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À margem
Abomey
Alto risco
Axé Mandela
Binômio
Brasil Palmares
Codificação
Criola
Disparidade
Em teu olho escuro
Femineira
Ileayê
Levante
Liturgia
Luiza Mahin
Mercado de trabalhoMovimentos
Pássaro
Poema a Edmea
Querência
Ritmos
Telúrica
Tumba lelê
Um jeito de Rosa
Você
Winnie

Liturgia

ave maria esquerda
ave maria da luta
ave maria que forma
que modela
o humano

eu sei que com essas palavras me dano
talvez suas metralhas me matem
suas salas me sufoquem
ave maria esquerda
ave maria de marcas
ave maria de lua
ave maria de sortes
ave maria de mortes
ave maria bandeiras
ave maria estrelas
cansados no anoitecer
ave maria da vida
perdida
brigando num sol amanhecer




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Codificação

No dia em que meus olhos não virem
o mel cinza
que meus músculos não tremerem
que eu não sentir medo
é alquímia de um lado só

Ileayê

Bela
A negra luz

Ileayê
Sol rompendo a noite
Negras brilhando dia.

 


Pássaro
impreciso

este corpo carrega a realidade
anda pára e pensa

apalpa a essência
escreve
presente
e cansa

Abomey

Ogun ferros

Nagôs iorubanos
Palma vinho
Bebe
Odudua filho OGUM igbô
Alaxé
 
       Ifá    
Coisas
                Cidade


Luiza Mahin

Filha de gêge
Na escravidão
Luiza Mahin
Sofria os negros

Luiza de gêge
Mulher em luta
Todo dia, toda noite
Em espadas

Mahin dos Malês
Posição ao sol couraça

Luiza revolta a noite
Vermelho o chão da Bahia.

 


Winnie

Winnie, não perca a garra.
Porque Mandela resiste
Winie, se o câncer mata.
Mais que a luta não maltrata

Winnie, a luta
é neblina

Noite também amanhece
E o negro mostra pingos
Não o olhar de mendigo

Com o seu toso teça
A chegada da manhã
Winnie, mulher, seja
Seja.

 

 

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Alto risco

O grito da nuvem o risco do pássaro
Desenho impreciso náufrago
Abrindo rotas de mistério distâncias
Do corpo amanhecendo mulher

 


Ritmos

Iguais não existem
Ciclos
Métodos de barreira
Fases férteis
Climas tropicais
Quente/ úmido
Fluir livremente
Pernas ventre
Pulmões livres
Inconscientes
Nessa estória.


Femineira

Baraculê
Eu sou mulhé
Baraculé

Femineira
Responde a lua
Minha sei lá
Diz que o sol é forte
Mas vive no luá
Da mulhé na rua.

 

 

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DISPARIDADE


minha flor se traduz
menina
mulher

há duas coisas em mim
medo
coragem

que se acasalam
se mesclam
e me lançam
entre lagoas
de águas paradas
entre rios
que correm numa só direção

entre o mar que sofre
a mudança de quatro luas
entre a semente verde
e a seca
que amedronta
entre o fuso
horário das horas
que se adiantam
entre o açoite e o berro
entre a fumaça e a cruz
entre a calçada e alcova
entre a bula e a homeopatia
minha loucura se traduz
entre a mulher e o homem
eu quero ser a metade
sensibilidade
a parteira não errou
quando em meus olhos olhou
canto choro disparidade

se esconde por quê criança?
caramujo não é verdade
pois nele só vence o sol
a lama esconde apaga
mangue floresce ninguém vê
talvez o luar entenda

Deus, que é a liberdade?
entre a chuva e o vento
guarda-chuvas são bobagens
não há termômetro, barômetro
pra medir esta verdade
estouram porque não agüentam
o fogo da realidade

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Querência

Felipe, nêgo abusado,
teu sobrenome é Mathias
da raiz do Jabaquara,
mudavas dizendo odara
na festa inimigo chegava
bandeirinhas tremulavam
o couro do atabaque falava
berimbau dançava
e tu, Felipe?

Observava!
Tinhas o brasão da nobreza
sem desenho, sem papel.

A tua pele mostrava.

Em teu olho escuro

Cesira na tarde
Dor no sangue
Com medo da noite
Incomodas o povo
Que não vê em teu olho escuro
A íris do amanhecer

Tiraste o ferrolho das grades
Tiraste os pés do chão
Cesira
Perdida.

 

 

Você
                    
Não tem folha
Nem registro
É mambembe
É perengue
É grama que se alastra
É a flor que também cheira
É a rede que zonzeia
É a lua que bronzeia
É amor que desespera
dengo que acalenta
É a mulher que amamenta
É o leite sem pedir
É uma água que brota
uma força que lota
É antes e depois
Âncora que atraca

 

 

 

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Poema Edmea

Chama-se o povo à festa
Trabalhadores
Necessários
Convidados de honra
Sorri-se ainda com dúvida
Afinal quem derrubará
As armas
Contra nossas cabeças
Apontadas
Edmea insiste
Virar o jogo
Há vinte anos marcado
Viciado mercado
Aos teus panfletos (Edmea)
Centenas milhares milhões
De pessoas na praça

Tua chama e nossos passos.




Um jeito de Rosa

Suas lutas pelas preservação da vida
Você síntese
Sorriso nos olhos
Um aperto de mãos

Tecendo mensagens
Ora com o grito ora com gemido
Ás vezes com o murmúrio das águas

Nos movimentos
Lutas feministas
Diálogo apaixonado
Passando a luta da mulher
Entrelaçada emoção sensibilidade
Transformações

Como um caminho que renasce
Em cada ato em cada luta
Em cada noite sem sono

Companheira
Acordamos deste triste sonho
A procura de nascentes
Mulheres e sementes

O sol cuidará fazendo brilhar
Juntaremos nossas mãos outra vez

Ficou de ti a essência da flor
Para renascer outras vezes
E nos revelar de novo
O outro lado da raiz
Rosas e suor de corpos

Desafiando o escândalo de vida

Poema para Rosa Gouveia da silva
Companheira vitimada num atentado terrorista
Dia 25 de junho de 1986 – Peru

Minha solidariedade
Tua a minha poesia


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Movimentos

que as pedras caiam
em meu corpo
atiradas pela distância
haverá dentro de mim
uma força
como há em mim
o coração em sangue
e neurônios cansados

meu cérebro ultrapassa
essas pedras distantes
meu sono meu medo

não mostro palavras
apenas
no que sou
a solidariedade
o afeto
não cronometram a distância




Criola

Eu sou criola decente
não sou vil
estou nas cordas
em equilíbrio
de um Brasil
a minha cor apavora
essa raça agride ouvi dizer
não é nos dentes do negro
não é no sexo do negro
é na arte do negro
de viver
melhor dizendo
sobreviver
com essa coisa que arrasta
o tronco que tentam esconder
mas esses troncos existem
no conviver
os troncos estão nas favelas
vejo troncos nas vielas
nas moradias fedidas
nas peles sem esperança
nas enxurradas de não

no jogo das damas e reis
eu me perdi
nas rotas dos estiletes
nas celas e nos engodos
negro carretel de rolo
querem fazer um mundo
marginal criolo

 

 

Telúrica

talvez, quem sabe, talvez
Eu volte prá terra roxa
Cobertura de matagais

talvez, quem sabe, talvez
Eu volte pro barro em molde
Eu volte prá terra negra
África povo imortal

Tumba lelê

moços tiraram meu sangue
meu sangue real

tumba lelê
me levaram
para um Brasil

e declinaram
e machucaram
indignaram meu sangue
meu sangue real


 Levante

nêgo chorará não
não chorará não
vão te pôr

pra fazer esse chão

sei que teu mundo
é de guerra
nêgo bonito
tu não sabes
que força odara
tu tens de obá
teus pés amarrados
correntes de safado
qué te segurá

 

mercado de trabalho

o povo foi para venda
o som do navio negreiro
mistura- se com ar
postes recordam tronco
senhores fazem leilão
agora salas de esperas.

 

Binômio

trabalhador negro
retalhar
material de muitos

 Brasil Palmares

Rostos com imensidão do mar
sem pingos de desespero
negros
não mais fujões
libertam seu nome
recém-nascido
como árvore brotando flores
flores grávidas de frutos
sem cheiro de noite gemida
no peito movimento de força
e o sol fazendo a mistura
com a chama de Zumbi


Axé Mandela

olhar em brilho
corpo em prumo
as grades no teu espaço
carta marcada
notícia errada
tiros da noite
Soweto em chamas
becos e vielas
onde nascem os Mandelas

 

À margem

noites sono tocaia
telhas de vidro
ouve um estampido menino
rotas matagais
estiletes vermelhos
quantos espelhos quebrados
botas em pés errados
como um navio negreiro
no ventre escuta teu irmão

 


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