Carta às Mulheres do 9° Encontro
Nacional Feminista-1987


 

 



Às Mulheres do 9° Encontro
Nacional Feminista

Guaranhuns / Pernambuco
Setembro de 1987

A postura do algumas feministas de ignorar a especificidade da mulher negra baseia-se no desconhecimento da grave questão racial que diariamente agride a mulher negra, embora a sociedade e o próprio movimento de mulheres se recusem assumir o racismo vigente.
E não podemos nos considerar um sub-tema menor. Somos uma grande porcentagem nessa população feminina que se organiza contra a discriminação à mulher. Somos, entretanto, sozinhas quando se trata da discussão mais aguda que é a absurda marginalização social e econômica que nos confina aos espaços mais estreitos em razão da nossa cor.
Se a mulher branca repudia os limites sociais que a destinam às funções ditas femininas, a mulher negra sequer tem a permissão social para essas mesmas funções. Ou seja, ela não pode ser professora, secretária executiva, recepcionista ou rainha do lar. Ela ocupa o quarto dos fundos, junto com todas as inutilidades da casa. No mercado de trabalho é a que limpa a mesa das decisões.

Cabe a nós, mulheres negras, cobrar do movimento de mulheres uma seriedade maior em relação à nossa luta, conscientes do racismo que ainda permeia as nossas relações e que retarda o avanço do próprio movimento feminista.
Sabemos que começamos um trabalho cujos resultados não florescerão numa só primavera. Muitas estações, muitas mulheres negras e brancas se somarão nessa luta de seres, antes de tudo, humanos.
O que vamos fazer, o quanto vamos colher, dependerá da participação da mulher negra, convocada em regime de urgência para avançar rumo a posições de decisões que até agora lhe foram negadas.

Hoje queremos falar, porque temos do que falar. A mulher negra tem tradição de luta e tem história, não é uma alegoria carnavalesca.
A tradição dos orixás mulheres legou-nos outra dimensão maior de mulheres:
a liberdade que não reconhece no homem o seu senhor, a ousadia que não se acomoda na fragilidade dita feminina e a sensualidade sem culpa, tão natural como a dança e o ritmo que a mulher negra leva à perfeição.
Essa liberdade é a nossa herança de mulheres guerreiras, superando séculos de opressão, retribuindo em brilho o axé da raça.
Nossa força para Benê, Benedita da Silva, símbolo da resistência da mulher negra favelada, que desceu o morro para mudar esse cenário desigual.
Nosso axé para Winnie Mandela, símbolo-mulher de uma raça que na África do Sul e no Brasil luta pelos seus direitos mais humanos.

AXÉ PARA TODAS VOCÊS !
COLETIVO DE MULHERES NEGRAS DA BAIXADA SANTISTA

*Documento/panfleto distribuído às participantes 1987


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