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Africa/Educação Anti Racista

Introdução
 

Contos
Crônicas

Poemas I

Poemas II



Uma constelação de diamantes, já com muitos brilhantes literários
 
É com indisfarçável e incontida alegria que apresentamos o Especial Literário Dia da Especial Mulher Negra no Site Lima Coelho, que demarca duas importantes e buscadas vitórias de nossa presença no ciberespaço:1. Concretiza um sonho acalentado por nós: apoiar e abrir espaço para a divulgação da literatura produzida por pessoas, particularmente mulheres, dos setores oprimidos da sociedade; e 2. Inauguou uma parceria do Site Lima Coelho com a Casa de Cultura da Mulher Negra para estimular e visibilizar a produção literária de mulheres negras brasileiras, como uma das celebrações do 25 de julho – Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe. Eu não sabia bem como iniciar a apresentação do que resultou de um sonho, pois como disse Fátima Oliveira, envolvida com a organização do material recebido: “Temos jóias raras no material enviado. O conjunto é uma constelação de diamantes, já com muitos brilhantes...”E diante de uma constelação de diamantes, já com muitos brilhantes literários – a maioria, ou quase todas, estreando na literatura, falha a inspiração, que vem em ondas que batem em minha sensibilidade, habitualmente à flor da pele, com tamanha força, embotando-me de tal modo que não deixam aflorar a totalidade da emoção que é aglutinar tantas mulheres negras amantes da literatura e do “fazer literário”, em tão pouco tempo, pois o convite foi lançado dia 12 de julho, como verão neste “Especial” que consta de: 31 páginas/1371 linhas, com 35 poesias; e 27 páginas/1.236 linhas, com 9 contos; 4 minicontos; e 5

Não posso deixar de externar que fui tomado e inundado por uma incomensurável força de vontade, decorrente da energia que flui de duas mulheres que são capazes de mover o mundo para concretizar sonhos: Alzira Rufino e Fátima Oliveira.

Envolvi-me “de corpo e alma” com a proposta. Particularmente ganhei forças. Ganhei porque encontrei nas pessoas que visitam o site e escrevem comentários; em Alzira Rufino e Fátima Oliveira; e em todas as mulheres que co-produziram e estrelam o “Especial” a mesma vontade de realizar algo diferente e prazeroso que pudesse contribuir, ainda que mínima e pontualmente, para mudar padrões culturais racistas, também nos meios ditos literários. Jornalista Lima Coelho

JUSTIFICATIVA

 Em 1992, no I Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, em San Domingos, na República Dominicana, foi definido o 25 de julho como Dia da Mulher Afro-latino-americana e Afro-caribenha, que no Brasil abreviamos para Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe, com a finalidade de construir um alerta visível para situação em que vivem as mulheres negras da América Latina e do Caribe: opressão de gênero e racial/étnica particulares e que se potencializam.
 
Pretende-se mudar esta situação exigindo que governos e sociedade reconheçam que o mito da “mulher universal”, o mito da “sororidade entre as mulheres” e o mito da “sororidade entre os negros”, são apenas mitos e não condizem com a realidade.

 Ao espanto e à alegação de “pra quê um Dia da Mulher Negra, se já existe o 8 de março, Dia Internacional da Mulher”, a resposta é simples e de certo modo até simplória. O 8 de março, de fato, simboliza um Dia Internacional da Mulher, de todas as mulheres, e até deixa nas entrelinhas que a opressão de gênero é comum a todas as mulheres. Todavia, não enfatiza a situação de opressão particular, por exemplo, das negras e das índias.

Portanto, foi necessário construir uma data para simbolizar quem são as mulheres negras e como vivem sob a égide de duas opressões cruéis em sociedades machistas e racistas.

 
Um outro lado pertinente ao assunto, foi abordado por Fátima Oliveira, no artigo “As negras radicalizaram!”, no qual ela avalia que “o feminismo da América Latina e do Caribe, incluindo o brasileiro, ignora o inteiro teor da luta anti-racista e não se deu conta que, em países como o Brasil (maior população negra fora da África e segundo maior país negro do mundo – só perde para a Nigéria), no qual metade das mulheres são negras, a não incorporação da perspectiva anti-racista pelo feminismo entrava seus propósitos libertários. “ (O TEMPO, 23 de julho de 2003).

Atenciosamente,

Alzira Rufino/Casa de Cultura da Mulher Negra e

Carlos Alberto Lima Coelho/Site Lima Coelho
 
Santos/São Luís, 12 de julho de 2007

** Especial Literário Dia da Mulher Negra do Site Lima Coelho

Promoção: Casa da Cultura da Mulher Negra e Site Lima Coelho
Assessoria: Fátima Oliveira

 


Axé, Exu!
Axé! ............(coro)
Tu que abres todos os caminhos,
polvilha teu brilho sagrado em nossa trilha.

Axé, Exu!
Axé! ............(coro)

Tu que possuis a centelha da transformação,
dá-nos a senha-seta da vitória.

Axé, Exu!
Axé! ............(coro)

Tu que os injustos julgam demoníaco,
mostra-nos a beleza do risco de mudar.

Axé, Exu!
Axé! ............(coro)

* Nilma Bentes, agrônoma, fundadora do Cedenpa (Centro de Cultura Negra do Pará).
“Estou mandando uma ´subpoesia´ que gostaria que, se possível, publicasses, pois ainda não ´desgostei´ dela e foi feita para abertura de uma peça (Axé, Zumbi Axé!, onde a ´Axé´ (solto), era respondido por todos/as participantes) do Grupo de Teatro do Cedenpa.”.
July 22, 2007 11:34 AM. nilmabentes@uol.com.br


NO TEMPO**
Maria Madalena Fernandez de Souza*
No tempo
Longe
Do largo
deserto
Reviver
maresia
Consciência
Muralhas
ao lado
na frente
Melanina ao largo
miscigenada
no tempo.

NAVEGANTE**
Maria Madalena Fernandez de Souza*

Negro,
noite
Navego
Meu mar nunca dantes navegado.
No teu olhar um sentimento
No meu olhar consentimento
É noite,
contentamento ...
A lágrima rola
A contento.

* 28 anos, estudante, nível médio. Casa Amarela, Recife, PE
e-mail madalen@yahoo.com.br


Gilú e os anjos**


Gilú é uma dessas pessoas chamadas de diferente.
Todos a chamavam de Gilú, mas o seu nome era Angelina.
Contou-me que a sua mãe viu um anjo quando ela nasceu.
Gilú adorava cantar e contar histórias de anjos.
Ela cantava canção diferente:
“Boi, boi, boi”,
“Boi da cara branca brinca com a menina que só gosta de carranca”
Gilú me falou de um anjo que sempre que a porta do céu ficava entreaberta,ele dava uma escapadinha pra fazer arte aqui na terra.
Cantava as canções e as estórias de África que um anjo lhe contou.
Gilú me contava a estória de uma anja chamada Mama Noel que não precisava de renas porque ela tinha asas. Era pretinha, bem pretinha, de cabelos com trancinhas salpicadas de contas, que usava maiô de praia, todo colorido e que adorava ensinar as crianças a fabricar seus próprios presentes. Dizia a anja que no Brasil não tinha neve e que por isso não chegavam presentes no Natal pra gente.
Eu adormecia e sonhava com os anjos da Gilú.
Para cada situação, um tipo com uma cor para sua aquarela de anjos.
Cresci sonhando em voar alto, bem alto, com os pés no chão.
Ela amava um certo anjo e pedia silêncio para que eu pudesse ouvir o barulho de suas asas no telhado, ela me dizia que um dia iria voar nas asas dele e quem sabe retornaria?
Eu chorava, chorava, e ela ria.
Não,daquele anjo eu não gostava, a minha terra ficava sem chão.
Todos a chamavam de Gilú, mas o seu nome era Angelina.
Ela não é um anjo comum, sempre que a porta do céu fica entreaberta ela dá uma escapadinha...



(Para minha mãe no dia 25 de julho)

* Ori Wani é nome artístico registrado de Urivani Rodrigues Carvalho Ori nascida no quilombo de Campo Formoso.Filha de Angelina Rodrigues de Carvalho, de quem herdou a arte de esculpir máscaras e bonecas de pano.
Formada também em Ciências Contábeis, Especialização em Auditoria para o Terceiro Setor. Formada em Arte Educação, Especialização em Comunicação Visual /Cultura Afro e Crítica Teatral, atuou durante 12 anos na Comissão de Folclore e Artesanato da PMS da cidade de Santos. Diretora de Arte da Revista Eparrei e consultora de Comunicação Visual de várias agencias de publicidade e produtores da linguagem visual.
Recebeu dezenas de prêmios pelo trabalho como Arte Educadora na Rede Estadual e Municipal de Ensino de Santos. Atua na capacitação de jovens negras da CCMN em Santos.

Negra**

Por Neusa Baptista Pinto*

Negra, não se nega
Nega não, se negra
Não nega se é negra
É negra, se entrega
Se esfrega,
Sente a pele negra
Não se nega não
É bonito se ser o que se é

* Neusa Baptista Pinto é natural de Lençóis Paulista, São Paulo. Aos 32 anos, é jornalista e vive em Cuiabá, capital de Mato Grosso. Está iniciando sua incursão pelo mundo da literatura, tendo lançado em 2006 a obra “Cabelo Ruim? A história de três meninas aprendendo a se aceitar”, que trata da auto-aceitação da criança negra. É uma das diretoras da Dois Comunicação & Idéias, empresa de assessoria de imprensa, e escreve (sempre que há tempo e inspiração) contos e minicontos. neusabaptista@hotmail.com


Quero um dia negro!**

Silvana Conti

Quero Um Dia Negro!
Cheio de energia
Cheio de amor
Cheio de alegria
Quero um dia negro
Quero escurecer minhas idéias
Quero curtir o teu negrume
Quero sentir o teu perfume
Minha flor de ébano...
Preciso da cor da noite
Preciso tocar teu corpo
Preciso tocar tua alma
Preciso do teu Axé
Quero um dia negro
Cheio de felicidade
Cheio de paixão
Cheio de amor
Cheio de emoção
Preciso de um dia negro
Minha Preta Pérola Negra Mulher!

* Licenciada em Educação Física e especialista em psicomotricidade. Coordenadora pedagógica da Escola Municipal de Ensino Fundamental Mário Quintana, bairro Restinga, Porto Alegre.
Coordenadora do Projeto CORESS na EMEF Mário Quintana, Restinga, Porto Alegre.
Presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM)
Da Executiva Nacional da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL).
Realiza formações de educadoras(es) e outros públicos sobre gênero, orientação sexual e relações raciais. Facilitadora do curso Educando para a Diversidade, do NUANCES (Grupo pela Livre Orientação Sexual, Porto Alegre) e do Projeto Colorir – educação sem preconceitos, da CUT – Escola Sul.
Autora de capítulo nas publicações: Sivana Braseiro Conti

. A Educação na Cidade de Porto Alegre (Instituto Popular Porto Alegre, 2004) e Relatório . Azul (Assembléia Legislativa de Porto Alegre 2002 e 2003); autora da revista Projeto . Olhares-ação para visibilidade lésbica em Porto Alegre (NUANCES, 2004).
. Autora de vários artigos sobre lesbianidades, homossexualidades e raça, publicados em meios impressos e eletrônicos.
Prêmios:
. Prêmio Mulher em Ação - área Educação da Câmara Municipal de Porto Alegre no ano de 2006; Troféu Mulher Cidadã 2006 - Educação da Mulher, da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul; e Prêmio Jovens Multiplicadores de Cidadania, da UNESCO e UNDCP (2000), pela coordenação do Projeto CORESS (Cidadania, Ousadia, Respeito, Sexualidade, Solidariedade). silvana_conti1@hotmail.com

VIDA NOVA PRA LUANDA... ESPERANÇA PARA ANGOLA**
Rosalia Lemos*

Coloquei os pés na Terra Africana
Bateu forte meu coração!
Descubro-me muito angolana
Um coração africano!
Reencontro meu pai ancestral, na Liga Africana.

Como afro-brasileira,
Nunca imaginava a dimensão dessa sensação
Chorei ao olhar pela janela do carro trancado,
Fileiras enormes de pessoas abandonadas...
Num espaço, antes ocupado por 400 mil
Hoje, quatro milhões de habitantes!

Pensei na questão ambiental,
Na questão sanitária,
Ao ver, ao longo de toda Luanda, água empossada,
Lixo acumulado.
Resto de um corpo humano, carbonizado por um pneu!
Após assalto frustrado!

Vítimas das minas pouco estavam à mostra.
Fiquei feliz por não atestar tamanha crueldade.
Hoje, os campos minados, depois de desativados,
Dilaceram, ainda – como um monstro invisível – as pessoas!

Muitos jovens e crianças, vagando pelas ruas sem asfalto:
Abandonadas em poças repletas de germes!
Muitas moscas,
Que voam sobre os alimentos
Dançam nas bacias de pão sobre as cabeças das mulheres
Lembrei-me da lata d’água na cabeça...
Coisa, também, do nosso Brasil!

E como trabalham aquelas guerreiras!
Amarram seus filhos nas costas,
E lá vão elas...
No mercado,
Nas vielas... em todos os locais....

Os meninos, muito ágeis, se aventuram entre os carros
Vendendo suas bugigangas.
Se arriscam num trânsito,
Se classificado caótico, é elogio!

Vende-se de tudo!
Compra-se de menos!
A correria constate ao ver um carro parando...
Mais de dez flanelinhas que disputam kuanzas!
A cobrança do pedágio social é enorme,
São 300 para estacionar no Mercado!
Num salário mínimo variando de 100 a 200 kuanzas:
Pasmem: cinco dólares!
E  essa rotina de Luanda.
Os ricos jogam contra os pobres, seus magníficos carros.
As “vans”, não dispõem de bancos.
Somente espaços vazios para empilharem humanos,
Como se fossem animais!

É de resgate de Direitos Humanos que Angola agoniza.
Angola quer ver o fim da guerra civil.
Angola quer ver sepultada a vontade colonizadora que aposta na divisão entre as etnias.
Angola quer caminhar com sua riqueza no petróleo, diamantes...
Angola quer controlar a febre amarela, a doença do sono, a malária!
Angola quer deter a SIDA: AIDS.
Angola quer ver “pretos e mulatos” como irmãos!
Angola caminha pra reivindicar a divisão da riqueza.
Angola quer acabar com a miséria e a pobreza!
Luanda brilha, pois
Angola quer, apenas ser feliz.

Recado de uma mãe**

Ser mãe é cuidar
É estar preocupada até no dormir
É incentivar e
Orientar.
Aonde vão?
Em que direção?
Querer que tenham sucesso na vida
Estudar, trabalhar sendo alguém.
Sigam o exemplo de vossos pais.
Contornem o preconceito e a discriminação.
Sigam as orientações do Mestre da Vida.
Meus filhos:
Sejam amigos.
Se amem muito.
Cuidem um dos outros como sempre lhes ensinei.
Meus filhos:
Nunca me decepcionem
Deixem que eu tenha orgulho de vocês!

* Sandra de Oliveira Santos , 48 anos ,auxiliar de enfermagem e mãe de 05 filhos adolescentes. Santos, SP.

Você, mulher negra!**

Mulher, negra, mulher negra.
Lembro de te ouvir chorando, sozinha.
Não sei se por ter tido dos braços os filhos arrancados...
Por ser coisificada quando antes era rainha...
Ou quem sabe por estar assim tão longe de casa.

Era um choro sofrido, sentido, magoado.
Lágrimas que molhavam o solo de uma terra estranha,
Juntamente com o sangue e suor derramado.
Sangue e suor do seu corpo negro, tão antes belo, puro, faceiro...
Aos poucos surrado, invadido, marcado.

Mas havia um quê diferente naquele pranto,
Junto às lágrimas havia força, coragem, resistência.
O choro se alternava ao canto, um canto marcante, bonito, retumbante.
Onde se versava lembranças de outros tempos, outras terras, outras vidas.
E através da melodia ia arraigando energia aos corações cansados.

O tempo foi passando, e você conquistando a liberdade.
Entre fugas, lutas e revoltas, foi saindo das fazendas, caminhando pras cidades.
Mas o que foi estranho é que o tormento não cessou...
Só mudou de endereço, de forma, de disfarce.
Ainda queriam te podar, rebaixar, excluir.

Proibiram sua entrada em estabelecimentos públicos,
Sua casa foi queimada, sua família agredida.
Até os reles empregos que lhes eram oferecidos foram ameaçados.
E qual não foi o meu espanto, você mulher negra não desistiu.
Lutou pelo sonho que desde sempre seu coração alimenta.

Parece ser um sonho assim grandioso,
Um sonho que não cabe em pensamentos pequenos,
Em medos, receios, fraquezas.
Um sonho que não se sonha só, e muito menos se realiza só,
Um sonho que acalenta a alma, o sonho de liberdade.

Hoje mulher, ainda vejo seus olhos avermelhados do pranto de outrora.
É verdade que é um olhar que carrega dor e indignação,
Mas também é um olhar radiante, firme, alegre e atento.
Ciente das conquistas alcançadas e das ainda a alcançar.
E que não deixa de chorar...

Chora quando seu peito aperta,
Sentindo na pele negra a injustiça do mundo.
Quando a desigualdade escancarada lhe bate a porta
E vê sendo negado aos seus filhos o espaço no país que ajudou a construir
Chora sim, mas não só chora, luta, reage, modifica.

Trás consigo aquele insistente nó na garganta,
Que não a impede de gritar, gritar tudo o que tem direito.
De ser você na sua essência, costumes, trajes e beleza.
É... mulher negra, sinto que te ouvirei cada vez mais alto, mas forte, imponente.
E ah!... Como é bom te ouvir!

 

* Tayná Wienne Adorno Tomás, 19 anos, ativista da Associação
União e Consciência Negra de Maringá, membro do Instituto de Mulheres Negras
Enedina Alves Marques, estudante do segundo ano de psicologia, moradora de
Maringá - Paraná. tw_adorno@hotmail.com

A busca**

Renovado aroma invade e
refresca o ar
Olhos envelhecidos
olham o mundo com novo olhar.
Quantos jovens olhos irão esse mundo enxergar?
Vozes enrugadas
balbuciam novas palavras,
revelam o brilho de um novo pensar
Quantos novos e velhos ouvidos
irão escutar?

Quantas velhas e jovens mãos
irão executar
Jovens e antigas idéias
que esperancejam
um sempre buscar?

Autor: Talita Nery*

* talita.nery@yahoo.com.br

HERANÇA DOS DESERDADOS**
Maria Helena (Helena do Sul)*

O barco partiu
Do porto sombrio.
E foram muitos
Que partiram
Com nome de navio,
Com deserdados negros
Dos pensamentos, donos.
Só dos pensamentos,
No mar de negritude.

Cada um a seu tempo
Chegou de viagem.
E como canta o poeta:
Pra trabalhar olê
E morrer,
E renascer
Em milhões de atitudes,
Até no verso negreiro
De minha negritude.

 

INSANA
Maria Helena (Helena do Sul)*

Insanos dias
de insanas lutas
levam a guria
rebelde e fria
a se agitar
dentro de mim...
Subversiva marionete
que não obedece a voz do dono
que dono nem mais tem,
nem se expõe às histórias
que os outros lhe inventam,
pouco importa...
Não quer mais falar,
arremedar,
imitar passiva
o que já sabe de cor,
perdida nas vias malditas
onde qualquer um pode dizer
coisas comuns,
coisas iguais
que ela não quer mais saber.

Nos insanos dias
de insanas lutas
que transformam
em frieza, indiferença
ausência de crença
a mulher,
silenciosa, quieta
que segura o coração nas mãos,
equilibrando o sim
pra suportar o não,
aceitando a loucura
sem enlouquecer,
enfrentando as raivas
sem enraivecer,
encobrindo as dores
pra não padecer,
limpando as feridas
para renascer,
pacificando a vida
pra poder viver.

Nos insanos dias
de insanas lutas,
tanto faz a guria...
tanto faz a mulher...
Vida boa?
Vida má?
A passagem é curta,
o caminho é longo,
os atalhos secretos
e as curvas tantas,
onde tanto faz
a rebeldia
da guria
no escrete,
ou o silêncio
da mulher
anti-marionete,
a pressa ou a calma?
Coisas da alma.

 

* Maria Helena Vargas da Silveira (Helena do Sul), escritora negra, gaúcha, de Pelotas.
Possui nove livros publicados: É Fogo; O Sol de Fevereiro; Odara, Fantasia e Realidade; Tipuana; Meu Nome Pessoa, Três Momentos de Poesia; Negrada; O Encontro; As Filhas das Lavadeiras; Os Corpos; e Obá Contemporânea.
No prelo: Rota Existencial, que será editado pela Fundação Cultural Palmares, em 2007.
Sua produção literária envolve contos, crônicas, sátiras e poesias, resultado da inspiração de olho no universo da população negra, na gama da diversidade cultural brasileira, na História, na tradição oral de seu povo e na vivência de mulheres negras, com as tensões e emoções que a caracterizam, sem que perca a alegria e a esperança de melhores dias na Nação Brasil.
Especialista em Educação, acredita na Literatura como exercício da palavra que poderá servir de instrumento para a auto-estima e valorização dos afro-brasileiros.
helenadosul@uol.com.br

O problema é a cor**

– Pô, pretinha. Larga isso pra lá, vem pra cá.
– Larga lá. Quem é que vai lavar a louça?
– Pô, neguinha, hoje é domingo, teu nego tá, tá, pá.
– Sei, só que o meu nego vai pra barraca de praia de manhã, encher a cara, e eu fiquei aqui fazendo comida, cuidando da casa...
– O negão aqui, o teu preto, o teu maravilha, trabalha no cais, segura o crediário, faz a operação da tua veia. Só de períneo para tua mãe eu paguei três.
– Não fez mais do que sua obrigação.
– Mas não sabia que a sua mãe tinha tantas horas de vôo.
– E a santa da tua mãe? Tua mãe era santa? Um filho de cada pai?
– Depois da abolição, ela queria variar. Tá no céu com ebó e tudo.
E que permaneça lá por muito tempo. Eu sei o que agüentei.
A senhora minha mãe é um egum de responsa. E se vier aqui na terra é para proteger mulher como tu.
– Quem precisa de proteção é tu. Parar de fazer bico, porque quem segura as pontas sou eu.
Problema da cor.
– Pra mim o problema também é a cor. De cuidar das crianças, trabalhar fora e no fim de semana o meu nego invés de dar uma foda vai para a barraca beliscar as negas. Ainda chega aí todo ouriçado, querendo descansar.
– Pô, preta. Oxalá fez, a mãe Oxum criou e o negão aqui admira. Mas o teu preto jaboticaba só gosta mesmo de vê tu. E depois a gente tá lá fazendo um trabalho de consciência. E o pessoal do movimento.
– Movimento, movimento, só vejo tu parado.Emprego que é bom...
– O problema é a cor, nega, o problema é a cor. Fiz curso no Senac, tenho o segundo grau, mas o problema é a cor.
O problema é a cor!!!!! o problema é a cor!!!!!!! o problema é a cor!!!!!!!!!!!

* Campinas, SP.Autor: Aretuza Ferreira Santos


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