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10 de Julho sem Lélia Gonzalez
Consciente

Cuida de mim Anjo Azul!
Diálogo
Isso não vai dar
Escrita
Favelas e Ruelas
Pele Preta, apenas...

Reflexos
Mulheres
Sinais
Sonho adormecido
Um outro jeito de ninar
Zorra
Salve as Yabás



Sinais

Rumor escondendo segredos
Eu dentro desta fusão
Cigana diferente
Leio rostos
Melancolia
O latifúndio resiste
A vida aborta
Eu produto desta argila
E tudo se multiplica.


Escrita

Paixão se revelando
Paixão nas mãos

Minha face meio pedra
A perda não foi perder

Pedras    horas mortas

Dor nos olhos
E no cansaço
Ternura na minha mão
Resiste

O silêncio que corri
Os nomes que escrevi
Na pele brusca do medo

Quantas vezes tropecei.



Consciente

Recito porque não declamo.
Expiro importado
vencido.
conteúdo arcaico da palavra deteriorada.
Tenho choque alérgico.

Sou medicada com gotas genéricas em palavras.
Sem rótulo.
Transfusão, urgente!
A máquina ligada registra meu cérebro.
Vomito o asco das palavras .
Reclamo, mas não recito.
Fecho o quadro
Apago!


Mulheres

Mulheres
Mundo
propriedade
proprietários
Poder
ferros marcados
véus,burcas.

Nos rios
No vento
Nos mares
O fogo da liberdade.
Negras mulheres.
Livres!
entre os adés e ojás.


Sonho adormecido

Sonho que dorme no fundo do meu coração
Será que continuaremos rasgando as madrugadas?
Coisas que a gente sente
Sonho bom
Viver.

Nessa história
somos a canoa e o rio.
História louca.
Azul
Nesta imensidão de estrelas
Onde estamos?
Sobrevivência de doença escravagista.
Hoje as feras viraram santas
O racismo não muda de estação.
Mentem e a gente finge que acredita.


Diálogo

nos tragam águas
não esse ácido indiferente

pensamos nos pós dos nossos deuses africanos
e estamos preparados
para os punhais
que vocês embalam
em algodão
para não sentirmos o corte
impositivo
autoritário

sentimos a dor
não do corte
mas do movimento dele
sutil
sorridente

 a dor goteja nas paredes
o grito ecoa na garganta
dia que se faz à noite
e me traz à tona



Favelas e Ruelas

O tempo marca a nossa história
Ponteiros do tempo retirados
de museu sempre aberto para visitação.

Cérebros e olhos nos cozinham .
Línguas e bocas degustam o escondidinho.
Gosto de sacanagem do racismo à brasileira .

 

Cuida de mim Anjo Azul!

A vida.
Um recomeço..
Querer ser como um passarinho?
Cortam-te as asas
Não te deixam voar.
Medo que machuca
Coração na divisão.
Ter por querer 
a consciência negra 
Pessoas saem da sua vida.
O coração fica em pedaços,
Longe...
Esquecer o egoísmo, a exclusão.
No cérebro o racismo dizendo que volta depois
que volta depois, que volta depois...
Mulher negra,
Sempre no refazer a vida.
Toma juízo!.
Toma cuidado!.
Querem os seus sonhos.
inteiros,
Essa história de inclusão,
sabor de vitrine.

No grito:

"-Cuida de mim anjo azul !!!.

Anjo azul,

dá uma porrada no outro dia

Não incineres as minhas lembranças.

nem a minha consciência ancestral”.


Zorra

Eu no meio dessa zorra
lutando feito leoa
chorando sempre escondida
debaixo do meu vestido

Nesse Brasil que vai prá frente
com rios feitos de sangue
com homens dentro da noite

E o povo olhando tudo
olhando e ficando quieto
palhaços tristes palhaços

Nesta luta sem poesia
nesta luta pelo pão
o não é arma escondida
na palma da minha mão

Eu não me chamo Medeia
nem Rosa de Luzemburgo,
nem ao menos Dagmar

Vê se te acanha e manéra
ouve meu grito de fera
ferida dos top-tops da vida

Conheço o fundo poço
conheço o meu pesadelo
conheço a morte na carne
conheço a cara no espelho

Conheço a crise e a manobra
conheço a estagnação
e eu só tenho uma carência
carência de sacação



Pele Preta, apenas...

Mulher Negra
base forte
pedacinho de céu nublado, sempre sujeita a chuvas e trovoadas.
História viva.
o hoje.
páginas que o tempo não consegue amarelar.

Mulher Negra,
história de resistência,
sobrevivência,
coragem.
Avesso proposital.
rumo na condução da história,
transporta a sua comunidade,
rainha absoluta, soberana
antes e depois da mesa.
No lutar pelo Ser igual, sem ser banal.
Levas a vida, como os versos para uma canção
Raio de sol na noite.
Não importa de onde, nem para onde.
É a estrela da noite na madrugada.
a guerreira militante, anônima.
Desafiando o tudo errado, no meio do fogo cruzado.
Crescer no Ser Mulher negra
Esse medo que machuca,
essa indiferença que mata.
Se você reside num perímetro não permitido,
Seu vizinho, você nem sabe quem tu és.
Pele preta, apenas...
Mentindo sempre para o seu coração:
“É assim mesmo, coisas da pele preta”.
O tiro perdido ou pensado,
Todos os dias.
Famílias separadas.
Tentam calar tua discordância e revolta.
Balas, não no papel celofane,
mortíferas, um não à vida,
Sua briga com o mundo
Falar pra quem?
Pele preta apenas...
Mudam o jogo de repente.
Deixam-te trocando passos sem sentido
Tiram pouco aos poucos, a tua esperança
Cravam a lamina forte em seus sonhos
E falar pra quem?

Começo de um novo dia.
Se foi a noite.
E a vida, não faz amor com você
Páginas que o tempo amarela
É tudo tão lento.
A chuva não molha o teu coração
Refresca às vezes teus sonhos de verão.
Pele preta, apenas.



Isso não vai dar


Isso não vai dar
Isso não vai dar minha gente.
Do jeito que está
Quilombos,quilombolas vão brigar.

Agua viva !
Nos mares, rios e lagoas
como anjos a chorar
e na desova dos peixes,
estrelas na areia , na areia .
Machado nas matas folhas verdes a chorar
e nas folhas de Ossanha,Iaô não vai deitar
Isso não vai dar!
Queremos um vento bem livre para expirar e respirar
Não queremos senhores donos do nosso ar
Queremos um vento bem livre para expirar e respirar
Isso não vai dar!
Do jeito que está
Nos quilombos, os quilombolas vão lutar.



Um Outro Jeito de Ninar


Dedico este poema, em solidariedade, aos irmãos africanos,
dor clandestina em nossos portos.

A minha defesa, senhores e senhoras,
é um sorriso infantil,
a minha defesa é a vida,
a minha defesa não talha no sofrimento

por que não nos juntamos,
vocês, direita, e nós, esquerda,
e embalamos as crianças
que não acreditamos ao nascer?

E deixamos sofrer
se as podaram, nós permitimos
se as pinçaram, nós deixamos
porque as crianças negras
florescem apesar de nós.

Vida, vida a elas,
tamponem-lhes todas as feridas,
desculpem-nas em todas as suas noites,
defendam-nas nas madrugadas,
dêem-lhes vida
no boca-a-boca do momento

nos mares onde o barco não vier,
o óleo do motor não cheirar,
senhores e senhoras, dêem-lhes vida.

 

 

 


Salve as Yabás

Que o ano das Yabás nos traga prosperidade, saúde e coragem!
E que possamos ler uma nova história do povo!
É preciso que haja uma nova manhã.

Precisamos que a arte e o artista sejam uma só pessoa.
Precisamos que os sinos toquem a liberdade.
Precisamos voltar a acreditar na primavera.

Precisamos que voltemos a dormir, ter sonhos,
e que a insônia não ocupe nossas noites.
Precisamos que os que reverteram a educação em pedra,
não dinamitem nosso saber.
Precisamos formar grandes abraços, circundando mares, rios, árvores, para não morrermos asfixiados pelos que querem vender nosso oxigênio.

Precisamos que a consciência negra humana de nossos ancestrais
ocupe cada pedaço do nosso cérebro,
para não morrermos de hemorragias enganosas.

Precisamos que o descrédito não nos leve a agir como Pôncio Pilatos.
Precisamos vestir roupa de bombeiro,
para não sermos exterminados pela loucura dos neros.
Precisamos que nossos antepassados, os velhos, crianças e mulheres
sejam realmente preservados, com água límpida.

Precisamos que, ao acordar, vejamos realmente o sol
e que não haja nuvens cinzentas nos afogando e nos carregando para bueiros sem saída.
Precisamos exterminar os judas que nos atraem para a cruz da fome, do chicote e do fel.
Precisamos que estrelas no céu nos indiquem nortes.
Precisamos que as manjedouras tenham a visita de reis magos.

Não podemos ficar apenas nos discursos,
pois palavras escondem trapaças
(trapaças como os cento e poucos anos de abolição).

Neste ano que se inicia  precisamos de muitas pessoas para ocupar todas as praças.

Boa virada, Consciência!

Salve quem batalha pra mudar!
Alzira Rufino

Reflexos

Apropriar-se  do meu DNA
Acordo, durmo.
Escovo os dentes.
Apropriar-se  dos manuscritos de ontem.
Fazer  releituras ...
Apropriando-me da realidade dos rebanhos
Leituras  em  determinados momentos com a ferramenta possível.
Horizontalizo.
Me refaço no meu espelho diário.
Aproprio-me dos fenômenos que mudam o destino ,com olhos e face de  produção caseira.
Aproprio-me da minha identidade, metas que aguardam  mudanças não  só para diversão.
Aproprio- me da humanidade que me surpreende.
Aproprio-me do calor   do útero finalizando a produção.
Aproprio-me do fazer e refazer as malas
Aproprio-me da liberdade de me dar voz de prisão e   ordem de recolher para o meu cérebro e sentidos.
Apropriar-se do  aceitar esse  corpo carrasco que no suor do meu corpo transpira  pensamentos.
Alzira Rufino 30/09/2009


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