índios, o convívio parece ser mais evidente. Escavações arqueológicas têm encontrado cerâmica indígena, provavelmente contemporânea ao quilombo (veja quadro na página 33). “É tentador fazer essa associação e dizer que havia índios dentro do quilombo, mas pode se tratar também de algum tipo de comércio”, diz o arqueólogo americano Scott Allen, da Universidade Federal de Alagoas. Já segundo Pedro Paulo Funari, historiador e arqueólogo da Unicamp que integrou a primeira equipe a fazer sondagens no local, há 15 anos, a cerâmica indica que havia índias em Palmares: “A produção de cerâmica estava ligada às atribuições das mulheres. A presença desse material em Palmares pode querer dizer que os ex-escravos tinham esposas indígenas”. Coisa perfeitamente consistente com a escassez de mulheres negras por lá. De qualquer modo, a mestiçagem estava na ponta da língua dos palmarinos. Seu idioma parecia ter uma base africana misturada a palavras e estruturas tiradas do português e do tupi – os colonos precisavam de intérpretes para falar com eles.

A consolidação do quilombo culminou na criação de uma espécie de confederação entre os vários povoados de Palmares. A população local escolheu como chefe um guerreiro conhecido como Ganga-Zumba, que governava a partir de Macaco, a principal vila do refúgio. Não se sabe se “Ganga-Zumba” seria nome próprio ou um título dado ao líder. “A palavra ganga significava ‘poder’, ou ‘sacerdote’ em várias sociedades da África central”, diz Flávio Gomes.

Para a maioria dos especialistas, foi nessa época de relativa calmaria que Zumbi teria nascido em Palmares. Um dos motivos para sustentar que o líder nasceu ali mesmo e não chegou depois, fugindo da escravidão, é o fato de que ele seria sobrinho de Ganga-Zumba. Porém, o traço familiar é também incerto. Para Mário Maestri, a designação de “sobrinho” não deve ser entendida literalmente. “A trama de parentescos deve ter sido sobretudo simbólica. As condições históricas não teriam permitido a formação de um clã familiar que dominasse politicamente Palmares”, diz Maestri. Assim, dizer que Zumbi era “sobrinho” de Ganga-Zumba equivaleria a afirmar que ele era um protegido do chefe.

A origem de Zumbi permanece controversa. Ter nascido ou não em Palmares determina se ele foi ou não escravo.

Se a origem de Zumbi é incerta, a infância é definitivamente lendária. Décio Freitas, historiador gaúcho já falecido, escreveu um texto clássico sobre Palmares, em que dizia ter descoberto um relato da captura de Zumbi ainda bebê por uma expedição portuguesa ao local. Ele teria sido vendido ao padre Antônio Melo, que o teria criado para ser coroinha. Aos 15 anos, no entanto, Zumbi teria fugido. “Essa é uma versão fantasiosa, mas não impossível”, diz Flávio Gomes. “Décio jamais mostrou o documento em que apoiava essa biografia de Zumbi. E, além disso, ele ficou conhecido por romancear sistematicamente sua produção”, diz Maestri.

Exceto pelo texto de Décio, não há outro relato sobre a juventude de Zumbi. Ele deve ter crescido num período anterior à guerra que os portugueses moveram contra o quilombo, impulsionados pela falta de mão-de-obra nos engenhos. Nessa época, a vida social em Palmares era um arremedo daquilo que seus habitantes conheciam dos antepassados na África, talvez com elementos indígenas e até portugueses incorporados ao seu cotidiano. Seus líderes, a exemplo de Ganga-Zumba, deviam ser guerreiros e guias religiosos. Não sabemos se Zumbi se casou ou teve filhos (embora a carta do rei de Portugal, reproduzida no início desta reportagem, sugira isso). Zumbi é geralmente descrito como guerreiro porque os relatos sobre ele aparecem num período de guerra. Mas não é difícil imaginar que, em tempos de paz, Zumbi plantasse mandioca e caçasse porcos-do-mato.

General Zumbi

Foi num relatório do comando militar da capitania de Pernambuco, escrito por volta de 1670, que o nome Zumbi aparece citado pela primeira vez. O documento atribui a ele o sucesso dos ex-escravos “fugidos” nos combates com colonos nas cercanias da serra da Barriga. Zumbi seria o homem de confiança do chefe Ganga-Zumba, uma espécie de general dos exércitos de Palmares. Outros documentos da mesma época destacam a capacidade militar de Zumbi. Um deles diz que, ao enfrentar uma expedição liderada por Manuel Lopes Galvão, Zumbi levou um tiro na perna que o teria deixado manco, mas não o impedira de continuar lutando.

Sob ataques constantes, Palmares se tornou uma fortaleza, com diversos povoados cercados por muralhas reforçadas de pau-a-pique. Na encosta que levava até a vila de Macaco, os quilombolas cavavam buracos, colocavam estacas no fundo e as cobriam com folhas secas. Isso era tão comum que o local entrou para os mapas dos soldados coloniais com o apelido de Outeiro dos Mundéus (mundéu, ou mundé, é justamente o nome dessa armadilha). E os palmarinos também partiam para a ofensiva. “Diversas expedições quilombolas atacaram, entre 1660 e 1670, os povoados de Serinhaém, Porto Calvo, Penedo e Alagoas, principalmente para capturar armas e munição, mas também para saquear fazendas e estabelecimentos comerciais”, escreveu Décio Freitas em seu Palmares – A Guerra dos Escravos.

Por volta de 1675, as comunidades atacadas financiaram uma grande expedição militar sob o comando de Fernão Lopes Carrilho, que já tinha enfrentado e vencido índios e escravos rebeldes em outros cantos do Nordeste. Ele aprisionou ou matou vários dos principais chefes do quilombo, feriu o próprio Ganga-Zumba e quase capturou a mãe do líder. Carrilho chegou a anunciar que tinha destruído Palmares de vez. Não era verdade, mas, pela primeira vez em décadas, a situação forçou Ganga-Zumba a negociar.

Em 1678, uma missão enviada pelo “rei de Palmares”, como foi anunciado, adentrou o Recife. Um cronista escreveu: “Notável foi o alvoroço que causou a vista daqueles bárbaros. Porque entraram com seus arcos e flechas, e uma arma de fogo (...), corpulentos e valorosos todos”. O acordo de paz previa que os nascidos em Palmares ficariam livres, ganhariam terra para cultivar, direito de comercializar com seus vizinhos e a condição de vassalos de Portugal. Parecia ótimo, não fosse o fato de que os escravos libertados (e talvez o próprio Zumbi, de acordo com aqueles que defendem a tese de ele nasceu escravo e fugiu para Palmares) teriam de voltar para seus senhores. Ganga-Zumba decidiu aceitar as cláusulas e se mudou com algumas centenas de seguidores e seu irmão Gana-Zona para a localidade de Cucaú. Zumbi se recusou a ir e declarou ser o novo líder de Palmares (Ganga-Zumba morreu logo depois e as histórias da época dão conta de que Zumbi teria mandado envenená-lo). Seguiu-se uma guerra entre partidários de Zumbi e de Gana-Zona que levou à intervenção dos portugueses e à extinção do “quilombo livre” de Cucaú.

As autoridades coloniais e o próprio rei de Portugal tentaram repetidas vezes oferecer ao novo chefe um acordo semelhante ao que fizeram com Ganga-Zumba, mas Zumbi nunca aceitou. No início da década de 1690, o bandeirante Domingos Jorge Velho foi chamado e recebeu a missão de liderar uma expedição para caçar e exterminar de vez os focos de resistência em Palmares. À frente de mateiros experientes e conhecidos pelos métodos particularmente sanguinários, Jorge Velho não escapou de tomar algumas sovas dos guerreiros de Zumbi. Em 1692, num combate de três semanas, sua tropa de cerca de mil homens foi reduzida pela metade, antes de fugir e se perder no mato. Dois anos depois, Jorge Velho voltou. Tinha sob seu comando um incrível exército para a época: 9 mil homens – e alguns canhões.

A resistência de Palmares dependia de manter a artilharia inimiga longe das muralhas de Macaco. Depois de um cerco que durou semanas, no entanto, Jorge Velho conseguiu se aproximar com seus canhões. Zumbi liderou pessoalmente um ataque desesperado para evitar a destruição das barreiras, mas falhou. Os bandeirantes mataram centenas de guerreiros e invadiram a capital palmarina. Zumbi fugiu.

O último ano da vida do líder foi marcado por ataques esparsos, ao lado de um punhado de companheiros, que tentavam manter viva a rebelião escrava. Foi por meio de um membro desse grupo, Antônio Soares, que os homens de Jorge Velho chegaram a Zumbi. Capturado e torturado, Soares aceitou levar os bandeirantes em sigilo até o esconderijo rebelde. Lá chegando, ele mesmo teria matado Zumbi com uma traiçoeira punhalada. De posse do corpo do líder, os mercenários arrancaram-lhe um dos olhos e cortaram-lhe a mão direita. O pênis de Zumbi foi decepado e enfiado em sua própria boca. Já a cabeça foi salgada e levada para Recife, onde apodreceu em praça pública.

Arqueologia de Palmares
As escavações já foram interrompidas por não acharem traços marcantes de ocupação africana .
O arqueólogo Scott Allen e seus colegas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) estão caminhando sobre um quebra-cabeças histórico dos mais bagunçados. A equipe investiga o platô que fica no alto da serra da Barriga, em busca de sinais de Palmares e das levas de ocupação humana que chegaram ao local antes de Zumbi e seus companheiros. Em sete meses de trabalho – Allen e companhia estão por lá desde março –, deu para perceber que o local sofreu um bocado depois do fim do quilombo. E, ironicamente, até as tentativas de celebrar o que Palmares representa podem ter atrapalhado. “Pelo que os moradores da serra nos contaram, nos anos 1940 começaram a abrir a mata para cultivo, ainda usando só a enxada”, conta Allen. A coisa mudou de figura, porém, quando, nos anos 1980 e 1990, o platô virou o foco das comemorações anuais de 20 de novembro, em homenagem a Zumbi. Uma terraplenagem pode ter removido até 60 centímetros do solo do platô, bagunçando significativamente a estratigrafia (a sucessão de camadas de solo, vital para estabelecer a seqüência de ocupação de um sítio arqueológico). A equipe de Allen está seguindo os passos das primeiras escavações depois de um longo hiato. Em 1997, a Fundação Cultural Palmares, que ajuda a gerir o local por mandato do governo federal, chegou mesmo a proibir as escavações ali. Tanto o arqueólogo Pedro Paulo Funari quanto Allen dizem entender a proibição e não atacam a fundação – afinal, poucos lugares são mais simbólicos para o movimento negro brasileiro. Com a nova permissão para os trabalhos, os pesquisadores da Ufal continuam a achar indícios fortes de presença indígena. São urnas funérias e outros objetos de cerâmica, que podem remontar a até mil anos atrás e talvez se estendam até a época em que o quilombo existia. Há também faiança, um tipo português de cerâmica (nesse caso, feito na própria colônia). Alguma peça pode sugerir influências africanas, mas a análise ainda precisa ser aprofundada. “Apesar de tudo, acredito que temos grandes chances de encontrar rastros dos palmarinos, em especial em outros sítios, menos impactados”, diz Allen. Com o auxílio do computador, eles pretendem “unir os pontos” de cada sítio achado para tentar encontrar sinais de estruturas arquitetônicas. E resta ainda saber onde exatamente ficava o povoado de Macaco. “Eu acho que estava mais na encosta da serra, não no topo”, diz Allen.

A queda de Zumbi
A lenda do suicídio coletivo em Palmares

Logo após ficar diante de Zumbi e saudá-lo, o traidor Antônio Soares o apunhalou. Este é, hoje em dia, o cenário mais aceito pelos pesquisadores para descrever a morte do líder de Palmares. Curiosamente, essa história permaneceu esquecida durante muito tempo. Tudo em nome de uma versão mais, digamos, épica: “Até o início dos anos 1960, a historiografia dizia que Zumbi e outros tantos em Palmares tinham cometido suicídio em 1694, ao se atirar dos penhascos da serra da Barriga”, diz Flávio Gomes. Para reforçar ainda mais a aura lendária, a narrativa do suicídio coletivo tem paralelos com o que teriam feito os judeus que defendiam a fortaleza de Massada, no século 1 (diante da iminente derrota, eles preferiram se jogar das montanhas a cair nas mãos dos invasores romanos). Essa visão pode, portanto, ter sido forjada por um cronista português cheio de histórias da Antiguidade na cabeça. O fundo de verdade por trás disso é que Jorge Velho precisou construir uma contramuralha, na diagonal em relação ao muro da vila de Macaco, de forma a poder levar seus canhões perto o suficiente para arrasar as defesas de Zumbi. A obra avançou bastante, mas ainda havia uma pequena brecha entre ela e um desfiladeiro quando os palmarinos a descobriram. Zumbi, então, ordenou o ataque através da passagem que restava. Os guerreiros de Palmares foram repelidos e cerca de 500 deles acabaram rolando barranco abaixo, o que parece ter sido interpretado, erroneamente, como suicídio. Mas de fato há relatos de que, quando os soldados coloniais entraram em Macaco e nos demais povoados, algumas mães palmarinas mataram seus filhos e a si próprias para evitar a escravidão.

Nota:

AQUALTUNE -Século XVII

Quando os Jagas invadiram o Congo, Aqualtune foi para a frente de batalha defender o reino, comandando um exército de 10 mil guerreiros.Filha do Rei do Congo, a princesa foi vendida como escrava para o Brasil, em razão das rivalidades existente entre os diversos reinos africanos.
Derrotada, foi levada como escrava para um navio negreiro e desembarcada em Recife. Dentro do sistema aviltante em que foi colocada como prisioneira, foi obrigada a manter relações sexuais com um escravo, para fins de reprodução.
Grávida , foi vendida para um engenho de porto Calvo, onde pela primeira vez teve notícias de Palmares. Já nos últimos meses de gravidez organizou sua fuga e a de alguns escravos para Palmares.Há registros em que o famoso líder negro Ganga Zumba figura como integrante de sua família, assim como Zumbi, seu neto e lendário herói de Palmares.
Ao lado de Ganga Zumba, participou da organização de um Estado negro, que abrangia povoados distintos confederados sob a direção suprema de um chefe.
Aqualtune instalou-se, posteriormente, num desses mocambos, povoados fortificados, a 30 léguas ao noroeste de Porto Calvo.
Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História”
Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa, 1987.
Aqualtune

Era uma princesa africana, filha do importante Rei do Congo. Numa guerra entre reinos africanos, foi derrotada, juntamente com seu exército de 10 mil guerreiros e transformada em escrava. Foi levada para um navio negreiro e vendida ao Brasil, vindo para o Porto de Recife.

Comprada como escrava reprodutora foi levada para região de Porto Calvo, no sul de Pernambuco. Lá conheceu as histórias de resistência dos negros na escravidão, conhecendo então a trajetória de Palmares, um dos principais Quilombos negros durante o período escravocrata.
Aqualtune, nos últimos meses de gravidez ,organizou uma fuga junto com outros escravos para o quilombo, onde teve sua ascendência reconhecida, recebendo, então, o governo de um dos territórios quilombolas, onde as tradições africanas eram mantidas.

Aqualtune era da família de Ganga Zumba, e uma de suas filhas teria gerado Zumbi. Em uma das guerras comandadas pelos paulistas para a destruição de Palmares, a aldeia de Aqualtune, que já estava idosa, foi queimada. Não se sabe ao certo a data de sua morte.Fontes:
- Caderno de Formação do MNU - Movimento negro Unificado.
- Dicionário Mulheres do brasil - De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Jorge Zahar Editor, 2000.www.criola.org.br

 


 

O quilombo: Desafio às autoridades

Por  Alice de Barros Fontes

Um dos recursos mais característicos da organização da resistência negra contra a escravidão foi o Quilombo do Jabaquara em Santos. Os caifases, diante das dificuldades de esconder os negros fugidos, escolheram um local de difícil acesso para mantê-lo. Os negros que fugiam por conta própria também eram aceitos no Quilombo de Santos, conhecido então como a Cidade da Liberdade.
Santos foi escolhida como o reduto do movimento abolicionista por suas condições socioeconômica. A aceleração do processo urbanístico, a partir da segunda metade do século XIX, provocou o aumento da população e dos serviços da cidade, e foi resultado da expansão da cafeicultura pelo interior da Província – o que gerou condições para o estabelecimento de ligações ferroviárias e para o desenvolvimento do abolicionismo na cidade, que atingiu todas as formas de radicalismo, com a fixação do Quilombo de Jabaquara e o engajamento dos negros no trabalho assalariado.
O reduto dos negros ficava afastado do centro, próximo a Vila Matias, no Monte Serrat. Antes de ter sido formado o do Jabaquara, já existia em Vila Matias, o Quilombo do Pai Felipe, que segundo contavam na cidade, tinha sido organizados por volta de 1850 por escravo fugidos. Os quilombolas (integrantes e moradores do quilombo) de Pai Felipe trabalhavam no corte de madeira para lenha e construção e no artesanato de chapéus de palha, enquanto os negros de Jabaquara eram encaminhados para trabalhar na cidade de Santos.
A presença do Quilombo do Pae Felipe foi um fator de grande importância para o desenvolvimento do movimento dos caifases, uma vez que seus integrantes conheciam as trilhas da serra e serviam de guias aos negros que vinham do interior de São Paulo. Além disso, o quilombo, pelo fato de existir a mais tempo, preparou terreno para a chegada de mais ex-escravos na cidade. A posição geográfica dos quilombos, afastados do centro e de difícil acesso, favorecia a defesa contra a repressão policial.
Sem dúvida, o Quilombo do Jabaquara era um desafio às autoridades escravocratas, pois chegou a reunir de 500 a 10 mil negros fugidos, o que correspondia, em 1887, a 10% da população escrava de toda a Província de São Paulo. Os policiais paulistanos, por exemplo, perderam inúmeras batalhas ao tentar impedir a fuga de ex- escravo para Santos.
A polícia santista nem sempre pactuou com os fugitivos, mas já existia em Santos uma tradição de protesto formalizado para defender o escravo. A partir de 1886, o comportamento policial da cidade mudou completamente. Não se encontraram mais notícias sobre a prisão de negros sob suspeita de serem escravos ou fugitivos. Alguns policiais de Santos e de São Paulo acabaram, no decorrer da campanha, por aderir ao abolicionismo.

Os Caifases: Organização e Métodos no combate à escravidão

Os agentes de Antonio Bento foram os elementos que, sem terem vínculos e compromissos diretos com os interesses agrários, emergiram das próprias contradições do sistema em agonia para fazê-lo avançar. É preciso, por isso, entender a importância desse grupo formado por elementos provenientes das mais diversas classes – ex-escravos ,jornalistas, tipógrafos, padres, comerciantes, médicos,  cuja ação radical foi talvez a mais expressiva forma de combate à escravidão.
A fase revolucionária da campanha abolicionista, que em São Paulo vai de 1882 a 1888, caracterizou-se pela ampla aceitação das idéias libertárias, não só por parte dos grupos urbanos, como também pelos fazendeiros das áreas cafeeiras mais dinâmicas. É neste período que se estabelece a oposição entre aqueles que querem a liberdade gradual e os que, considerando inadiável o problema, assumem posição radical, exigindo uma ação imediata.
A ala radical da campanha emancipadora em São Paulo, que contou com o apoio de alguns grupos do Rio de Janeiro e do Ceará, foi organizada por Antônio Bento, com o auxilio dos chamados caifases, sediados na confraria de N. Senhora Dos Remédios. Ali se desenvolveu intensa propaganda e foi estruturada a ação revolucionária que organizou a fuga de escravos das fazendas e sua acomodação no Quilombo do Jabaquara, em Santos.
A ação dos caifases pode ser entendida a partir do duplo aspecto que assume: de um lado, o da desorganização do trabalho escravo, que incluiu todo o processo da fuga do negro (do incitamento à chegada ao quilombo); de outro, o da organização do trabalho assalariado, isto é, a conquista de um espaço para o negro no mercado de trabalho. É a união e a dinâmica desses dois aspectos que conferem a característica de revolucionário ao movimento dos caifases.

A cidade de Santos como Alicerce do Movimento

A campanha popular também se organizou por meio de sociedade e de jornais abolicionistas em Santos. Entre as sociedades conhecidas destacam-se a Boemia Abolicionista, que organizava espetáculos em benefício da causa e publicaram vários jornais, e a Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro, que tinha por fim emancipar, no menor prazo possível, os escravos na Comarca de Santos.
Uma das atividades fundamentais para esses grupos era os encontros para entrega de cartas de alforria, porque revigoravam o planejamento das fugas. A organização dos caifases para enviar os negros para Santos contava com vários pontos estratégicos ao longo do itinerário. No Ipiranga, passagem obrigatória para o caminho do mar, o caifás Felisberto possuía uma olaria em que dava refúgio aos ex-escravos. Em São Bernardo, a organização contava com vários adeptos para dar prosseguimento às fugas planejadas. Na serra, os negros tinham à sua disposição guias eficientes, que os orientavam por caminhos seguros para evitar a repressão e as dificuldades naturais da região. Graças a essa eficiência foi possível tentar organizar o trabalho assalariado do negro em Santos.Extraído do Jornal: Conselho da Comunidade Negra
Edição especial - São Paulo, 13 de maio de 1998- Presidente Antonio Carlos Arruda da Silva.
NOta:

O Movimento dos Caifazes foi organizado por Antônio Bento de Sousa e Castro, advogado, juiz e maçom no bojo do movimento abolicionista paulista.

Eles organizavam fugas coletivas no final do século XIX, ou "roubavam os escravos de seus senhores" para enviá-los ao quilombo do Jabaquara na cidade de Santos e de lá para a província do Ceará, que já decretara a igualdade racial. O movimento de libertação dos escravos paulista surgiu com o poeta Luís Gama e, após sua morte, Antônio Bento assumiu a liderança do movimento.

O nome Caifazes foi inspirado em uma passagem do evangelho de São João (Jo. 11,50) em que sentencia Caifás: “Vós nada sabeis, nem compreendeis que convém que um homem morra pelo povo, para que o povo todo não pereça? E entregou Jesus a Pilatos”.

A eficácia do movimento foi tão grande que a maioria das cidades paulistas já haviam decretado a libertação dos escravos negros antes da Lei Áurea de 1888.

LUIZA MAHIN
Há controvérsias quanto ao local de nascimento de Luísa. Não se sabe se veio da África, como escrava, para a Bahia, ou se nasceu já em Salvador. Tornou-se livre por volta de 1812.
Pertencia à nação nagô-jeje, da tribo Mahin, e dizia ter sido princesa na África. Fez de sua casa quartel de todos os levantes escravos que abalaram a Bahia nas primeiras três décadas do século XIX. Na revolta de 1835, (Revolta dos Malês)estava grávida de Luís Gama, filho que teve de um português e que se tornaria poeta e um dos maiores abolicionistas do Brasil. Luísa envolveu-se nas articulações que levaram à Revolta dos Malês, como ficou conhecida a maior rebelião de escravos entre as tantas ocorridas na Bahia do século XIX.
O levante se deu na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, liderado por escravos africanos de religião muçulmana, conhecidos na Bahia como malês. Aproveitando-se de seu trabalho como quituteira, Luísa despachava mensagens escritas em árabe para outros rebelados, valendo-se de meninos para levar estes bilhetes. Se os escravos tivessem sido vitoriosos, Luísa Mahin teria sido empossada Rainha da Bahia Rebelde. Porém os planos dos revoltosos foram revelados às forças da repressão.
Os líderes do movimento foram perseguidos e castigados brutalmente, mas Luísa conseguiu fugir para o Rio de Janeiro, onde continuou a luta pela liberdade de seu povo. Nesta cidade foi presa e, possivelmente, deportada para a África.
Luís Gama escreveu sobre sua mãe: “Sou filho natural de negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luísa Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa, magra, bonita, a cor de um preto retinto sem lustro, os dentes eram alvíssimos, como a neve. Altiva, generosa, sofrida e vingativa. Era quitandeira e laboriosa” Outros versos de Luís Gama indicam que Luísa Mahin teve mais um filho, cuja trajetória é ignorada.
Por iniciativa do Coletivo de Mulheres Negras de São Paulo, em 9 de março de 1985, seu nome foi dado a uma praça em Cruz das Almas, bairro da capital paulista.
Notas
BRANDINA
Atuante no movimento abolicionista de Santos, na segunda metade do século passado, Brandina era proprietária de uma pensão na antiga rua setentrional, hoje Praça da República.
Embora de origem humilde, usava o ganho do seu trabalho para dar comida, fumo e remédio aos negros que se refugiavam na Baixada Santista, colaborando ativamente com os cabos abolicionistas e com Santos Garrafão, que organizou um dos grandes quilombos de Santos: o Quilombo de Santos Garrafão.
A personalidade forte e destemida, além da qualidade de protetora tornou Brandina uma das figuras mais queridas entre os negros quilombolas da Baixada Santista.
Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História”
Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa, 1987.

 

 

Revolta dos Búzios

OLODUM HOMENAGEIA AOS HERÓIS POPULARES DA REVOLTA DOS BÚZIOS

 O panorama político e social do Brasil escravista e colonial foi marcado profundamente por levantes, rebeliões e revoltas da massa escravas e da plebe livre que lutaram de forma o organizada ou não contra o sistema de opressão reinante naquele momento social e político ocorrido no Brasil a pregar a organização de uma República, onde não houvesse desigualdade econômica e social e onde pessoas não fossem julgadas de acordo com cor da sua pele.

A Revolta dos Búzios, Revolta dos Alfaiates ou Revolta das Argolinhas, como ficou conhecido o movimento, recebeu estes nomes devido ao fato dos revoltosos usarem um búzio preso à pulseira para facilitar a identificação entre si, por usarem uma argola na orelha com o mesmo fim e também por que alguns dos conspiradores eram alfaiates. Presume-se que os búzios seriam usados como moeda na nova república já que os búzios era moeda correntes em muitos lugares da África Foi formada por pessoas de várias etnias e classes sociais, desde escravos, negros livres, soldados, oficiais militares, sapateiros, carpinas, comerciantes, padres, etc., que aderiram ao Partido da Liberdade.

No dia 12 de agosto de 1798, em dez locais diferentes da cidade do Salvador amanheceram com um manifesto colado em suas paredes, que dizia:

'Está pra chegar o tempo feliz da nossa liberdade; o Tempo em que seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais'.

'Homens, o tempo da liberdade para nossa ressurreição; sim para ressuscitareis do abismo da escravidão, para levantareis a sagrada Bandeira da Liberdade'.

'Ó vós povos que viveis flagelados com pleno poder do indigno coroado esse mesmo Rei que vós criastes; esse mesmo Rei tirano há que se firmar no trono para vos veixar, para vos roubar e para nos maltratar'.

Estes trechos do manifesto bem demonstram o que combatiam e o que queriam os revoltosos.

No dia 23 de agosto, o autor do manifesto, Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, soldado, negro, foi capturado pelas forças de repressão do governo colonial. Pouco a pouco os revoltosos foram sendo presos, porém todos os intelectuais brancos e detentores do poder econômico foram perdoados; os que foram castigados foram degredados para Fernando de Noronha, ou para a África. Apenas os negros foram severamente punidos, a fim de servir de exemplo para aqueles que teimassem em sonhar com um Brasil livre, democrático e sem preconceitos.

  O que foi a Revolta dos Búzios .

 Denominada 'Conjuração dos Alfaiates', 'Inconfidência Baiana', 'Conspiração dos Búzios', Primeira Revolução Brasileira, Sedição de Mulatos, o movimento revolucionário de 1798 na cidade do Salvador foi uma das mais importantes manifestações anti-coloniais no Brasil nos finais do século XVII.

 Mas sua importância histórica não fica somente no anticolonialismo; e ainda mais singular nos seus aspectos sociais em sua avançada formulação política. Esse movimento se formou sob a influência da filosofia iluminista. Sua concepção política era a República Moderna, regime no qual todos seriam iguais perante a lei e o poder teria sua origem no povo. Eram idéias colocadas em circulação na Europa ao longo do século XVIII, mas que alcançaram a Bahia, via Portugal, com o prestígio das revoluções de 1789 e 1792 na França.

Essas idéias ganharam cor e local na Bahia. Por isso mesmo a concepção de igualdade perante a lei tomou ênfase na igualdade de cor; uma repulsa as discriminações pela cor que então atingiam a Bahia e que não eram agressivas apenas para com os negros. Era bastante mais extensa, por exemplo: com relação aos mulatos (uma categoria que envolvia os pardos e brancos da terra) essa discriminação proibia o acesso aos cargos da administração e a proporção a patente de oficial nas tropas de linha. E somente por causa da cor. Ou porque os mulatos eram a classe de gente a mais orgulhosa e inquieta de todo país, como observou o marechal comandante das tropas pagas em 1803. A idéia de comércio em todos os mares e portos, o movimento de 1794/1798 deu formulação local ao exigir que o porto da cidade do Salvador exercesse o comércio livremente com todos os povos.

OS BOLETINS SEDICIOSOS

O movimento foi publicado na manhã do dia 12 de agosto de 1796 através de 11 boletins sediciosos, papéis manuscritos, com erro de grafia e redação confusa, colocado em pontos centrais da cidade. Desses boletins ainda existem dez no Arquivo do Estado da Bahia, maço 581 da seção Histórica o décimo primeiro foi queimado pelo Coronel Francisco José de Matos Ferreira e Lucena só o conhecemos pelas declarações do seu filho, capitão do Segundo Regimento pago, Antônio José de Matos e Lucena, que assistiu ser deslocado da parede de uma casa e o levou ao pai.
 
Esses papéis sediciosos, como foram denominados na ocasião, faziam severa denúncia da exploração colonial (latrocínios, furtos com os títulos de impostura, tributos, e direitos que não são elaborados por ordem da Rainha). Expressavam sentimento de independência (seja exterminado para sempre o péssimo jugo reinável da Europa); queriam igualdade de todos perante a lei (ficando cada sujeito as leis do novo código) e formularam promessas de recompensas para os soldados e oficiais dos regimentos pagos (cada soldado receba de soldo dois tostões cada dia, os oficiais terão aumento de posto e soldo).
 
Ao tomar conhecimento desses boletins, governador da capitania da Bahia, D. Fernando José de Portugal e Castro (1788 - 1801), mandou que o ouvidor- geral do crime, Desembargador Manuel de Magalhães Pinto Avelar de Barbado, procedesse imediata e rigorosa devassa para identificar.

No dia 16 de agosto foi preso o mulato e solicitador da causa Domingos da Silva Lisboa, em casa de quem foram apreendidos papéis que depois se soube que eram os de maior circulação entre os intelectuais e oficiais militares brasileiros (baianos): o Orador dos Estados Gerais as quadras a liberdade e igualdade. Domingos da Silva Lisboa ainda estava preso quando apareceram duas cartas no Convento dos Carmelitas Descalços. Tinham a mesma letra dos boletins. Deduziram logo que isso inocentava Domingos da Silva Lisboa. Foi então o próprio governador examinar requerimentos e petições arquivadas na Secretaria do Governo e encontrou semelhanças (não ficaram provadas) entre as letras dos boletins e a dos requerimentos feitos pelo soldado Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, antigo desertor e conhecido como homem de rezas e orações. D. Fernando ordenou sua prisão. Efetuada, na busca que deram em sua residência encontraram cada manuscrito com o Orador dos Estados Gerais.

  A REUNIÃO DO CAMPO DO DIQUE DO TORORÓ

 Após a prisão do soldado Luis Gonzaga, ocorreu uma prisão em casa do ourives, Luis Pires. Estiveram presentes o soldado Lucas Dantas do Amorim Torres, o alfaiate João de Deus Nascimento, o aprendiz de alfaiate Manuel Faustino dos Santos Lira, Nicolau de Andrade, José de Freitas Sacado (Sa Couto).

E decidiram consultar o comerciante - mascate Pedro Leão de Aguiar Pantoja sobre a conveniência de uma reunião no Campo do Dique do Desterro na noite de 25. Não encontraram, que era irmão do Tenente Hermogenes Francisco Pentoja, mas assim mesmo, João de Deus, Lucas Dantas e Santos Lira fizeram convites para a reunião a diversas pessoas. Três dos convidados denunciaram a reunião, foram o cabelereiro Joaquim José de Santa Anna, o ferreiro Joaquim José da Veiga e o soldado Joaquim José Siqueira. Em seguida as denúncias, o governador Coronel Alexandre Theotonio de Souza e determinou ao Desembargador Francisco Sabino Alvares da Costa Pinto que realizasse devassa para descobrir os responsáveis pela pretendida sedição. A reunião do Dique ao compareceram 14 pessoas. Luis Pires, Lucas Dantas e João de Deus esperavam que fossem muitos...

AS DEVASSAS E CONDENAÇÕES

O inquérito do Desembargador Costa Pinto desenvolveu se paralelo ao Desembargador Avelar de Barbelo. E foram realizados dezenas de prisões, dentre as quais as dos Tenentes Hermogenes Francisco de Aguiar Pantoja (5 de janeiro de 1799) e José Gomes de Oliveira Borges (26 de agosto de 1798); do professor de latim Francisco Muniz Barreto de Aragão (20 de dezembro de 1798), do cirurgião e médico Cipriano José Barata de Almeida (19 de setembro de 1798), ao todo 311 escravos, seis soldados da tropa paga, cinco alfaiates, três oficiais militares, dois ourives, um pequeno negociantes, um bordador, um pedreiro, carapina, um professor e um cirurgião tal foi a composição realmente processados.

Em dezembro de 1798 chegou de Lisboa enérgica Ordem Regia. Ordenava imediata conclusão das devassas e severa punição para os culpados. Ainda assim, novamente em sete de novembro de 1799 o tribunal da redação decidiu condenar à morte, pela forca os soldados Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga e Lucas Dantas do Amorim Torres alfaiates João de Deus do Nascimento, o aprendiz de alfaiate Manuel Faustino dos Santos Lira e o ourives Luis Pires último fugitivo jamais localizado.

 O advogado José Barbosa de Oliveira[1] apresentou sucessivos e inúteis embargos, nos quais analisava as acusações e contestava que houvesse cometido crime de Lesa Majestade. Mas esses soldados e alfaiates tinham sido os escolhidos pelos desembargadores Avelar de Barbosa e Costa Pinto, como responsáveis pela sedição intentada e suas condenações valeriam como terror político para os escravos. Os ex-escravos e os soldados e artesãos da cidade de Salvador, ao mesmo tempo desautorizando investigações capazes de revelar pessoas importantes, oficiais militares, intelectuais, comerciantes e proprietários de engenhos, homens bons da cidade do Salvador e Recôncavo (no caso, Santo Amaro, São Francisco do Conde e Cachoeira).Santos Lira, Lucas Dantas, Luís Gonzaga e João de Deus (nesta ordem), foram enforcados e esquartejados no dia 8 de novembro de 1799 na praça da Piedade. Frei José Monte Carmelo, que os acompanhou da capela dos jesuítas até a forca, deixou relato dos últimos dias   desses mártires brasileiros.

[1] Pai do Jurista Ruy Barbosa.

  AS INFLUÊNCIAS IDEOLÓGICAS
 
Existem duas questões a serem considerados nesse movimento de 1794/1798: a influência dos iluministas e pensadores políticos franceses e dos acontecimentos da Revolução Francesa. Foi o professor de gramática latina em Rio das Contas, Francisco Muniz Barreto de Aragão, quem trouxe de Lisboa o Orador dos Estados Gerais em 1792; o Doutor Antonio Alvares de Figueredo lhe emprestou As Ruinas, e um moço pernambucano, chamado José Porphirio lhe deu uma cópia das quadras a igualdade e liberdade. Essas quadras ensinavam:

Igualdade e liberdade

No sacrifício da razão

Ao lado da sua justiça

Preenchem o meu coração

Esses foram os principais documentos que circulavam na Bahia no período de 1794/1798 quando existiu um grupo, até hoje não de todo identificado, que realizava reuniões fora do centro da cidade e discutia um Governo Democrático para a Bahia. Suas conversas chegaram aos soldados e aos artesões, todos esses homens de cor e filhos de escravos. Borges de Barros (os confederados do partido da liberdade) Afonso Rui (a primeira Revolução Social Brasileira) divulgaram a suposição de uma organização maçônica, denominada cavalheiro da luz, nesse grupo, seriam maçons agrupados pelo Francês Antonio Rene Larcher, capitão da marinha francesa e o comandante do La Preneuse, que esteve na Bahia de Todos os Santos de 30 de novembro de1792 a 2 de janeiro de 1797.

 Mas, a não ser a passagem de Larcher pela cidade do Salvador, nada disso está provado. É somente possível afirmar que a influência ideológica nesse movimento de 1796/1798 a Revolução Francesa, acrescentando se: chegou a Bahia via Lisboa. Mas as Consignas de Liberdade, igualdade e fraternidade; as concepções de Governo Democrático Republicano essas foram adaptadas as condições locais. E é por isso que encontramos nos documentos de 1798 repetidas exigências de igualdade sem distinção de cor.

Ousaram escrever um projeto de Brasil diferente deste que hoje vivemos e espalharam um 'aviso' pelas ruas da cidade mais precisamente no Centro Histórico, enviaram para o governador geral da época. A tradução para o português atual é a seguinte:

 'Aviso ao povo bahianense, que está para chegar o tempo feliz da nossa liberdade, tempo em que todos seremos irmãos, tempo em que todos seremos iguais e fazem parte do partido novo'.

Heróis e Heroínas da Revolta dos Búzios
 
Estes personagens não desfilaram nas páginas da nossa história oficial, mas estão presentes na memória coletiva do seu povo.

1.  João de Deus do Nascimento, homem pardo, livre, casado, 27 anos, natural da Vila de Cachoeira, cabo de esquadra do segundo regimento de milícia desta praça, alfaiate, preso em 25 de agosto de 1798.

2.  Luís Gonzaga das Virgens, pardo, livre, solteiro, 36 anos, natural da Cidade de Salvador - BA, soldado granadeiro do primeiro regimento da linha desta praça, preso em 24 de agosto de 1798.

3.  Luiza Francisca D'Araújo, parda, livre, casada com João de Deus, presa em 26 de agosto de 1798 e solta em 05 de setembro do mesmo ano.
 
4.  Lucrécia Maria Quent, criada, forra, natural desta cidade, presa em 15 de setembro de 1798 e solta em 26 de setembro do mesmo ano.
5.  Ana Romana Lopes, parda, forra, natural desta cidade, presa em 15 de setembro de 1798 e solta em 20 de setembro do mesmo ano.

 6.  Inácio Pires, pardo, natural desta cidade, preso em 04 de outubro de 1798.

 7.  Antônio Simões da Cunha, pardo, livre natural desta Cidade, casado, pedreiro, preso em 10 de setembro de 1798.

8.  Lucas Dantas de Amorim Torres , negro, liberto, solteiro, 24 anos natural desta cidade, soldado do regimento de artilharia e marceneiro.
9.  Manoel Faustino dos Santos Lira , pardo, forro, solteiro, 18 anos, alfaiate e marceneiro, natural de Santos Amaro da Purificação.
 
Fontes: Livro O dia em que o povo ganhou -Autor: Joel Rufino dos Santos/Apostila do Olodum 1985 – Curso afro brasileiro do Olodum/

Autor: A.V.S Godi
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O NASCIMENTO DO HARLEM


Daniel Boorstin, historiador americano,
conta a epopéia da migração negra em
direção às cidades do Norte na sua “História dos Americanos” (Rosetta Books,1958).

A migração negra em direção à cidade constitui uma das múltiplas epopéias que a América conheceu – ela foi tão fértil em aventuras, portadora de tantas esperanças e decepções quanto as imigrações que, em outros tempos, haviam construído a nação.
Quando a Primeira Guerra mundial interrompeu o fluxo de mão-de-obra proveniente da Europa, Henry Ford e outros industriais despacharam seus agentes para o Sul; eles chegaram mesmo a fretar vagões de mercadorias para remeter trabalhadores negros para suas fábricas no Norte. Outros partiram em direção ao Norte e para o Oeste para as siderúrgicas de Pittsburg e Chicago. A mulheres acharam trabalho como domésticas.

 

Quando o migrante negro chega à terra prometida, as leis locais relativas à segregação, o medo e todos os tipos de pressões sociais mantêm-no prisioneiro. É assim que se formam as “cidades dentro das cidades”. As comunidades negras logo adquiriram seu estilo de vida próprio, seu charme particular, mas também conheceram um estilo de frustração que não se achava em nenhuma outra parte.
Harlem, em New York, logo se tornou a maior comunidade negra do mundo, tornando-se o símbolo e protótipo da vida urbana que o Negro estava em vias de criar no seio de sua nova coletividade.
Harlem era uma cidade dentro da cidade, uma cidade estranha que havia surgido de repente e constituía-se num tipo de zona urbana fronteiriça. Ela era um subproduto da mobilidade da população branca. Como as outras cidades da América, o Harlem iria ter seus propagandistas, seus construtores da comunidade e também seus homens de negócios.

Numa pequena obra aparecida em 1925, “Harlem, capital da cultura”, James W. Johnson, um dos fundadores da NAACP (Associação para o Progresso das Pessoas de Cor), resume o nascimento, nos primeiros anos do século, desta vasta comunidade:
Havia-se construído no Harlem um número excessivo de grandes imóveis residenciais seguindo a nova lei imobiliária, mas os meios de transporte rápido que atendiam estes quarteirões eram insuficientes e na parte Este, os proprietários experimentavam uma certa dificuldade para encontrar inquilinos para seus imóveis. Por essa época, um negro que se ocupava de negócios imobiliários, Philip A. Payton, tomou contato com alguns proprietários brancos e propôs-lhes alugar seus imóveis vazios, ou parcialmente vazios, a pessoas negras. A proposta foi aceita e foi assim que alguns imóveis da Rua 143 foram ocupados. Os brancos não prestaram senão uma atenção distraída a este movimento da população até o momento em que este se estendia até ao Oeste da avenida Lenoux. Tomaram, então, medidas para pôr fim a isso. Por intermédio de uma sociedade financeira, eles propuseram-se a comprar todos os imóveis ocupados por negros e expulsar os inquilinos.
A população negra usou métodos semelhantes para enfrentar este plano. A situação tornou-se uma demonstração de força. A população negra, não apenas continuou a ocupar os imóveis disponíveis, mas puseram-se a comprar as residências particulares situadas entre as avenidas 7a. e Lenoux. O movimento tomou agora aos olhos dos brancos o caráter de uma verdadeira “invasão”. Eles foram tomados pelo pânico e começaram a fugir do bairro como se peste os ameaçasse. A presença de uma família negra numa rua, mesmo que se tratasse de pessoas perfeitamente bem-educadas e discretas, era suficiente para desencadear a fuga dos brancos. Os imóveis e ruas foram abandonadas umas após as outras. Os bancos e as sociedades de empréstimos foram pressionadas para apropriar-se destes imóveis abandonados dos quais tinham hipotecas. Durante algum tempo eles os deixaram vazios; eles mesmos preferiram antes pagar os custos do que alugar ou vender a pessoas negras. Mas o valor destes bens baixava e continuava a baixar até ao início da Primeira Guerra Mundial, época em que os valores dos imóveis caíram ao nível mais baixo na parte Norte de Harlem.
Durante este tempo a colônia negra de Harlem começava a se estabilizar; as igrejas se deslocavam em direção ao centro da cidade; criavam-se centros sociais e cívicos; a comunidade começava a tomar corpo. Depois do começo das hostilidades na Europa, a cidade negra de Harlem recebeu um novo e formidável impulso”... Para fazer uma raça, é preciso uma consciência comum e uma vida comum. É precisamente isso que a vida urbana, a existência no Harlem, iria trazer.
Harlem conheceu uma renascença. Em 1920, a população negra, concentrada principalmente no Harlem, contava mais de 150 mil pessoas e constituía a maior comunidade negra do país. No curso dos 10 anos seguintes, uma fantástica constelação de talentos literários, musicais e artísticos, iria lhe trazer um renome em escala mundial. As cidades no seio das cidades que eram ocupadas pela população negra, com sua segregação e seu imobilismo, constituem uma anomalia da vida americana; no entanto elas iriam produzir uma nova música que iria se espalhar pelo país e pelo mundo inteiro – e tornar-se imediatamente a música mais tipicamente americana; havia nascido a época do jazz, obra coletiva por excelência, ritual de uma comunidade.
Texto traduzido pela CCMN e publicado
na Revista Eparrei-edição de novembro/2001

 


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