Introdução: África-O Continente é um dos maiores do Planeta
Arte Tradicional em Angola
Cabeça também foi feita para carregar tranças
Especial Literário 25 de Julho
Receitas da Culinária Africana e Afro Brasileira

O CONTINENTE É UM DOS MAIORES DO PLANETA, A ÁFRICA

O continente é um dos maiores do planeta, a ÁFRICA, e no seu interior o grande conjunto de etnias formou uma Cultura milenar, anterior à chamada cultura ocidental cujo marco inicial é a Grécia, forte a ponto de deixar marcas em vários países, entre os quais o Brasil. A cada período histórico que a “civilização branca” tomou contato com a “civilização negra”, a vitória pelas armas resultou sempre numa derrota ante as influências que a Cultura Negra lavrou na trajetória de cada nação confrontada.

Assim foi com o Brasil, aonde a chegada dos escravos negros representou algo muito maior e mais rico do que a mão de obra barata. Com esses negros – muitos deles nobres e guerreiros em suas terras de origem – desembarcou aqui também uma Cultura que soma mais de 3.000 anos antes de Cristo, seja na língua falada e grafada, seja nos valores, nos deuses, na medicina, na culinária, até a música que nascia dos mágicos e famosos tambores africanos.

É inegável que a face do brasileiro está marcada por todos esses traços que é preciso, necessário e urgente valorizar, a começar pelo reconhecimento de que essa população que aqui aportou, trazida pelos portugueses, não era oriunda de “tribos” ou “grupos étnicos” simplistas, mas representantes de uma civilização importante, forte e sábia.

Tomemos alguns exemplos, como a brava e guerreira Nzinga Mbandi Ngota Kiluanji, a Rainha Nzinga, também Rainha Ginga, que governou Ndongo, atual Angola, e de seu trono, altivez e sabedoria, enfrentou os portugueses que ali chegavam como invasores dispostos a escravizar seu povo. Em pleno século XVII (1623), essa mulher soube usar força e meios estratégicos para manter seu povo livre e soberano, como também estabelecer alianças e acordos diplomáticos que mantiveram seu reino.

É dessa força que se alimentaram os quilombos no Brasil, cujo exemplo maior está em Palmares e na figura de Zumbi, que temos de olhar como um herói e não como um transgressor da ordem na época estabelecida pelo poder branco e colonizador. Temos também de reconhecer mulheres importantes nessas lutas, como Aqualtune, princesa na África, porque filha do Rei do Congo, aqui uma das líderes importantes em Palmares, organizando, ao lado de Ganga Zumba, a fuga de negros visando fundar o Estado de Palmares. Importante também Teresa do Quariterê, rainha do Quilombo Quariterê, que liderou durante duas décadas no século XVIII.

Com esses homens que desceram das caravelas lusas veio também o saber científico, que o homem branco não reconhece por não estar grafado na escrita, mas que soma mais de 3.000 anos antes da nossa era, medicina que até hoje se pratica nas beberagens, infusões, banhos, etc., com ervas, raízes, folhas, uma medicina “rústica” que originou a medicina alopática de hoje.

Estudiosos como Cheikh Anta Diop já reconheceram conquistas que incluem domínios e técnicas da mineração e metalurgia, agricultura e criação de gado, ciências como a matemática, engenharia, astronomia e medicina. Em 1879, um cirurgião inglês visitando Uganda registrou a prática de uma cesariana feita por médicos do povo banyoro, demonstrando profundo conhecimento dos conceitos e técnicas de assepsia, anestesia, cauterização.

Já se praticava a remoção de cataratas oculares, tumores cerebrais, e isso há cerca de 4 milênios! Esse saber que nos foi legado pelos negros adultos que aqui chegaram e traziam o saber de astronomia, porque há mais de seis séculos os povos africanos conheciam o sistema solar, a Via Láctea, as luas de Júpiter e até mesmo os anéis de Saturno.

A África produziu também uma vigorosa expressão de arte que ainda hoje domina nos mais diferentes centros e países. E não foi uma arte de posse e individualista, mas uma expressão coletiva e de rituais. As esculturas em madeira e pedras, as máscaras, as peças que eram colocadas sobre as cabeças de vigorosos guerreiros, heróis em seus núcleos, para a realização de danças que celebravam os solstícios de plantações e colheitas, caça e das estações.

As esculturas foram “descobertas” em Paris no início do século XX, ainda classificadas como Antropologia, e reconhecidas como obras de arte por pintores como Pablo Picasso, George Braque, André Derain. Picasso colocou máscaras africanas em sua “Demoiselle de Avignon”, célebre obra que marca o início do Cubismo, e Derain chegou a afirmar que uma escultura feminina africana era mais bela do que a Venus de Millo.

Some-se a essa expressão, os tecidos estampados com a mesma geometria da pintura corporal e também grafada em relevos e pinturas na cerâmica, nas peças utilitárias. Jóias e adornos ornados com pedras preciosas, os elementos corporais. Peças como essas em madeira, pedra, ferro, trançados, aqui se somaram aos elementos da terra – nossas matérias primas – e esconderam-se sob outras imagens das severas perseguições dos portugueses católicos, sobrevivendo pelas que hoje representam a Cultura Negra e a Cultura Brasileira, da qual ela faz parte.

O Museu Afro-Brasileiro, criado, dirigido e composto pelo acervo de Emanuel Araújo é um reconhecimento dessa Cultura Negra, a sua valorização como história e contribuição. É ele quem afirma – “queremos resgatar entre os negros uma imagem que nos sirva de padrão, de orgulho por nossos heróis. Queremos que eles nos sejam devolvidos em carne e osso, em sangue e espírito, como pessoas reais que puderam até alçar-se à condição de mito, mas não mais como lendas perdidas numa nebulosa história. Precisamos ter orgulho dos feitos de nossos homens e mulheres que, a despeito do estigma herdado da escravidão, marcaram seu lugar na nossa história, como cientistas, engenheiros, poetas, escritores, doutores, escultores, pintores, historiadores, músicos. Queremos que os nossos sejam reconhecidos”.

Os tambores de África trouxeram também os cantos e danças. Do samba, que domina o Brasil de ponta a ponta e ganha avenidas no Carnaval com a grande e bela presença negra predominando, ao Maracatu, Congada, Cavalhada, Moçambique. Sons e ritmos que vão de Parintins ao Rio de Janeiro, para se construir uma imagem, passando por todas as comunidades brancas e negras.

A presença negra é marcante também (e fundamental) na mesa deste país com o vatapá, acarajé, caruru, mungunzá, sarapatel, caruru e a tão celebrada feijoada e, não bastasse, também na baba de moça, a cocada e a bala de coco.

E, fundamentalmente, vieram os Orixás, protetores de seu povo –Oxalá, Iansã, Ogum, Oxossi, Iemanjá, Omulu, Exu. Com cantos, preces e cultos hoje protegem milhões de pessoas em todo o país, e precisam ser reconhecidos cada vez mais como religião e não como divindades alternativas. É preciso reverenciar as grandes mães de santo, que conduzem seus terreiros e se ocupam de propagar a paz, a união, a fé.

É essa Cultura Negra que agora abre espaço nos currículos das escolas através da lei 10.639, resgatando os valores que há muito deveriam ter sido reconhecidos e pelos quais ainda temos muito que trabalhar.

Mas se reconhecermos que nossas tranças nos cabelos invadiram o mundo, nossos tecidos coloridos e geométricos já passaram dos nossos corpos para passarelas internacionais. Se tivermos orgulho e reconhecermos que não há mulatos, pardos, cafuzos, morenos, mas sim que somos todos Negros, vamos estar muito mais perto das conquistas que buscamos. Só a Cultura vai nos resgatar.

EM BUSCA DA IDENTIFICAÇÃO AFRO-BRASILEIRA

Os historiadores costumam dividir a África em três áreas culturais – o *Sudão*, a Costa da *Guiné *e o *Congo*. O *Sudão*, com uma arte mais abstrata, apresenta quietude, interiorização e intensidade. Já o *Congo *tem uma arte mais exagerada, decorada, extrovertida. A Costa da *Guiné* fica geográfica e estilisticamente entre as duas. A arte sudanesa compreende o grupo Yorubá, que é, ao que tudo indicam os estudos, o que mais influiu na arte e cultura Afro-brasileira.

Afirmou-se, durante muito tempo, que a arte africana, por ser tribal, era também uma arte anônima, algo já desmentido pelos últimos estudos, podendo-se inclusive identificar alguns mestres em cada uma dessas vertentes de cultura. Entretanto, sabe-se agora, também, que mais que a indivíduos, esses estilos eram ligados aos ateliês de trabalho, transmitidos, com pouquíssimas alterações, de pai para filho. E mais – compreendiam conceitos estéticos, entre eles o *jijora* (a semelhança moderada ao modelo, um equilíbrio entre o retrato e abstração); *Ufarahon* (a visibilidade – o plano inicial do trabalho devia segui-lo até os menores detalhes finais). *Didon* (a luminosidade – um brilho suave da superfície, de modo a ser um todo de luz e sombra). *Gigun* (uma postura correta e arranjo simétrico das partes da escultura, sem excluir um mínimo de assimetria nos detalhes menores). *Odo* (a representação do indivíduo em pleno vigor da vida) e finalmente *Tutu *(compostura e serenidade, qualidades igualmente requeridas para o comportamento humano).

Levando em conta o domínio da escultura em madeira e também da metalurgia que possuíam esses africanos trazidos para o Brasil, podemos entender a sólida presença do Negro nas obras de talha e douração das igrejas Barrocas no nosso país, ficando comprovada a forte influência da Cultura Negra nas artes plásticas brasileiras, exatamente no seu nascedouro.

Não se pode, portanto, negligenciar ou descartar o Negro quando se pretenda fazer história da arte, tanto quanto qualquer outro tipo de análise de fatos históricos, antropológicos, sociais ou econômicos do Brasil. Embora tal afirmativa expresse apenas o óbvio, não se tem insistido bastante ou explorado com a devida profundidade toda a diversificação e extensão do elemento africano na cultura material brasileira. Quando se faz referência à presença negra ou ao elemento negro, entenda-se que se trata das habilidades ou do gênio negro a serviço de projetos e cânones de uma visão de mundo branca nas artes plásticas.

Ocorre que a produção artística Negra apresenta claramente características africanas, como, por exemplo, os anjos ou santos barrocos com traços negros, ou madonas negras como a pintura do teto da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Negros, em Recife. Mais freqüentemente, entretanto, os temas ou a imagem africana escondem-se ou disfarçam-se nas dobras dos mantos ou sob o peso do ouro da estatuária ou talha barroca, como os *otás* em seus nichos, as pedras sagradas incarnando a divindade africana, guardada nos santuários (*pegi*) das casas de culto afro-brasileiras. Em geral está embaixo de armação de madeira, recoberta de tecidos vistosos como o brocado, com toda a aparência de um sacrário.

Esse elemento negro, portanto, dependendo das regiões, pode incluir desde utensílios domésticos até jóias e outros adereços de uso pessoal, como ocorre em Salvador e no Recôncavo baiano, para mencionarmos apenas uma região onde a presença negra é inequívoca e englobante. Todavia, essa presença pode ser facilmente percebida, embora ainda não totalmente estudada, no centro do Brasil, com os tambores e outros instrumentos e objetos musicais que acompanham o ritual e a dança dos *Candombes*, de origem *bantu,* e *Gege*, utilizados no Culto da Casa da Mina, no Maranhão.

Nesse Brasil que também se iniciava, as artes industriais como as de carpinteiro, marceneiro, ferreiro, sapateiro, alfaiate e ourives, eram exercidas por Negros. O elemento Negro tem acompanhado como parte ativa também as artes no Brasil e fecundado os momentos mais ricos de sua história: suas figuras marcantes nos séculos XVII e XVIII o provam cabalmente. É nesse período que a arquitetura e a escultura desenvolvem-se acentuadamente onde os grandes nomes são de Antonio Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho, o grande arquiteto e escultor das Minas Gerais, ou Valentim da Fonseca (1750-1813) que trabalhou no Rio de Janeiro, ou Francisco das Chagas, o Cabra, escultor notável do século XVII.

A metalurgia, aplicada à fabricação de adornos e ornamentos pessoais já era fato corrente na África negra antes de qualquer contato com os europeus. Portanto, os escravos que vieram para o Brasil, sobretudo os que provinham da região ocidental, como os Yorubás, eram grandes conhecedores das técnicas metalúrgicas, daí seu trabalho nas minas de exploração do ouro e como ourives, na fabricação de requintadas jóias, hoje no acervo de museus. São as *“Jóias Crioulas”,* como as pulseiras do tipo *“copo”*, com sofisticada filigrana, as pulseiras de pingentes –os *“balangandãs*”, as “*pencas*” de prata ou cobre e os *amuletos*. Os *tocheiros* brasileiros em prata cinzelada, do período barroco, obedecem a uma técnica que todos os indícios sugerem a origem africana. As chapas de prata cinzeladas e acomodadas em castiçais, palmas e outros adornos de altar.

A vestimenta com o *pano da costa*, as coroas (*odes*) e os adereços e emblemas. As artes domésticas e decorativas ainda merecem um levantamento mais detalhado, mas é nítida a influência africana na cestaria do Piauí, em palha trançada e colorida de buriti, bem como a cerâmica, com os vasos e pratos (alquidar) de oferendas.

Núcleo de Comunicação /2004 /Maria Alice Peres.
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