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Artigos

25 de Julho-Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha Violência Doméstica e a Mulher Negra

Violência contra a Mulher: UM olhar particular
13 de maio de 2010
Para Gerô:No meio do caminho tinha uma pedra preta.

Hoje é 08 de Março e eu  trago uma rosa pra você!

Salve as Yabás
Prevendo 2009

Comemorando e repensando o 20 de novembro com o útero na lua!

Violência contra a mulher negra na TV -Campnha do Apagão-Agência de Notícias/Ética na TV

Mulher Negra uma Outra História

Atravessando o muro das lamentações


Brasil em Palmares

Mulheres Negras no Processo de Desenvolvimento Sustentável

Hematoma Interno

Clementina-Rainha dos Bambas

Saurê

Zumbi mostra a tua cara

A Conferência da África do Sul e o Pós Durban: Como ficamos nós os afrobrasileiros?

Jornal Irohin
O povo negro na rua!

Carta Capital
WebMulher
Mulheres Negras Convocam

Violência contra a Mulher

Não podem adiar nossos sonhos


Entrevista TV Atitude Cidadã-2009
Entrevista: Sem grilhões,a resistência negra

Entrevista Canal 10 2008-Marcha Zumbi em SP

Programa Globo Reporter 05/03/2005 Violência contra a Mulher

Entrevista Jornal Vicentino

Laço Branco-Tribuna

Entrevista Jornal A Tribuna


Se o poder é bom,mulher negra quer poder

Sobre Pintinhos e Águias

O que os afrodescendentes representam



Jornal A Tribuna 2007
Sobre a ministra Matilde Ribeiro

Jornal Afropress
Jornal da Orla
Diário Oficial

Violência contra a Mulher

Por Alzira Rufino

Vivendo num país extremamente racista, que é também um dos campeões da impunidade dos agressores de mulheres, nós, mulheres negras, estamos sob a mira da violência doméstica, sexual e racial, violências e discriminação agravadas pela exclusão econômica.

Temos um sistema de saúde conivente com a história da violência patriarcal A atitude dos profissionais de saúde ainda nos reporta ao tempo da escravidão em que mulheres negras e brancas  não podiam se recusar a satisfazer os desejos e caprichos de homens sem rosto, sem se importar com as lesões e feridas do abuso e da violência. Negonas, ontem e hoje, sem nome ou sobrenome.

A perversidade do sistema de saúde referenda a morte de mulheres, com um diagnóstico que não traz a violência doméstica , a sexual e a  verbal  causando a morte psicológica, não consta  no  atestado de óbito a Violência  Doméstica como causa principal. Desrespeitam sintomatologias e banalizam o  sentir e as  denúncias das mulheres.

Nós, mulheres, e em especial do movimento de mulheres negras, temos que ter mais exigências no planejamento das políticas de saúde, ressaltando a necessidade urgente da inclusão da violência doméstica como um dos pavios de explosivos da destruição psicológica e física da população feminina.A lei Maria da Penha tem ainda muito por fazer, a informação muito a caminhar e os compromissos dos governos devem ser mais sérios, sem a  politicagens de alguns.Algumas  Casas Abrigo   em 2012 já viraram depósitos de pessoas  desabrigadas; nada a ver com seus objetivos iniciais , que seria proteger e abrigar sobreviventes  da Violência  Doméstica em risco de vida.

Chegamos num tempo em que a violência contra a mulher não pode significar apenas números a mais no quadro da morbidade e da mortalidade mundial. Chegamos num tempo em que os movimentos sociais que defendem tantas bandeiras não podem mais tolerar cenas de mulheres de olho roxo, hematomas internos e externos, numa violência sem diagnóstico.

Temos que meter a colher antes que a morte  os separe.É um dever de toda a sociedade denunciar  agressores  que praticam também a violência psicológica.

Nós, mulheres, vivemos o sol do dia e a noite do medo em todos os mundos, em todas as luas, em todo o estar. Medo entre o mel e o fel. Fazer a lei Maria da Penha se tornar realidade nos vários brasis.Chega de Impunidade.

Com urgência , nos 365 dias do ano , vamos sim reativar a auto-estima das mulheres , apoiar as denúncias, intervir , meter a colher , mesmo!

Não  dá pra tolerar machistas que   insistem em conservar     valores  culturais ultrapassados  ,onde se acredita que a a mulher , seja ela esposa, namorada ou companheira  é de sua propriedade , portanto pode bater, xingar e até matar.

Reaja , diga não aos trogloditas .

Violência Doméstica  Tolerância Zero!

Alzira Rufino

 



Um olhar particular
Por Alzira Rufino
Estamos  caminhando para uma nova etapa da temática da  Violência Doméstica contra a Mulher.
Tempo de democratização ,de denúncia e a  Violência  Doméstica hoje é um assunto com  identidade nacional.Os protagonistas são os  machistas  presunçosos  que  fazem da Violência Contra a Mulher  uma festa popular .A tipificação dessa violência  está composta de muitas capas.Dizem que de todas as patologias,o amor é a mais fatal .Tira  o nosso sono o  verificar que a sociedade aceita sempre as mesmas versões para um tema tão antigo e presente no cotidiano de milhares de mulheres no mundo.
A mesquinharia do poder insiste em se manter através da subtração humana:
Se há corpo,não é crime , se não existe corpo ,crime não há.
Enquanto os dirigentes não efetivarem as políticas públicas que garanta a sobrevivência das mulheres que rompem o silêncio, não poderemos falar em avanços na questão dos direitos humanos.

Quanto a nós, as mulheres que sempre sonhamos com amor sem dor,só nos resta esperar que a justiça nos reconcilie com o mundo.
Alzira Rufino é escritora,profissional da área de saúde -Coordenadora da Casa de Cultura da Mulher Negra-Santos




Feliz Dia Internacional da Mulher !
120 Anos Pós Abolição

Após a Lei Áurea, com a vinda de imigrantes europeus, que passaram a ocupar o lugar dos trabalhadores negros na agricultura, indústria e comércio, foram as mulheres negras que continuaram trabalhando nas casas dos ex – senhores,que asseguraram a sobrevivência da família negra, já que os homens negros perderam seu trabalho e foram reduzidos à marginalidade.
  Cozinhando, amamentando e criando os filhos dos patrões, vendendo quitutes nos mercados. Foi assim que, além de sustentarem suas famílias, abriam casas de candomblé, criavam seus filhos de santo,preservando a idéia da família comunitária que tinha suas raízes na África.

Ao contrário da religião católica, onde toda a hierarquia religiosa é masculina, as mulheres nas religiões de matriz africana têm funções muito importantes, tendo se tornado figuras nacionais algumas dessas ialorixás da Bahia, como Mãe Aninha, Mãe Senhora,Mãe Menininha do Gantois, Mãe Hilda,Mãe Stella e outras guerreiras que apesar da perseguição e intolerância  resistem.Portanto, a mulher negra não se identifica tanto com o estereótipo da fragilidade atribuído às mulheres. Além disso, desde menina, ela cuida dos irmãos. Vai trabalhar fora de casa para se auto-sustentar e à sua família.Se tem filhos, não conta, na maioria das vezes, com a ajuda do companheiro.

Ela, na árdua luta pela sobrevivência,torna-se forte, aprende a tomar a iniciativa,a decidir sozinha. Não é de estranhar que muitas delas estejam nas lutas comunitárias liderando movimentos da população mais marginalizada.

Embora forte, auto suficiente, a mulher negra encontra mais barreiras que outras mulheres , para ter acesso à escolaridade,à capacitação profissional e a melhores remunerações no mercado de trabalho. Se outras mulheres  sofrem  restrições de acesso a funções de direção a profissões mais técnicas, consideradas

domínio masculino, gradativa e lentamente  podemos verificar o acesso destas  mulheres no trabalho melhor remunerado.A mulher negra tem dificuldade devido   ao fator adicional da cor,  associada aos antecedentes históricos da escravidão, que associam a mulher negra às funções que ela desempenhava na sociedade colonial e imediatamente no pós- abolição.

 Em sua maioria, ainda é a empregada doméstica, a lavadeira, faxineira, a cozinheira. É a trabalhadora que saiu dos trabalhos forçados do escravagismo diretamente insalubres, mais pesados, para os trabalhos braçais.Desde a lei Áurea até os dias de hoje, a mulher negra, dentro deste contexto, não

conseguiu grandes conquistas.

 As estatísticas comprovam que ela recebe menos que outras mulheres que o  homem negro,uma grande parcela sequer recebe um salário mínimo. A maioria das mulheres negras abandona os estudos cedo para ajudar a sustentar a família,continua ser a  mais violentada e a que morre mais cedo.

Embora nos últimos cinco anos tenhamos observado uma parcela muito reduzida  freqüentando o  curso superior ,os índices se comparados com as não negras é assustador.

As mulheres jovens mais do que nunca necessitam de cotas para mudança do quadro apresentado,já que No mercado de trabalho, a totalidade continua limpando a mesa das decisões.

Embora a mulher negra desde cedo tenha a experiência de ter que ir à luta, de auto sustentar-se e ser arrimo de família, e,tenha se tornado forte, resistente nesse processo, a sociedade passa da mulher negra uma imagem extremamente negativa,pejorativa e isso é um outro entrave ao desenvolvimento de sua auto-estima,ela sofre ainda todo o impacto de uma mídia preconceituosa.

   Do ponto de vista das afetivas, a mulher negra passa por um processo bastante específico. O homem negro quando ascende economicamente procura a mulher branca para uma relação mais estável, para o casamento, com forma de ascensão social. O homem branco vê a mulher negra, na maioria das vezes,como objeto sexual eventual, não para uma relação afetiva.

A mulher negra é, por todos esses fatores,objeto de diárias violências que vão desde a falta de perspectiva profissional,desde o quesito da “boa aparência” no mercado de trabalho, às humilhações de um salário que nem é mínimo,sequer tem os seus direitos assegurados conforme preceitua a CLT ,sem contar  ao assédio sexual no trabalho, à violência doméstica e sexual desde criança.

As violências por ser mulher, negra, e,muitas vezes, por ser pobre , são responsáveis pela sua má qualidade de vida e por pesados ônus à sua saúde física e mental.

A força desses estereótipos pode ser melhor avaliada pelos cientistas do comportamento,mas, em geral, é despercebida pel@s pesquisador@s, que acham que as mulheres são um gênero uniformizado,com as mesmas características de comportamento. No entanto, as mulheres negras são vistas através de estereótipos diferentes das outras mulheres que vêm do seu passado histórico e que ainda não foram suficientemente compreendidos pela totalidade da sociedade

O acúmulo de estereótipos negativos,a pobreza econômica, têm sido um obstáculo à produção intelectual da mulher negra, que raramente consegue invadir os domínios da literatura, ou da pesquisa acadêmica.

As  mulheres negras representam mais da metade da população negra e  feminina do Brasil. Qualquer estratégia de promoção da mulher deve considerar as diferenças que existem entre as mulheres, adaptando as políticas públicas às necessidades reais das mulheres

brancas, negras, indígenas, para que possa se alterar o quadro de exclusão e a constituição possa realmente ser cumprida.Somos todas iguais perante a lei?

Contaremos com a vivência histórica de resistência da mulher negra para mudarmos,em caráter de urgência, esse cenário de desigualdades. Mas há que pular todas essas barreiras, externas e introjetadas.

Precisamos desconstruir as faces perversas do racismo e do machismo.

Mudar este  quadro é o desafio nos  365 dias  das organizações que lutam por direitos mais humanos para as mulheres.Governo e sociedade civil podem sim concretizar  a inclusão de todas as cores.

Para nós,apropriar-se da nossa história significa  ir à luta na denúncia para exigir  o nosso lugar de direito.

O lugar da mulher negra é em todos os lugares!

Nós  também temos sonhos.

PS:

São sonhos  no  feminino que com certeza no futuro comemoraremos no cotidiano,e, é esta a esperança que nos faz lutar, resistir e não desanimar  e um dia dormir e acabar com essa insônia.

Continuo nesse acreditar que as rosas foram idealizadas   para  presentear todas as mulheres:

-“Hoje é 08 de Março e eu  trago uma rosa pra você!

Feliz Dia Internacional da Mulher !

Alzira Rufino


Salve as Yabás

Que o ano das Yabás nos traga prosperidade, saúde e coragem!
E que possamos ler uma nova história do povo!
É preciso que haja uma nova manhã.

Precisamos que a arte e o artista sejam uma só pessoa.
Precisamos que os sinos toquem a liberdade.
Precisamos voltar a acreditar na primavera.

Precisamos que voltemos a dormir, ter sonhos,
e que a insônia não ocupe nossas noites.
Precisamos que os que reverteram a educação em pedra,
não dinamitem nosso saber.
Precisamos formar grandes abraços, circundando mares, rios, árvores, para não morrermos asfixiados pelos que querem vender nosso oxigênio.

Precisamos que a consciência negra humana de nossos ancestrais
ocupe cada pedaço do nosso cérebro,
para não morrermos de hemorragias enganosas.

Precisamos que o descrédito não nos leve a agir como Pôncio Pilatos.
Precisamos vestir roupa de bombeiro,
para não sermos exterminados pela loucura dos neros.
Precisamos que nossos antepassados, os velhos, crianças e mulheres
sejam realmente preservados, com água límpida.

Precisamos que, ao acordar, vejamos realmente o sol
e que não haja nuvens cinzentas nos afogando e nos carregando para bueiros sem saída.
Precisamos exterminar os judas que nos atraem para a cruz da fome, do chicote e do fel.
Precisamos que estrelas no céu nos indiquem nortes.
Precisamos que as manjedouras tenham a visita de reis magos.

Não podemos ficar apenas nos discursos,
pois palavras escondem trapaças
(trapaças como os cento e poucos anos de abolição).

Neste ano que se inicia  precisamos de muitas pessoas para ocupar todas as praças.

Boa virada, Consciência!

Salve quem batalha pra mudar!
Alzira Rufino


Prevendo 2009

Virando a folhinha ,os ponteiros.
No ritmo para 2009 caminhamos nós,os afrodescendentes...
O que se ouve são análises, previsões e muito,muito achismo para 2009.
Há quem possa concordar comigo que a coisa para 2009 tá preta ,e, a sobra é para negras e negros. Não consigo entender essa matemática do consumo dos analistas acadêmicos
Pergunto:
-Haverá revisão de projetos governamentais, dos cheques e dos contracheques?
Orçamentos,fundo soberano ,o senado em recesso e parlamentares ávidos por aumentos.
Xeque mate!
Lá vem pacotes,congelamentos, e o povão vai para o freezer .
Mais uma vez,como sempre, nós, as mulheres e negros faremos parte do grupo dos insolventes.É a recessão atingindo países desenvolvidos e o seu reflexo nos países emergentes.
Continua na tabulação econômica um demonstrativo onde o preconceito, o racismo a homofobia ,a violência doméstica e outras sintomatologias é igual a corrupção humana.
Continua se arrastando a dívida secular com os afrodescendentes ;sem correção monetária, sem juros sem aplicações afirmativas a curto e longo prazo,sequer temos acesso aos extratos de direito, herdados de nossos antepassados ,também produtores da riqueza dos nossos Brasis.
Observo o pavor da 5a.geração dos senhores de engenho ;hiper amedrontados, por perder da noite para o dia, as benesses que a matemática da exclusão lhes proporcionou.
Nessa somatória, a juventude negra não consegue sequer alcançar a porcentagem numérica para acesso a produção de riquezas futuras.
Nos dados revejo o mapeamento da obstrução premeditada do sistema excludente.
Ora,se não estamos inseridos nas reservas monetárias,não participamos da leitura branca da tese econômica, é claro que nas análises, a população negra será convidada para a divisão dos prejuízos.
-E o que é que nós temos com isso?
-Qual é o risco que afrodescendentes correm, aumento do desemprego?
É só olhar em volta do seu quarteirão e irá verificar que as estatísticas não apontam os dados reais ,com relação à população negra;até porque o IBGE não tem acesso a periferia brasileira em sua totalidade.
-Vai aumentar o trabalho informal?
Sim, e como nunca saímos dele ,ainda teremos que dividir com os emergentes carentes que se multiplicará em 2009 .
Queda na bolsa,aumento dos juros de cheque especial, não nos diz respeito.
O país entrará em recessão ?
As mães abaixo da linha da pobreza já estão em recesso há séculos!
São as principais vítimas do absolutismo dos donos da banca ,que elaboram equações articuladas com juros acumulados embutidos no produto final ;estatísticas elaboradas para nos conduzir ao corredor da morte. 
Sobreviver a fome não é marolinha .
No maravilhoso Brasil que conhecemos, não existe a pena de morte,ela está no pensamento, em rede, em conexões conectadas, matematicamente programadas para excluir.
Não há cadeira elétrica, mas, nós conhecemos o seu designer.
Não tem a forca , mas a exclusão sufoca.
Não há possibilidade de acontecer a guerra,mas existe a guerra urbana do tiro perdido que tira do cenário centenas de atrizes e atores.
Querem nos condenar a uma prisão perpétua que dizem aqui não existir.
Pensam que não pensamos.Querem nos levar até a beira do rio como se fossemos burros , mas não poderão nos obrigar a beber a sua água.
Apesar de tanta perseguição e tanta intolerância religiosa, eu acredito na força dos nossos ancestrais. Nós lutaremos para que o nosso futuro nasça e floresça .
É só!

Alzira Rufino

Alzira Rufino é uma escritora autodidata,uma comunicadora social nata que escreve sobre a temática da mulher negra,educação anti racista, direitos humanos para mulheres e a violência doméstica para Revistas e jornais do Brasil e do exterior.É presidente da casa de Cultura da Mulher Negra-editora/produtora da Revista Eparre e Boletim Eparrei- Mais informações sobre Alzira visite sua página no site em Biografias

O povo negro na rua!
19/11/2005 22:10:00

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu em audiência o Comitê Organizador da Marcha Zumbi + 10 , quarta feira, em Brasília, quando aproximadamente oito mil negros e afrodescendentes ocuparam as ruas, reivindicando ações mais contundentes do governo no combate ao racismo e à discriminação racial. Participaram também da audiência o Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e a Ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial (Seppir).

O presidente assumiu o compromisso de chamar novamente a comissão representativa da Marcha Zumbi + 10 para uma reunião de estudo e trabalho sobre o documento com reivindicações.

Representantes de organizações do movimento negro de todos os estados brasileiros caminharam pela Esplanada dos Ministérios, acompanhando os pronunciamentos de lideranças e gritaram palavras de ordem, reivindicando a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial com o respectivo Fundo de Promoção da Igualdade Racial.

Em um trio elétrico, a presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra – Santos (SP) Alzira Rufino, e, representantes do Núcleo de Estudos Afrodescendentes da Universidade de Brasília e do Movimento "Reaja ou será Morto. Reaja ou será Morta", de Salvador, puxaram palavras de ordem durante todo o percurso.

A passeata parou em frente ao Congresso Nacional para um pronunciamento das lideranças: "Senhores e senhoras congressistas revejam suas posições porque o povo negro tem dignidade e exige Reparação Já. Esta Marcha foi feita sem dinheiro público e cada ônibus que aqui veio é um navio negreiro. Quando aqui aportamos para construir esse país, trouxemos também a nossa competência. Queremos a nossa parte no Brasil"

A presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra, Alzira Rufino, chamou os manifestantes a recusar o Estatuto sem o Fundo da Promoção da Igualdade Racial e gritou do alto do carro de som: "Estatuto de Mané, nego não quer".

Durante a Marcha, os militantes gritaram palavras de ordem: "Reaja ou será morto, reaja ou será morta"; "Viva a negra militância, não à intolerância"; "Chega de tudo pela metade, Basta de tudo pelo meio, Agora ou vai ou racha, Queremos tudo é inteiro".

O senador Paulo Paim, presente no Ato, deu entrevista ao Boletim Eparrei on line:

"O Estatuto da Igualdade Racial será aprovado, sem dúvida, no mês de novembro e sancionado pelo presidente da República. Isso é fruto da pressão popular de marchas como esta, da grande mobilização que fez a comunidade negra.

O Estatuto foi solicitado ha mais de dez anos, e, consegui em um ano aprová-lo no Senado por unanimidade. Agora dialogo com os deputados para aprová-lo na Câmara. O evento de hoje fortalece ainda mais para que o Estatuto seja aprovado até o final de novembro e ser sancionado pelo presidente Lula.

Quanto ao Fundo da Promoção da Igualdade Racial, não se pode aprovar em projeto de lei nada que signifique gastos para o Executivo porque seria inconstitucional e consequentemente não seria aplicado. Trabalhamos então com a peça orçamentária, abrimos recursos em praticamente todos os ministérios que terão de forma progressiva – ano a ano – a possibilidade de aumentar o que foi investido em relação ao pleito da comunidade negra, até porque fundo constitucional só com emenda à Constituição.

Por via das dúvidas, estou também apresentando uma emenda constitucional que, se for aprovada, o que estiver ali escrito terá que ser cumprido. No momento, é mais uma linha de pressão política e pressão no orçamento para fazer jus às demandas da comunidade.

Esta Marcha aumenta o número de mulheres e homens, jovens e idosos negros pressionando o Congresso e o Executivo. Um outro marco é que há dez anos atrás estávamos apresentando o Estatuto da Igualdade Racial e a Marcha de hoje está conseguindo aprová-lo. Isso é muito importante. Que ninguém pense que não é mérito do movimento negro. O Estatuto estava engavetado há muito tempo e agora, mediante a pressão, o Senado se mobiliza e o aprova por unanimidade"

"Se hoje estou aqui, devo a Dandara, devo a Zumbi"

Vozes da Marcha

Boletim EPARREI ONLINE http://www.ongfonte.com.br/artigos.php?acao=
detalhes&id=253/Jornal Irohin


Para Gerô:No meio do caminho tinha uma pedra preta.

Continuamos perdendo manos, filhos e filhas, companheiros, irmãos e irmãs negras.
Em todas as horas nos minutos das noites nos dias a polícia continua na ativa.
Gerô do Maranhão...
Mais uma história no cenário deste Brasil que não vai para os grandes jornais, TVs e rádios. Mais um negro morto.
A quem interessa?
No cenário de injustiça social e do racismo cordial foi mais um excluído, como sempre confundido.
Racismo perverso, impunidade constante.
São histórias eliminadas dos folhetins nacionais, afinal, noticiar o assassinato de um negro pela mão da polícia, seja ele trabalhador, artista ou arteiro da sobrevivência, a quem interessa?
Para a sociedade é mais um negro morto.
Ficamos cada vez mais estupefatas com essa indiferença de negras e brancos. A subtração aumenta, a polícia deste país resolve retirar de cena atores e atrizes, antes do término do espetáculo da vida.
E aí?
Se você não reagir será morto. Se reagir morto será!
Como faremos?
Qual é o caminho?
Calados estamos, calados ficaremos? Gerô que praticava sua resistência na arte; negro artista, não passou indiferente aos senhores que insistem em nos exterminar.
Com toda essa subtração do povo negro em todo Brasil, em especial de nossos filhos jovens, é preciso repensar a fragilidade de nossas ações .
Gerô nos ensinou que podemos resistir também com arte.
Já ficamos caladas (os) tempo demais!


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Comemorando e repensando o 20 de novembro com o útero na lua!

Por Alzira Rufino

Tempos, vidas, suor , unidas com esperanças úmidas pela chuva da resistência .

Lágrimas, sorrisos rápidos, brevíssimos..

Quero mudar o curso do rio sem pedir, "licença meu branco".

Reuniões, reuniões ...

São os stress das intermináveis madrugadas para decidir a parada,a marcha ou a caminhada de protesto por igualdade de oportunidades para 49,6% da população brasileira.

Diversidade na construção de uma intervenção do negro na rua onde a luta continua....

Não somos muitos?

Esse povo tem que ir às ruas exigir mudanças de fato!

Permaneceremos invisíveis politicamente e economicamente ?

Continuaremos ainda tutelados ,dando o aceite para as migalhas, e discursando que falta capacitação , preparo técnico , acadêmico e consciência negra para exercer o poder?

Não podemos mais concordar com a gerência de pessoas que teimam em não respeitar a nossa história .

Foi assim com o samba e as religiões de matriz africana que quando não rendiam dividendos,lá estávamos nós fugindo da polícia.

Percebo que hoje essa situação também tende a ocorrer com o movimento negro brasileiro.

Entendo que o comprometimento com a nossa gente, nossa cor , seria o de possibilitar espaços de trabalho e capacitação para a juventude negra, se quisermos no futuro promover a diferença preta nesse país.

Que consciência negra é essa que vai às ruas,articula políticas com ações de afirmação para o povo negro no poder e entrega o orçamento para as máscaras pretas e as jabuticabas de plantão?

São números inúmeros contidos no orçamento em desenvolvimento.

Me indigna observar a negrada que arou a terra,plantou a semente, regou a planta, ainda permitir que caras pálidas sensíveis à causa, "ou ao bolso" queiram nos capacitar.

Fala sério que eu estou com o útero na lua!

O que mudou na nossa consciência?

Aprendem conosco,escrevem a nossa história,palestreiam e continuam querendo falar e receber por nós.

Já dizia minha avó:

"Café a meia não dá lucro minha gente,canavial marafa dá!".

Tem sido assim com a Lei 10.639/03 e outras leis que dizem ou pretendem beneficiar o povo negro .Nós temos que agir e pensar como pretosmoney e bater de frente com esses atravessadores que fazem projetos mirabolantes pra negradinha carregar o piano.

Para começar temos o direito de ter um bom café pela manhã porque saco vazio não fica em pé.

Se informação é poder quero ser informada o que cabe para a negrada nesse latifúndio.

E quanto aos PLs disso e daquilo?

Precisamos repensar nas PLs inócuas, onde os banqueiros governamentais continuam no politiquismo que inflama a minha pele preta.Revejo nesse jogo a semelhança com o jogo de bicho ,onde se apresentavam números pela manhã e não se tinha dinheiro para pagar o prêmio dos ganhadores ao anoitecer.

Estamos no mês da consciência negra ;bem que poderia ser o mês da consciência para alguns setores da sociedade brasileira que usa e abusa da nossa fragilidade apostando sempre na divisão.

Além da urgência de paridade no Congresso ,Assembléia e Câmaras , nós precisamos também descontruir com urgência, essa imagem racista,pejorativa, usada propositalmente contra o povo negro., em especial , contra a imagem da mulher negra .

Insolentes ?

-Sim !

Exigimos as mudanças junto aos governos e ministérios da comunicação .

Nossas propostas precisam ser mais radicais exigindo os Fundos para o Estatuto, para a Lei 10.639/03, Capacitação e Cotas da Juventude Negra,o Fundo para Comunicação e o Fundo para Campanha Eleitoral com divisão monetária igualitária. Caso contrário, continuaremos sendo massa de manobra de uma elite que tem demonstrado total desinteresse com a igualdade de oportunidades para o povo negro.

Vem aí as eleições de 2008,em alguns partidos nós já conseguimos um avanço político ,ao inserirmos as cotas para mulheres e negros.Terminado o prazo de filiação partidária já se iniciaram as articulações para as eleições de 2008 e a procura por laranjas pretas tem sido grande!

Nos querem para alimentar a ganância dos donos de engenho ,hoje representados pelos engenheiros dos partidos em nível nacional.Cadê o Fundo para a Campanha Eleitoral da negrada?

Se nos querem para "laranja"vamos negociar nosso preço Made In Brazil exigindo o prêmio do jogo antes que a banca quebre.

Trocar as figuras carimbadas dos santinhos eleitorais, significa exigir o nosso fundo de campanha, mostrando a nossa cara, refazendo as entrelinhas de que o negro sempre dança e o candidato(a) majoritário sempre ganha;

na negociação ,até que sobra uma vaguinha no fundo do gabinete, em alguns casos são extraditadas (os) para atuar na formação de futuros eleitores em outras cidades.

Urge acabar com a história do parte e reparte, onde para o negro sobra a idéia de que é bobo e não tem arte.

Se assim não for ,no próximo 20 de novembro a palavra de ordem será :

Perdeu, perdeu,perdeu!

Alzira Rufino Coordenadora da Casa de Cultura da Mulher Negra publicado em
http://www.irohin.org.br/onl/new.php?sec=news&id=2272-05/11/2007 - 10:36:13

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MULHER NEGRA UMA OUTRA HISTÓRIA
Pouco mais de cinqüenta anos nos separam da universal declaração de direitos ao que é humano.
Pouco mais de um século nos separa do tempo e espaço em que, como escravas, não éramos donas de nossa fala, nosso corpo, nosso destino.
Ainda hoje tentam nos negar qualquer vida psicológica e intelectual, exibem nosso corpo colonizado pelas fantasias sexuais mais secretas - um corpo sem afetividade.
Se a violência contra a mulher é uma epidemia que desconhece classes sociais, existem segmentos que são mais vulneráveis porque já têm uma outra história de violência, como é o das mulheres negras, sob fogo cruzado de várias formas de violência: a de gênero, privada, no lar; a da pobreza, que as escraviza a jornadas de trabalho intermináveis das quais não sobrará sequer a mínima aposentadoria; e o preconceito racial que ainda tenta nos confinar no espaço que vai do fogão ao tanque, domesticadas, no fundo de cena.
Alguns fatores nos tornam sujeito de direitos diferenciados, ou de não-direitos. Coisas de um passado muito próximo, ainda à flor da pele.
É pelas raízes numa história e numa cultura que não são as mesmas das mulheres brancas, que nós, mulheres negras não nos identificamos tanto com os estereótipos de fragilidade, de submissão e dependência associadas à figura feminina.

Estórias de uma história recente
Para entender a situação atual da mulher negra, temos que buscar na história brasileira alguns fatores que tornam a mulher negra sujeito de especificidades que a diferenciam da mulher branca.
Reduzida à condição de escrava, a mulher negra foi durante o período colonial, um instrumento de trabalho forçado, dentro das casas, na lavoura, nas minas, no comércio. Enquanto a mulher branca era mantida sob rigorosa vigilância moral, reservada para as respeitadas funções de esposa e mãe, a sociedade sujeitava a mulher negra ao abuso sexual do homem branco e adotava o estupro da escrava negra como instrumento de afirmação da virilidade machista do colonizador branco.
Na casa grande, cozinhava, servia de ama de leite para os filhos dos senhores. Suas habilidades culinárias criaram a figura da vendedora de quitutes, ainda nos tempos coloniais.
Após a Lei Áurea, com a vinda de imigrantes europeus, que passaram a ocupar o lugar dos trabalhadores negros na agricultura, indústria e comércio, foram as mulheres negras que continuaram trabalhando nas casas dos ex-senhores, assegurando a sobrevivência da família negra, já que os homens negros perderam seu trabalho e foram reduzidos à marginalidade.
Nesse novo contexto, as mulheres negras assumem a responsabilidade de chefe da casa, pois conseguem encontrar mais opções de trabalho: cozinhando, amamentando e criando os filhos dos patrões, vendendo quitutes nos mercados. Foi assim que, além de sustentarem suas famílias, abriam casas de candomblé, criavam seus filhos-de santo, preservando a idéia da família comunitária que tinha suas raízes na África.
A criação dessas casas de candomblé foi fundamental para resgatar a identidade cultural negra, preservando a visão de mundo africana, suas figuras míticas(orixás), seus cantos e danças e a própria língua yorubá, fon, quimbundo, das diversas nações religiosas. Nessas manifestações místicas, ao contrário da religião católica, onde toda hierarquia religiosa é masculina, as mulheres têm funções muito importantes, tendo se tornado figuras nacionais algumas dessas ialorixás da Bahia, como Mãe Aninha, Mãe Senhora e Mãe Menininha do Gantois, Mãe Hilda e Mãe Stella.
A estrutura do candomblé é matriarcal e as deusas do culto são arquétipos que representam forças poderosas, independentes, sensuais, guerreiras. Portanto, a mulher negra não se identifica tanto com o estereótipo da fragilidade da mulher. Além disso desde menina, ela cuida dos irmãos, vai trabalhar fora de casa para se auto-sustentar e à sua família. Se tem filhos, não conta, na maioria das vezes com a ajuda do companheiro.
Tempo passado, tempo presente, sempre tivemos que ir à luta. Na árdua luta pela sobrevivência, tornamo-nos fortes, aprendemos a decidir sozinhas.
Não é de estranhar que muitas de nós estejamos nas lutas comunitárias, como lideranças, embora os partidos políticos somente nos usem para a coleta dos votos, nunca para uma legítima candidatura a representante política dessa mesma comunidade que nós lideramos.
Portanto é à margem, que nós vamos encontrar a mulher negra.

Avanços das mulheres. Que mulheres?
Décadas de avanços no status das mulheres em todo o mundo e no Brasil, e a mulher negra continua associada às funções que ela desempenhava na sociedade colonial e imediatamente após a abolição. É, em sua maioria, a empregada doméstica, a lavadeira, a faxineira, a cozinheira. É a trabalhadora que saiu dos trabalhos forçados do escravagismo diretamente para os trabalhos braçais, mais insalubres, mais pesados, nesta virada do terceiro milênio.
As estatísticas mostram os avanços das mulheres no Brasil. O Censo de l980 mostra em que profissões há uma maior concentração feminina: empregadas domésticas, secretárias, professoras, vendedoras/ balconistas e enfermeiras.
Uma década depois, em 1990(1), existiam cerca de 30.000 altas executivas, as mulheres eram 62% dos profissionais de Medicina, 42% dos diplomados em Direito, 19% em Engenharia, 40% na Imprensa, ocupando 2.301 cargos de juízas no Judiciário.
Basta, no entanto, percorrermos esses espaços de decisão ocupados pela mão de obra feminina para constatarmos que a maioria das mulheres negras não está lá, está ainda nas funções tradicionais, ou seja, limpando a sala da diretoria, da médica, da advogada, da redação dos jornais, dos tribunais, em resumo, limpando a sala das decisões.
Enquanto as mulheres brancas estão rompendo estereótipos e atingem números significativos em áreas antes restritas aos homens, a mulheres negras ainda têm que lutar para ter acesso a funções como secretárias ou recepcionistas, ocupações tidas como “femininas”, mas que podem ser melhor descritas como “femininas e brancas”.
Mesmo com diploma de curso universitário, poucas mulheres negras conseguem exercer a profissão para a qual estudaram arduamente. Não são tão raros os casos em que têm que continuar trabalhando como empregadas domésticas e faxineiras diaristas, apesar de terem o curso superior.
Aliás, as trabalhadoras domésticas são negras, em sua maioria, e é fácil perceber o porque da lentidão no reconhecimento de seus direitos trabalhistas e porque apenas l/3 têm carteira de trabalho assinada.

Mas como a cor não pega...
Embora a mulher negra, desde cedo, tenha a experiência de ter que ir à luta, de auto-sustentar-se, de ser cabeça de família e tenha se tornado forte nesse processo, a sociedade passa da mulher negra uma imagem extremamente negativa, pejorativa e isso é outro grande entrave ao desenvolvimento de sua auto-estima.
A mulher negra sofre todo o impacto de uma mídia dirigida para a mulher branca. Desde menina, vai espelhar-se nos padrões brancos de beleza, vai rejeitar seus próprios traços raciais.

Um estereótipo associado à mulher negra e bastante popular é o da mulata sensual que satisfaz todas as fantasias sexuais do homem branco. A canção popular reflete bem esses pré-conceitos. Se, por um lado ela é tema principal de canções como "o teu cabelo não nega", isso é feito com restrições à sua cor ("mas como a cor não pega, mulata eu quero o teu amor", Lamartine Babo).
Outras canções, depreciam as características raciais da mulher negra (Tiririca), ou apresentam-na como um objeto sexual que pode ser submetido à força (“Pega ela aí...” - Fricote). O estereótipo de que a mulher negra é “caliente” e de que o seu corpo deve estar disponível a qualquer abordagem, são resquícios da escravidão que continuam preservados na cultura brasileira. O assédio sexual no trabalho é uma constante para as adolescentes e mulheres negras, num grau maior do que ocorre com as da raça branca.
As reportagens sobre o Carnaval brasileiro não revelam o outro lado da festa: o corpo da mulher negra é vendido nas imagens da mídia como marketing para o turismo sexual.
O desdobramento disso é a inclusão de adolescentes e meninas negras nos pacotes turísticos (comércio lucrativo em algumas capitais do Norte e Nordeste brasileiro) e o tráfico dessas meninas/mulheres para redes de prostituição no exterior, como um produto de beleza exótica dos trópicos.
Para isso, contam com a vulnerabilidade das vítimas, sem acesso a qualquer informação e defesa dos seus direitos, o que garante aos exploradores uma magnífica impunidade.

Do ponto de vista das relações afetivas, a mulher negra passa por um processo bastante específico. O homem negro procura a mulher branca para uma relação mais estável, para o casamento, como forma de ascensão social. O homem branco vê a mulher negra, na maioria das vezes, como objeto sexual eventual, não para uma relação afetiva. Desta forma, por negros e brancos, ela é desvalorizada social e afetivamente em relação à mulher branca, que tem sido a musa, a mulher cantada pelos poetas, a rainha do lar.
Embora esteja em germinação um tempo de cidadania negra, para a grande maioria das mulheres negras, a violência passa pela enxurrada de nãos. Ainda hoje negam-nos qualquer vida psicológica e intelectual, exibem nosso corpo colonizado pelas fantasias sexuais mais secretas - um corpo sem raízes na história e sem afetividade.

Outro importante reflexo da violência do racismo, com raízes no nosso passado histórico, é a desestruturação das famílias negras, onde as mulheres negras muitas vezes têm de assumir sozinhas a responsabilidade de criarem os filhos. E porque são poucas as creches, essas mães convivem com o pesadelo de deixarem as crianças trancadas em casa, ou, nas ruas, atraídas pelos traficantes para a venda de drogas em troca de dinheiro fácil para comprar os tênis, brinquedos, roupas, que aparecem sedutoramente na mídia; crianças crescendo sob a mira insensível dos que, a céu aberto, assassinam o nosso futuro.

Também ao abordarmos os efeitos da violência doméstica e sexual sobre a vida da mulher negra, vemos seu quadro agravado pela condição racial. Devido à ausência de estatísticas nacionais precisas nessa área, temos que recorrer a dados dos Estados Unidos, onde está evidenciada essa vulnerabilidade maior: Lá, em 1989, o número de mulheres negras assassinadas é quatro vezes maior que o de mulheres brancas; três vezes mais mulheres negras sofrem estupro; 57% de mulheres negras criam seus filhos sozinhas.(02)

A mulher invisível
A invisibilidade política é uma das maiores violências aos direitos humanos das mulheres negras.
44% da população feminina, ou seja, 36 milhões e 300 mil são negras.(3) Quantas mulheres negras, no legislativo e executivo, dão voz, hoje, a essa vasta população feminina?
Quando as cotas de candidaturas femininas serão, finalmente, repartidas, de maneira proporcional, entre candidatas brancas e negras?

Os nós do femimino
Sendo a mulher negra mais vulnerável à violência aos direitos humanos e por representarem quase a metade da população feminina do Brasil, qualquer estratégia de promoção da mulher, deve considerar as diferenças que existem entre as mulheres, adaptando as políticas públicas às necessidades reais das mulheres brancas, negras, indígenas, para que essa metade da população feminina, negra e indígena, chegue junto com a mulher branca ao poder.
A mulher negra e indígena na América Latina foram as maiores vítimas da ideologia colonialista que busca justificar a exploração do colonizado, atribuindo-lhe uma humanidade inferior.
Contaremos com a vivência histórica de resistência da mulher negra e indígena para mudarmos em caráter de urgência, esse cenário de desigualdades. Mas há que pular todas estas barreiras, externas e introjetadas, fazer do feminismo a soma de todas as variações do feminino.
Porque, apesar de estarmos nas cordas em equilíbrio de um Brasil, é nas mulheres negras que se revela a arte de sobreviver e viver.

(1) Fonte: Revista Veja, Especial Mulher,
agosto/setembro, 1994;
(2) Evelyn White, no livro “Chains, chains, change” (USA);
(3) Dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 1999;

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ATRAVESSANDO O MURO
DAS LAMENTAÇÕES CONTRA O RACISMO

Na quadra da escola, o menino negro vai apanhar a bola que saiu de jogo, mas a professora grita para ele largar a bola, chamando-o de ladrão.
Em outra escola, a professora de português dá aula de redação sobre folclore para a sexta série e escreve uma dezena de frases pesadamente racistas, mandando os alunos copiarem. A classe ri das frases e um dos alunos negros recusa-se a copiá-las.(entre elas "Você sabe por que caixão de preto é cheio de buraquinhos? -Para os vermes poderem vomitar"). Diante da recusa do aluno, a professora comenta "Depois não quer que diga que negro é preguiçoso".
Num condomínio, uma das moradoras, negra, foi contratada para fazer a limpeza no prédio. Um dos vizinhos, quando passava por ela nos corredores do prédio, ofendia-a com termos racistas e chegou a pisar na mão dela quando estava limpando o chão.
Estas três estórias reais têm em comum o racismo e a resposta dos discriminados: recorreram à Justiça para darem um basta a esse tratamento desumanizante.

Fatos como estes pareciam toleráveis em décadas passadas em que se dizia "negro deve conhecer o seu lugar", "nós somos pretos mesmo e é assim", ou que não tínhamos boa aparência. Nem recorríamos à Justiça, (diziam que estávamos loucos), porque a Justiça não tinha um olhar para essa violência.
Partidos e movimentos sociais diziam (muitos ainda dizem) que a discussão do racismo divide, que devemos primeiro enfrentar a desigualdade social, como se a pobreza e exclusão no Brasil não tenham cor. O poder muda de mãos, não de cor...
Fala-se nos avanços das mulheres, com dados estatísticos mostrando que em áreas como a medicina, advocacia, as universidades já estão formando mais mulheres que homens. Mas sabemos que as mulheres negras não usufruem ainda essas conquistas.

Na virada do milênio, não discutimos o racismo apenas, agimos, atravessando o muro das lamentações.
Nem sempre o crioulo dança. De repente, a gente descobre que ele é o regente da orquestra.
Que houve avanços, ainda que mínimos, não podemos negar, quando, recentemente, um juiz de Santos encaminhou um caso de racismo para atendimento na CCMN, por compreender que a discriminação racial requeria um tratamento especializado.
O que significa para as mulheres negras e a raça negra apropriar-se dos instrumentos de direito para ter acesso à Justiça, fazendo cumprir leis que retiram os agressores do confortável refúgio da impunidade?
O que significa para as mulheres negras da Baixada Santista terem um serviço de orientação jurídica, com 3 advogadas/o e poderem estender esses benefícios a mulheres brancas, trocando de lugar no papel histórico de provedoras sociais?
O que significa para as mulheres negras e para a raça negra da Baixada Santista terem um centro de documentação procurado por escolas, universidades, subsidiando advogado(a)s, juíze(a)s, jornalistas e a comunidade em geral?

Tempo presente, tempo de assumir prefeituras, câmaras e estruturas do poder, cobrar o pagamento da divida histórica da ausência dessa metade da população brasileira que é negra na direção do país.
Educar para não discriminar é ousar reescrever a história, é entender que as crianças negras não podem mais se identificar com o cenário negativo que é passado sobre seus ancestrais, redimensionando a história com slogans e spots de orgulho negro.

Silenciar, é espalhar a epidemia do racismo. Não podemos deixar-nos contaminar por essa bactéria que destrói nosso sangue, nossos ossos, mossas células, nossa mente. Não queremos ser cobaias de terapias que remediam nossos males a conta-gotas para saber como reagimos. E reagimos, reagiremos.

Não queremos papéis de seda em nosso corpo, fazendo cópias embranquecidas dos nossos gestos, diluindo nossa alma, nossa força, nossa fé. Somos cultura, somos raiz, matriz desta mistura de alegria e arte de sobreviver.

Entramos no terceiro milênio, iniciado 2001, Ano internacional contra o racismo, xenofobia e todas as formas de intolerância, ano de uma Conferência Mundial sobre esses temas corrosivos, por iniciativa da ONU, que ressalta a importância da educação para esculpirmos a utopia.
Sem hesitar, acrescentaríamos o poder da comunicação. O que a mídia não informou, não aconteceu.
Hoje, não somos mais remadores/as, mas astronautas colocando sinais de alerta para a raça negra nos virtuais espaços siderais, reproduzindo, de outra maneira, os antigos tantãs chamando para a mudança.
O novo design parabólico das mulheres negras mostra que, definitivamente, nos instalamos no site da história.
Que a III Conferência Mundial do Racismo seja mais do que fogos de artifício, brilhos fáceis a nos encantar por alguns meses, uma estorinha a mais produzida em salas fechadas. Que os produtores da peça (governos, mídia, cooperação internacional) invistam para o sucesso do espetáculo, informem às atrizes e atores do drama seu papel na trama, porque cabe a nós, por direito, reescrever o final da história.

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BRASIL PALMARES
No dia 20 de novembro, nacionalmente o Dia da Consciência Negra, honramos a resistência de Zumbi de Palmares e de anônimos/as antepassados/as, sobreviventes de uma guerra de terror e ganância.
Datas como essa me fazem refletir e escrever sobre os papéis que nós, afrodescendentes, queremos representar no grande drama dos 500 anos. Afinal, somos donos da nossa carta de alforria e estamos saindo dos bastidores, não para limpar o palco, mas para sermos protagonistas do novo milênio.

O poder tem cor? Onde estão as cores do Brasil nas mesas de decisão? A ONU considera que existe democracia num país quando todas as etnias estiverem representadas no poder na mesma porcentagem em que estão representadas na população. Ou seja, o Brasil só será uma democracia quando pelo menos 44% das autoridades forem homens e mulheres negras.
As Câmaras, Assembléias e o Congresso são um espelho onde não vemos a nossa cara. Uma amostra: são 15 negros em cerca de 550 congressistas. Ou seja, pouco mais do que 3% dos deputados federais e senadores representam a metade da população brasileira oficialmente afro-descendente; enquanto cerca de 97% dos congressistas representam a outra metade de maioria eurodescendente. A isso nós temos chamado de democracia racial.

A única coisa necessária para a perpetuação da discriminação racial é que as pessoas (brancas e negras) se omitam. A nossa omissão é uma forma de aprovação, porque nada fazer é cooperar com o racismo.
O que dizer da omissão das escolas e universidades? Que expectativas os/as educadores/as têm em relação à criança e adolescente negra/o? Baixas expectativas em relação às/aos estudantes negras/os fazem com que correspondam a isso.
Mensagem quase sempre nas entrelinhas: se as coisas ficarem difíceis, desistam.
O que dizer da omissão dos meios de comunicação? A mídia, pelo seu impacto na opinião pública, deve ser usada de maneira responsável para promover o respeito às diversas raças.

Aos que argumentam, um século depois da abolição (em liberdade vigiada), que ainda estamos despreparados para as funções qualificadas, responderemos que as pessoas negras recebem entre 30% e 40% menos do que as brancas com a mesma escolaridade e experiência no desempenho de funções iguais.
Pesquisa feita pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) indica a quantas anda a nossa democracia racial no mercado de trabalho brasileiro. A maior desigualdade foi verificada em Salvador, vista como uma cidade modelo de integração racial. Não é. Lá a taxa de desemprego entre os negros é 45% superior à dos brancos.

Nessa quotidiana experiência de "enfrentar um leão por dia", teremos que usar estratégias de descansar, recuar, avançar, para podermos chegar inteiros.
Voltamos nossos olhos e coração para a África, berço da civilização, tambor que nos mantém unidos.
Nossos deuses dançam e estão muito próximos das nossas alegrias e vitórias.
Se usamos nossas roupas coloridas, nossos cabelos trançados, não é por sermos exóticos/as. Somos a continuidade de uma história, uma cultura, uma raiz.

Na virada do milênio, estaremos à beira do oceano homenageando nossos/as antepassados/as que no mar ficaram. Temos consciência que suas dores precisamos amenizar.
Nos 500 anos do Brasil, daremos um novo olhar para as nossas crianças, nossas mulheres, para o nosso povo negro.
Negro não é só lindo, é capaz, é competente. Sabemos fazer políticas. Experiência de quilombo, escola de Palmares.
Passaremos nosso anel de bamba para a nova geração afrodescendente. Apesar dos ventos e chuvas fortes da discriminação, apesar da fria desigualdade de oportunidades destes quinhentos anos, os alpinistas estão chegando, herdeiros de Zumbi, Dandara, Luiza Mahin, Quintino de Lacerda, Esmeraldo Tarquínio, Lélia Gonzalez, Beatriz do Nascimento.
Resistir sempre valerá.

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MULHERES NEGRAS NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
A nova ordem mundial que se está desenhando no início do terceiro milênio aponta para a necessidade urgente de se combater a má qualidade de vida dos habitantes do planeta e aponta para o papel da mulher como geradora de vida e como guardiã dos direitos e da sobrevivência dos elos mais fracos da família humana, as crianças e os velhos.

Há décadas, as mulheres de todo o mundo vêm denunciandos os males materiais e espirituais causados por um poder que as exclui, um poder que mantém o planeta em guerra, em desequilíbrio permanente, com uma pequena elite jogando no lixo toneladas de alimentos, sobras de sua avidez, para os milhões de seres humanos que disputam o lixo, em cima dos esgotos a céu aberto e que depois vão esperar,com angústia,a fome do dia seguinte, em suas casas de lata e caixotes, entre ratos e restos da indiferença humana.

A mobilização de tantos milhões de mulheres está transformando o mundo, e a discussão sobre a devastação da natureza tem as mulheres como personagens constantes desse diálogo entre o desenvolvimento, o progresso e a natureza, a qualidade de vida, o direito à felicidade.
São numerosos os países em que as mulheres estão ainda submetidas a desvantagens sociais, econômicas e culturais. Embora seja um pequeno número de mulheres as que estão em situação de mando e não representem a nossa presença majoritária na população do planeta, este processo não tem volta e as mulheres poderão mostrar uma vocação muito mais generosa para administrar, preservando o direito de todos à felicidade .

As mulheres negras e de outras etnias não-brancas têm, dentro desta nova ordem mundial, um papel extremamente revolucionário. Seu avanço político significa o fim da velha ordem colonialista, da absoluta soberba e opulência do colonizador contra a absoluta miséria e humilhação do colonizado.
Na ótica do colonizador, o que importa é ocupar as novas terras, extrair-lhes as riquezas, o sangue, o suor, a vida.
Milhões de mulheres, homens e crianças foram, e ainda são, massacrados e transformados em mercadoria. Foi abolida a escravidão nas leis, permanece ainda a divisão: Primeiro mundo / terceiro mundo; desenvolvimento / subdesenvolvimento.
Nós, mulheres afrodescendentes, heroínas de tantas jornadas duplas, triplas, estamos presentes na produção das riquezas, politicamente invisíveis.
Mas já estivemos caladas tempo demais. Estamos ocupando novos espaços com os nossos próprios passos. O poder deve ser compartilhado entre as mulheres de todas as etnias e nós, mulheres negras do Brasil, forjamos nossa força ao longo de séculos de resistência à perda de identidade e dos nossos direitos humanos.

Assim que, ao tratar da integração das mulheres no processo de desenvolvimento sustentável, deve-se priorizar as mulheres afrodescendentes e indígenas, que são submetidas a uma dupla discriminação.

Algumas recomendações
Essa dupla desvalorização torna-as particularmente vulneráveis e por isso propomos algumas medidas específicas para impulsionar sua maior participação em todos os níveis:

• Maior acesso das mulheres à informação / meios de comunicação e ação concreta dos Estados e da cooperação internacional em relação aos danos causados pelo atual modelo de desenvolvimento insustentável, que afeta preferencialmente as mulheres das populações africanas, afrodescendentes e indígenas.
Programas especiais para concientizar a sociedade sobre a violência provocada pelo sexismo e pelo racismo contra mulheres não-brancas, mais sujeitas à violação dos seus direitos.
• Maior acesso ao ensino médio e superior, incluindo-se também programas de alfabetização e de capacitação profissional para as funções de direção.
• Como parte das atividades que vão celebrar o Beijing+10 (2005) e o Durban+5 (em 2006), os governos e as entidades de mulheres deveriam produzir materiais informativos sobre o status das mulheres que estão sujeitas a mais discriminação, dando mais visibilidade à questão.
• Pressão junto aos governos para que haja mais fiscalização sobre as verbas e os programas voltados para o controle da natalidade, que têm significado para as mulheres do terceiro mundo, em geral, esterilização em massa; fiscalização sobre a prescrição, sem critérios, de medicamentos de reposição hormonal não recomendados por seus danos à saúde.
• Valorização das culturas e dos conhecimentos das mulheres indígenas, afrodescendentes e outras etnias não-brancas, que têm tradição religiosa onde a natureza e seus elementos são considerados sagrados e são a própria divindade.
• Mais apoio dos governos e órgãos de cooperação às mulheres de etnias discriminadas para o seu desenvolvimento econômico, com capacitação para a participação dessas mulheres na elaboração de programas e na sua execução.
• O Comitê para a Eliminação da Discriminação à Mulher, da ONU, deve solicitar aos Estados-Membros da Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação à Mulher (Convenção que o Brasil ratificou) que incluam informes sobre a situação das mulheres de etnias não-brancas, nos países em que essas etnias estiverem marginalizadas do poder.
• Pressão Internacional para pôr fim ao extermínio de crianças e adolescentes negros(as) no Brasil, à prostituição de meninas em todos os países do terceiro mundo, à alta taxa de mortalidade infantil nos países em desenvolvimento, devido à fome, a doenças da miséria, fruto do estrangulamento das nossas economias pela dívida externa e por políticas de exploração do ser humano e da natureza.
• Inclusão da Língua Portuguesa como um dos idiomas oficiais da ONU para maior acesso das mulheres dos países de língua portuguesa aos processos e conferências das Nações Unidas.
• Que a Agenda de Ação das Mulheres por um Planeta Pacífico e Saudável 2015 inclua, urgentemente, diagnósticos e recomendações voltadas para as mulheres que sofrem discriminação de raça, etnia, casta, opção sexual e religiosa, extensivas a todos os temas da Cúpula de Joanesburgo.

Mudar essa visão de mundo que cria tantas separações, inclusive entre mulheres, não tem sido tarefa fácil.
Acreditamos, no entanto, que as mulheres de todo o mundo continuarão derrubando antigos mitos e que também estarão solidárias nesta luta contra os conceitos (e preconceitos) de superioridade de uma raça, uma nação, uma cultura, uma religião sobre todas as outras, para que sejam definitivamente respeitadas a riqueza e a harmonia da humana biodiversidade do planeta...

Contribuição enviada a Joanesburgo para apoio ao documento que está sendo elaborado por mulheres negras, em protesto pela não-inclusão da discriminação de raça e etnia no documento “Agenda de Ação das Mulheres” oficialmente lançado pela WEDO (EUA) e REDEH (Brasil) na Cúpula Rio+10.Publicado na Revista Senac 2004

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NÃO PODEM ADIAR MAIS OS NOSSOS SONHOS
A organização política das mulheres negras para a Conferência Mundial contra o Racismo, a indicação de uma mulher negra sul-africana, Dlami Zuma, para a presidência da Conferência, de uma brasileira negra, Edna Roland, para a relatoria e a visibilidade crescente das mulheres nas Conferências Mundiais são sinais do poder feminino na transformação do planeta.

Durban foi e está sendo um processo de aprendizado da nossa capacidade de ações e concretizações. Dois anos, ou mais, que engenheiras e engenheiros da construção encaminharam este estressante processo para que mais de 600 pessoas estivessem no ar, no mar, na terra de Durban, África.
Ações coordenadas, superando as nossas diferenças e indiferenças num espaço comum.

Na preparação da Conferência no Brasil, muitos/as não perceberam a importância de se ir a Durban com uma delegação expressiva. Priorizava-se a qualidade na mão de alguns e algumas. Por que uma delegação de 600 e não de 50, ou menos?
Ora, por que enfiar a massa nessa história?
Porque era um fato único, Conferência mundial contra o racismo não acontece todo o dia e precisava ter atores e atrizes com a cara do povo brasileiro discriminado.
Mostrar para o mundo que somos muitos/as e que o racismo brasileiro não está só na cabeça de alguns/as. Essa luta é propriedade nossa, de todo um povo.
Se com 600 pessoas na delegação conseguimos pouca visibilidade no cenário de Durban, o que dizer de uma representação tímida?
Não se faz um comício, uma passeata sem povo. Não se toca um violão sem cordas.
A organização dos palestinos em Durban mostrou o poder de pressão de um grupo coeso, agindo em uníssono.

É óbvio que o Brasil, ao levar a maior delegação à Conferência Mundial, deu um recado mais forte, e mais forte teria sido se não tivesse havido tantas reuniões a portas fechadas, informações retidas nas mãos de alguns/algumas, negociações não debatidas e a história contada pela metade.

Tivemos alguns acertos e inúmeras falhas nesta caminhada: abuso de poder, informações truncadas, falta de habilidade de mexer a massa.
É evidente também que a pouca comunicação e informação, as falhas de infraestrutura para a participação brasileira na preparação e durante o evento foram uma imaturidade que não temos o direito de repetir, a não ser por burrice e incompetência, mas isso também foi um aprendizado.
Pé que não dá topada, não cria calo.

Sabemos que o processo de construção não se faz de uma maneira fácil e rápida.
Ainda temos que aprender a negociar nossas idéias e nossas ações de uma maneira mais harmônica e conjunta, respeitando as habilidades de cada um/a na planta da obra.
Socializar e democratizar são verbos para serem conjugado por todos/as. Evitar desentendimentos pessoais em processos dessa importância. Não podemos mais egoisticamente excluir nossos/as desafetos/as pessoais. Numa Conferência em país estrangeiro, sentimos isso.

Precisamos repensar a nossa estratégia nos passos que daremos adiante para que a Conferência de Durban não tenha morte súbita sem diagnóstico.
Política se faz com a razão e sentando na mesma mesa, governo, movimentos, Ongs, legisladores/as, para podermos ter um fio condutor para plugar e agilizar este processo.
Repetindo a mesma frase, fazer política não só com o fígado, mas com a cabeça, trabalhando a união e as diferenças numa mesma mesa. Conduzindo este processo de uma maneira mais madura, conseguimos chegar a um consenso que precisaríamos estar fortalecendo.

Reuniões, financiadores, discussões, desacertos, esperanças, dúvidas, nos levaram a acreditar que é preciso coragem para mostrar ao mundo que nós negros/as desta parte do planeta chamada Brasil estamos com o nosso grito na garganta e para desmistificar representantes que passaram para o mundo que o Brasil é um país em que existe a democracia racial.
O pouco envolvimento da sociedade e das organizações não-negras numa Conferência tão importante mostrou-nos que quando falamos de racismo e políticas afirmativas ainda estamos por nossa conta.

O presidente Mbeki Thabo referiu-se à sociedade sul-africana pós-apartheid, na abertura da Conferência de Durban, dizendo: “Podemos não estar uns contra os outros - na luta contra o apartheid - mas também não estamos uns com os outros”. As palavras se aplicam bem à sociedade racial brasileira.
O Brasil, ao lado da Guatemala e de Honduras, figura entre os países com mais elevados níveis de discriminação e injustiça racial no mundo.
Está lá no documento preparado pela Anistia Internacional para a Conferência Mundial contra o Racismo e a Discriminação.
Também está no documento da Anistia, o que já sabemos: “Apesar da lei anti-racista aprovada no País desde 1997, poucos casos de racismo chegam ao tribunal.”
Virando o jogo, com pesquisas fundamentadas, desnudamos a posição social, econômica da população afro-descendente no Brasil.
O IPEA-Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, confirma: somos 68% de todos os pobres do país e precisamos de ações urgentes, para mais da metade da população dos sobreviventes do racismo, da pobreza brasileira.
É preciso que “urgenciemos” o processo brasileiro para que nossos/as legisladores/as, OAB, organizações negras, de mulheres, sindicatos, façam um olhar de lupa nos capítulos, parágrafos, incisos, recomendações, disposições transitórias e comecem a tirar do papel esse processo.
O papel tudo aceita.

Na etapa final da Conferência e com o impacto da discussão das cotas, conseguimos fazer com que o grande público, a mídia, superficialmente discutissem o racismo.
As falas das autoridades na hora do palanque e dos holofotes devem ser usadas, reproduzidas, incluídas em nossas cobranças.
Não poderemos deixar que estes documentos de promessas façam parte do museu, do centro de documentação das coisas definitivamente passadas.
Isto é responsabilidade nossa, mas não podemos cometer os mesmos erros de quem tem acesso a estas informações, trancando-as no seu guarda-roupa à chave, dizendo-se proprietário/a das informações, do documento.

Se não houver cumplicidade entre as entidades negras, nós não chegaremos a lugar nenhum.
É tempo de ensinar o que sabemos fazer bem e aprender o que nos falta.
Conhecer o que cada um/a está fazendo em sua região, trocar conhecimentos. E isso só coletivamente se consegue.
Essa sensibilização tem que sair das reuniões do movimento e ir para a rua, para o pagode, para onde o povo negro está. Há muito/a jovem aí.
Se os partidos políticos se organizam, se as igrejas se organizam e obtêm respostas, nós, raça negra, maioria da população, também podemos.
Para isso, primeiro, é preciso superar o caciquismo, as desconfianças, sentar com humildade numa mesa de reunião e trabalharmos juntos para que a coisa dê certo, porque do jeito que está não está bom.

Tivemos o processo de Viena, dos direitos humanos, tivemos o processo de Beijing, recentemente a Conferência Mundial contra o Racismo, avançamos mas ainda é pouco. Falta conjunto.
Isso requer comunicação e unidade de ação.
O que diremos em Durban+5?

Estamos num ano eleitoral. A nível estadual e nacional, precisamos de candidaturas e plataformas partidárias compromissadas.
Já é tempo para que a reserva de cotas para candidatas mulheres seja estendida a candidatos/as afro-descendentes.

Nossa mobilização será necessária para podermos enfrentar as dificuldades que nos aguardam. Política não se faz sozinho/a. Vamos abrir o leque de compromisso com educadores/as, famílias, igrejas, sindicatos.
Vamos passar da falação, para a pressão. Exigindo, boicotando, excluindo do nosso voto, do nosso consumo.
Aprender a negociar com nosso poder de maioria. Vale lembrar: o sistema de cotas e outras ações afirmativas reivindicadas pelas organizações negras não vão beneficiar uma minoria, mas uma população afro-brasileira de mais de 72 milhões de habitantes, a segunda maior população negra do mundo depois da Nigéria.
Não vamos falar como maioria, vamos agir como a maioria de fato que somos.

Pré-condição: para termos poder político, o povo afro-descendente precisa estar no mesmo trem. Ser informado e convidado a participar.
E, mais uma vez, falamos de comunicação e informação.

Precisamos de ousadia. Nossas ações ainda são muito tímidas. Fazer um grande estardalhaço, escandalizar com dados, campanhas, grandes marchas, vigílias, materiais com slogans (sugestão: você não é racista, certo?).
Envolver jornalistas, publicitários/as, empresários/as na luta contra a discriminação e a intolerância, a favor das políticas afirmativas.
Falando não de-nós-para-nós-do-movimento, mas falando do movimento para a comunidade afro-brasileira e sociedade. Nossos/as comunicadores/as precisam deixar de querer sombra e água fresca, sapato folgado e jornal sem letra. Vamos trabalhar, gente boa!
Não dá para colocar as informações no cofre. Informação é poder, é política, é fermento.
Os resultados da Conferência de Durban têm que estar na boca do povo. Sem comunicação, a massa não cresce...
Um sonho que se sonha junto, não é um sonho apenas, é realidade.

Por outro lado, o nosso poder político precisa do nosso poder econômico.
Mais uma vez, falaremos da urgência de nos fortalecermos economicamente. Não se elegem candidatos/as negros/as apenas com, idéias, palavras e boas intenções..
Não teremos empresários/as negros/as compromissados/as se não percebermos a importância de uma economia negra forte e apoiarmos as iniciativas de quem se joga na competição de mercado com coragem.
Não podemos jamais esquecer que as empresas negras têm tudo jogando contra. Se nós não as apoiarmos, quem apoiará?
E se não sabemos administrar uma empresa, formal ou informal, temos que aprender com urgência. Sinal dos tempos.
Aliás, num tempo em que as agências de cooperação estão se dirigindo para outras prioridades fora do Brasil, precisamos pensar em alternativas de fortalecimento econômico das próprias Ongs negras, inclusive.

Ao concluir, não podemos deixar de mencionar que, resgatando nossas ancestrais africanas, as mulheres negras estão evidenciando a sua liderança na hierarquia da organização quilombola.
É urgente aumentar o número de mulheres negras, no legislativo e executivo, dando voz, hoje, a essa vasta população feminina que é negra. Quando as cotas de candidaturas femininas serão, finalmente, repartidas? A adoção de uma cota para mulheres negras deverá, a médio prazo, contribuir para o desenvolvimento das lideranças femininas negras que poderão dar representação política às mulheres negras dentro da esfera do poder.

Não podem adiar mais os nossos sonhos...
Incansáveis, ousadas, superando limites, nós, mulheres negras, somos a metade da população feminina brasileira e, hoje mais que ontem, amanhã mais que hoje, conhecemos o nosso lugar.

Epa hei, Oyá! Ora Yê Yê, Oxum!

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ZUMBI MOSTRA A TUA CARA
Contra o extermínio de nossas crianças, contra a infindável desova de corpos meninos nos mangues da nossa civilização.
Luiza Mahin, mostra a tua cara!
Contra os modelos de " boa aparência" que nos descolorem. Contra o voto vendido por três dias de carnaval.
Consciência negra, mostra a tua cara!
Somos os descendentes de Palmares, que abrigou negros, brancos. e índios. Livres, quando o Brasil não o era ainda.
Estamos na virada do milênio e assistimos, conformistas, às lentas mudanças dessa sociedade que decreta a morte de suas crianças (não as considera suas), que silencia diante das violências que nos têm sob mira preferencial.
Nós, da raça negra, somos as vítimas dos massacres cotidianos. Isto não acontece por acaso. Negros e índios têm uma cidadania menor no Brasil.
Os massacres de índios, favelados e crianças de rua, mostram as graves violações aos nossos direitos humanos e o genocídio que, há 500 anos, vêm sendo, impunemente, praticados contra a nossa raça e a indígena, negando-nos o direito à própria vida.
Não podemos mais silenciar e omitir-nos diante desses crimes contra a humanidade.
O IBGE branqueou o Brasil, mas nós, raça negra, enquanto maioria da população brasileira, precisamos mostrar nossa cara.
Nós somos o povão, somos a galera, somos muitos. Nós temos história, temos heróis e heroínas, temos quilombos, temos rezas, temos ervas e a incansável arte de sobreviver.
Precisamos mais. Queremos conhecer nossa verdadeira história, honrar nossos heróis e heroínas, queremos nos orgulhar de nossas raízes, queremos dirigir nossos destinos.
Para podermos viver, é preciso dignidade. Steve Biko, negro sul-africano, líder do Movimento Consciência Negra, escreveu alguns meses antes do seu assassinato: "Ou se está vivo e orgulhoso, ou se está morto".
O racismo leva negros e negras a se convencerem de que não valem nada, que são inferiores. Para mudar isso só uma verdadeira participação política no poder e o fim da farsa de que o racismo inexiste no Brasil. Hipocrisia também é violência.
Outro líder negro, Martim Luther King, vítima como Biko, de assassinato, por lutar contra a violência do racismo, escreveu: "Somos os herdeiros de uma grande e explorado continente chamado África. Somos os herdeiros de um passado de rapina, fogo e assassinato. Eu, pessoalmente, não estou envergonhado do meu passado. Minha vergonha é por aqueles que chegaram a ser tão inumanos que puderam submeter-nos a esta tortura".
Subscrevemos nós, negras e negros, herdeiros deste grande e explorado continente chamado Brasil.


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HEMATOMA INTERNO

Perguntamos por que nós mulheres agüentamos tantos anos de violência no lar e não abandonamos o companheiro.
Perguntamos por que nós negros e negras toleramos tanta humilhação e tanto sofrimento.
Os agressores acham que são absolutos em sua maneira de pensar. Que temos menos-valia porque somos negros, somos mulheres, somos gays e lésbicas, somos trabalhadores/as e pobres.
Ainda há timidez em nossas respostas.
Temos que derrubar essas muralhas do conformismo, pular todas essas barreiras, externas e introjetadas e desatar os nós.

Enquanto profissional de saúde, acredito que muito pouco foi feito para amenizar a dor da rejeição que marca profundamente a nossa afetividade, as nossas respostas à vida, enquanto raça negra e enquanto mulheres.
Trata-se de uma violência diária que não pode ser vista apenas como um caso de polícia, ou de justiça.
Racismo e violência contra a mulher, não se trata só com medicamentos, com denúncias, com a punição da lei, com indenizações.
Os/as profissionais precisam oferecer escuta para essa coisa azeda que faz mal para o estômago, o fígado, os rins.Que sufoca. A banalização das nossas queixas nos destrói.
Entendemos que qualquer caso de racismo provoca danos físicos e psíquicos sim, na infância, na segunda, na terceira idade. Os resultados disso podem se manifestar como falta de motivação, acomodação, falta de perspectivas, sentimento de inferioridade, desarranjos físicos e emocionais, ou negação da sua identidade racial.
Na mulher vítima de violência doméstica ou sexual surge o sentimento de desvalorização, a culpa, desamparo, desespero, o círculo vicioso de repetidos relacionamentos violentos.
Um século após a abolição da escravatura, nós negros e negras, ainda vivemos em liberdade vigiada.
Há que desmontar a condução dos fatos onde passamos de vítimas a réus. Desmontar as cópias embranquecidas dos nossos gestos, diluindo nossa alma, nossa força, nossa fé.
Que expectativas as escolas têm em relação à criança e ao adolescente negro? A mensagem, quase sempre nas entrelinhas, é, se as coisas ficarem difíceis, desistam. E aumentamos a evasão escolar.
Se estamos passando um legado para a nova geração, precisamos pensar que planeta vamos deixar para essa nova geração negra e para essa nova geração de meninas.
O nosso papel hoje não é apenas tamponar as feridas que ainda sangram. É trabalhar novas químicas, novas fórmulas, para que essas feridas não infeccionem e não envenenem nosso sangue, nossos músculos e nos imobilizem.
O hematoma interno do racismo não se cura na sua superfície.

Precisamos reforçar o lado de dentro dos/as sobreviventes, o lado mais sensível, mais magoado.
As pessoas e as instituições terão que ser responsabilizadas pela somatização do dano psíquico ou moral em nosso corpo e mente.
Estes cuidados devem ser estendidos não só às vítimas evidentes, mas aos profissionais que trabalham esse atendimento na saúde mental, nas escolas e na mídia, na elaboração e no cumprimento das leis, nas políticas afirmativas e nos orçamentos para tornar viáveis essas ações.


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Violência contra a Mulher

Vivendo num país extremamente racista, que é também um dos campeões da impunidade dos agressores de mulheres, nós, mulheres negras, estamos sob a mira da violência doméstica, sexual e racial, violências e discriminação agravadas pela exclusão econômica.
Falta, no entanto, ao movimento de mulheres negras bagagem para uma discussão em profundidade sobre a relação entre violência doméstica e racismo e suas conseqüências na saúde da mulher negra.
Temos um sistema de saúde conivente com a história do racismo. A atitude d@ profissional de saúde ainda nos reporta ao tempo da escravidão em que mulheres negras não podiam se recusar a satisfazer os desejos e caprichos de homens sem rosto, sem se importar com as lesões e feridas do abuso e da violência. Negonas, ontem e hoje, sem nome ou sobrenome.
A perversidade do racismo e machismo do sistema de saúde referenda a morte de mulheres, com um diagnóstico que não traz a violência doméstica e sexual nem o racismo para o atestado de óbito como causa principal. Desrespeitando sintomatologias e banalizando seu sentir e suas denúncias.

Nós, do movimento de mulheres, e em especial do movimento de mulheres negras, temos que ter mais exigências no planejamento das políticas de saúde, ressaltando a necessidade urgente da inclusão da violência doméstica como um dos pavios de explosivos da destruição psicológica e física da população feminina.
Chegamos num tempo em que a violência contra a mulher não pode significar apenas números a mais no quadro da morbidade e da mortalidade mundial. Chegamos num tempo em que os movimentos sociais que defendem tantas bandeiras não podem mais tolerar cenas de mulheres de olho roxo, hematomas internos e externos, numa violência sem diagnóstico.
Nós, mulheres, vivemos o sol do dia e a noite do medo em todos os mundos, em todas as luas, em todo o estar. Medo entre o mel e o fel.
Reativar a auto-estima, as denúncias, intervir. Não gostar disto ou de tudo isto.
Separar. Positivo, negativo.
Saber que somos o sangue real da criação.

Alzira Rufino ,  25/11/2007


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Rainha dos Bambas.

Clementina de Jesus, a Rainha Quelé.
Força de mulher negra, trouxe sua música verdadeira. Raízes na voz, sem os pós, retirados para aparecer o brilho.
Clementina, representante genuína da Mãe África.
Clementina, que soube carregar a nobreza a ela conferida por seus ancestrais.
Clementina, que provou que na terra árida,nas pedras,também nascem flores.
Clementina, que não pediu licença aos empresários da música para mostrar sua voz.
Clementina, com o jeito todo seu, guerreira meiga, enfrentou os palcos, fazendo deles uma festa da abolição.
Clementina conheceu e mostrou, o be-aba da vida e a experiência do dia-a-dia,levando na voz o dia de amanhã de sua comunidade negra.
Clementina, profissão: pagodeira mulher negra.
Clementina, que não deixou os entraves da vida fazê-la desistir daquilo para que veio: cantar.
Clementina, seu olhar trazia brilho de estrela, que iluminava da África ao Brasil.
E nós,perguntamos a você: "Marinheira, marinheira, quem te ensinou a navegar? Foi o ronco do navio, foi o balanço do mar?".
Clementina, cada vez que a víamos, a força da sua energia dissipava nossas nuvens de tristeza e desistência.
Clementina, que nos passou a resistência.
Apesar dos nãos.
Clementina, não só rainha do samba, rainha dos bambas, que vivem na corda bamba.
Clementina, poeta mulher, num país que diz que o idoso não tem mais nada a dar. Com sessenta e três  anos anos, levou aos jovens, considerados donos da energia, a força do seu sonho, inteira, levantando multidões.
Clementina, que não foi consagrada pelas elites, pelas FMs, mas por um povo que grita, que sente na pele.
Clementina, que num palco nos chamava à luta e a sua única arma era a consciência do que somos, do que podemos.
Clementina, que trazia como aritmética da vida a soma e multiplicação de Dandaras, Luizas Mahin,Aqualtumes, Mães Aninha, e as anônimas quilombolas, do  campo,das favelas  e das cidades.
Clementina, esquecida na última parada por seus amigos das noites e dos dias.
Clementina, que tinha a beleza de um girassol, flor que não é dada como presente.Existe, embeleza, apenas.
Clementina, digo: Valeu! E quando a luta me parece muito dura cantarei sempre:
“Clementina,cadê você”?
Cadê você, cadê você?

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Saurê

Saurê.  Vai pedra aí, moço?
Saurê.  Vai argila aí, moço?
             Que é pra misturar
Saurê.  Vai braço, aí?
             Que a vontade é trabalhar.
Saurê.  Vai fome aí?
Saurê.  Vai banzo aí?
Saurê.  Vai sonho aí?
Saurê.  Que agonia!
Saurê.  Que esperança!
Saurê.  Vai vida aí, Dona?
   Informar: ferramenta fundamental para construir, verbo a se conjugar nos movimentos sociais, brasileiros, raciais, feministas, sindicais, fortalecendo a idéia de “direitos humanos de uma raça, de um povo”.
   A Conferência mundial contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e todas as formas correlatas de intolerância: uma obra em construção que deve contar com a participação de todos e todas.
   É preciso ter trabalhadores (as) com técnicas de consciência, dignidade e responsabilidade, para que esta obra tão sonhada, ontem e hoje, não caia numa noite de chuva forte. Nós, negras e negros deste país, Afro descendentes, precisamos bater o martelo, “basta o racismo”, na mesma proporção de responsabilidades que a ONU, governo e países que não permitem a discriminação.
   Nesta construção é preciso que saibamos o nosso papel na empreitada: a que horas precisamos chegar, onde e como fazer para não nos atrasarmos.
    Nós, mulheres negras, não aceitamos mais apenas o papel de companheiras, esposas e amantes dos trabalhadores da obra, nem musas do samba da cabrocha bamba.
    Exigimos a nossa participação do alicerce ao acabamento final.
   É com esta visão, que nós mulheres da Casa de Cultura da Mulher Negra, trazemos o nosso EPARREI em 2001.
   Estamos antenadas na urgência de multiplicar esta construção. Conjugar o verbo comunicar é azeitar as tantãs usados pelo (a)s nosso (a)s comunicadore (a)s em um tempo africano. Juntamo-nos às iniciativas que estão surgindo em todo o Brasil. Um (a) mais um (a) é sempre mais que 2.
Na Revista Eparrei n. 1 trazemos um pouco de tudo o que pudemos colher e recolher sobre o processo da Conferência. Temas, orientações, eventos, dicas para a viagem a Durban, fontes de financiamento, mulheres negras em movimento. Um recorte parcial diante da variedade de visões, documentos dos movimentos de todo o Brasil.
   Não podemos esquecer que esta Conferência tem cor e não tem dinheiro. Nosso poder político precisa do nosso poder econômico.

   Comunicar, informar, participar e mudar, é responsabilidade de todas e todos.
   Ao iniciar este editorial com uma saudação poética, pretendemos des - estressar (nos) nesta dialogação com o poder. Lá e Cá.
   A Conferência está aí, precisamos nos apropriar dela.
 
  Alzira Rufino                                                
Revista Eparrei nº. 01- Maio de 2001

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A Conferência da África do Sul e o Pós - Durban. Como Ficamos Nós os Afro- Brasileiros?

A Conferência da África do Sul e o Pós - Durban. Como Ficamos Nós os Afro- Brasileiros?

A importância de uma Conferência Mundial

Dois terços dos conflitos mundiais verificados no mundo atual têm motivação étnico-cultural. Fator mais do que suficiente - teoricamente- para que os olhos do mundo se voltassem para a cidade de Durban, na África do Sul, entre os dias 31de agosto e 7 de setembro, quando aconteceu a 3a.Conferência Mundial contra o racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela Organização da Nações Unidas- ONU. Tanto a primeira quanto a segunda, tiveram por sede países europeus e insignificante presença de delegações brasileiras.

Com a queda do apartheid, nada mais óbvio do que a escolha da África do Sul para sediar a 3a. Conferência. Á revelia dos movimentos pró- direitos humanos nos últimos 20 anos o quadro político - econômico mundial piorou. Aprofundaram- se as desigualdades. Acentuou- se o desrespeito às diferenças. Recrudesceu o racismo. A África sangra,chora e morre de fome como nunca.

A abertura da Conferência Oficial foi feita pelo presidente da África do Sul, Sr. Thabo Mbeki, compondo a mesa de abertura com o Sr. Kofi Anan, Secretário Geral das Nações Unidas, Sr. Dennis Sassou Nguesso, presidente da República do Congo; Fidel Castro, presidente do Conselho de Estado de Cuba; Sr.Manuel Mocumbi, Primeiro Ministro de Moçambique, Sra. Vaira Vike- Freiberga, presidenta da República da Latvia e Sr. Yasser Arafat, prsidente da Palestina; sendo eleita a presidenta da Conferência a ministra sul-africana Diami Zuma. O forúm das ONGS teve em sua mesa de abertura a Sra. Mercia Andrews, presidente do SANGOCO, Sra. Mary Robinson, representando a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, Sr. Obed Mlaba, prefeito de Durban que saudou os quase 14000 delegados presentes. Os painéis e grupos de trabalhos contaram com a presença de ilustres personalidades  como: o prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela e Winnie Madikizela Mandela, ovacionada e aplaudida de pé, durante 5 minutos enquanto falava no Fórum ONGS para mulheres de todo o mundo. Caminhadas de protestos, uma extensa programação cultural e um Centro de Exposições com farto material dos 99 países ali presentes, deram o caráter organizativo da Conferência.

Em meio aos conflitos étnico- culturais em curso no mundo, algumas personalidades mundiais, conscientes da importância significativa deste momento, ousaram comparecer e se fizeram ouvir. Registro apenas algumas destas figuras de participação extensiva:

Sra. Sonan Dagbo, do Tibet; Profa. Angela Davies, USA; Sra. Stella Makanya, Zimbawe; Sr. Youri Mustafa, Egito; Sr. Romero Rodrigues, Uruguai; Adv.Adjoa Aiyeton, USA; Sr. Hannan Ashawai, Paletina; Dr. Xolela Mangu, África do Sul - Fundação Steve Bikoo; Gay McDougall, USA- International Law Group, F. Ashrafi, Teerã; Irene Léon, Equador - Diretora da Área de Mulheres e Direitos Humanos, Risa Kumamoto, Japão; Eileen Pittaway, Austrália.

Destaque especial para a apresentação do Dr. James Dennis Akumu, da Nairóbia, que começou, na fala, lamentando a ausência do grande amigo pan-africanista brasileiro Abdias do Nascimento.

Não Estamos Partindo do Nada

Face à fraca representatividade de uma delegação indígena, de homossexuais, comunidade judaica e religiões afro- brasileiras, a intervenção política no Fórum das ONGS ficou por conta das quase 150 organizações não governamentais negras: comunidades remanescentes de quilombos, universidades, conselhos estaduais e municipais, entidades do movimento negro, que alimentadas em informações por entidade como Geledés-Instituto da Mulher Negra, de SP; do CEAP, do RJ e da Casa da Mulher Negra, de Santos, envidaram esforços para que fossem garantidos os onzes pontos, resultado dos documentos elaborados pela comissão executiva do Fórum Nacional de Entidades Negras, para a Conferência Cidadã, em Santiago do Chile em 2000, a Declaração dos Sindicalistas Brasileiros em Defesa de Políticas Públicas de Promoção de Igualdade Racial, de 2001, assinada pela CUT, CGT, PS, SDS e INSPIR; o documento da Articulação Nacional de Mulheres para a Conferência Nacional;o documento da CONEN; o documento do CEERT; o documento do ENZP, o documento do CNAB; o documento da Conferência Nacional contra o Racismo e a Intolerância, presidida pela vice- Governadora do RJ, Benedita da Silva. Influíram também os documentos tirados no lll Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em BH- Minas Gerais e o documento tirado no Encontro de Parlamentares Negros- Carta de Salvador, Bahia - ambos realizados em julho de 2001. Inestimáveis também as contribuições do CENIERJ- Conselho de Entidades Negras do Interior do RJ; do MNU- Movimento Negro Unificado; da UNEGRO- União de Negros pela Igualdade e do GRUCON- Grupo União e Consciência Negra que, mostram o caráter organizativo de federação e confederação das Entidades Negras - em todos os formatos que nortearam as discussões no Chile, Equador e Genebra e garantiram uma participação conseqüente na África do Sul. Fonte:Revista Eparrei nº.01 - Novembro/2001

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Se o poder é bom,
mulher negra quer poder!

Nós, mulheres afrodescendentes, heroínas de tantas jornadas duplas, triplas, estamos presentes na produção das riquezas, politicamente invisíveis no processo eleitoral dos partidos políticos.

Com urgência,precisamos para as próximas eleições , ocupar novos espaços com os nossos próprios passos.

Saímos da invisibilidade, botamos a mão na massa, a boca nos altos falantes, nos microfones dos Congressos,Câmaras e Assembléias,porém, ainda pretendem nos manter no quartinho dos fundos, distanciadas do poder político de fato.

Políticas feministas conquistadas , a nossa  cota de 30% para mulheres nos partidos esbarra ainda, na concorrência econômica interna dentro dos partidos para se conseguir uma legenda.

 O poder deveria ser compartilhado entre as mulheres de todas as etnias e nós, mulheres negras do Brasil, já forjamos a  nossa força ao longo de séculos de resistência, à perda de identidade e dos nossos direitos humanos e econômicos.

Como concorrer a uma legenda nos partidos, com a avalanche do poderio econômico para se  bancar uma candidatura?

Como disputar uma legenda nos partidos no Brasil, se a porcentagem de representação, o trabalho e a vocação para se fazer política séria, não conta?

Ainda nos querem pintando muros, distribuindo santinhos,balançando bandeiras e mobilizando a comunidade ; na maioria das vezes  recebemos  em troca, um sanduíche de mortadela. Os que defendem o amor ao partido sequer  recebem remuneração. Amassando lama,enfrentando,o sol,a chuva, o sereno e outras intempéries raciais. Somos  companheiras ,camaradas  e aliadas,apenas em épocas de campanhas eleitorais.

Temos hoje um pequeníssimo número de mulheres negras, concorrendo nas eleições de 2008,que não representam  a nossa presença majoritária na população brasileira.

Precisamos repensar nossa participação política, este processo não terá retorno, se a mulher negra não viabilizar sua vocação para administrar.

O relembrar dos feitos de nossas antepassadas ,significa desempenhar nosso papel extremamente revolucionário. Nosso avanço político significará o fim da velha ordem colonialista, da absoluta soberba e opulência do colonizador contra a absoluta falta de recursos da colonizada.

Se o poder é bom, mulher negra quer poder!

Assim que, ao tratar da integração das mulheres no processo de desenvolvimento político e econômico, devem-se priorizar as mulheres afrodescendentes e indígenas, que são submetidas à discriminação .

Almejamos  as cotas raciais já, para que  os nossos iguais possam competir com dignidade no mercado econômico. A comunidade negra nas universidades já; significará a elaboração de processos antropofágicos para compartilhar a economia  apreendida outrora em África , uma forma para solucionar  a desigualdade do sistema capitalista vigente no mundo desglobalizado, ainda!

A tríplice discriminação por sermos mulheres,negras e pobres, nos torna particularmente vulneráveis e por isso necessitamos de algumas medidas específicas para impulsionar uma maior participação em todos os níveis:

- Maior acesso das mulheres à informação / meios de comunicação e ação concreta de reparação dos Estados e da cooperação internacional em relação aos danos causados pelo atual modelo de desenvolvimento insustentável, que afeta preferencialmente as mulheres das populações africanas, afrodescendentes e indígenas.

- Programas especiais para conscientizar a sociedade sobre a violência provocada pelo sexismo e pelo racismo contra mulheres não-brancas, mais sujeitas à violação dos seus direitos.

- Necessitamos do acesso ao ensino médio e superior, incluindo-se também programas de alfabetização e de capacitação profissional para as funções de direção e administração.

- Mais apoio dos governos e órgãos de cooperação às mulheres de etnias discriminadas para o seu desenvolvimento econômico, com capacitação para a participação dessas mulheres na elaboração de programas e na sua execução.

- O Comitê para a Eliminação da Discriminação à Mulher, da ONU, deve solicitar aos Estados-Membros da Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação à Mulher, o Plano de Durban (Convenções  que o Brasil ratificou) que incluam informes sobre a situação econômica das mulheres de etnias não-brancas, nos países em que essas etnias estiverem marginalizadas do poder.

Mudar essa visão de mundo que cria tantas separações, inclusive entre mulheres, não tem sido tarefa fácil.

Acreditamos, no entanto, que as mulheres de todo o mundo continuarão derrubando antigos mitos e que também estarão solidárias nesta luta contra os conceitos econômicos e pré-conceitos de superioridade de raça e gênero.Enquanto a igualdades de oportunidades para a disputa no pleito eleitoral não chega, vamos pensando em votar certo.
 
Para não anular de vez a  nossa desesperança, as alpinistas negras  estão chegando:

Se o poder é bom, mulher negra quer poder! 

Alzira Rufino
nov/2000

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Sobre Pintinhos e Águias

Somos nós que parimos pintinhos e águias (detalhe, as e os).

Somos as mães do Acari, da Candelária, as cobaias exterminadas pela esterilização em massa, a maioria das chefes de família, as que continuam lutando pela paternidade responsável, e ainda, a maioria que morre de aborto ilegal nesse país.
Somos nós, mulheres negras, que acompanhamos o velório de nossos filhos, netos, sobrinhos, irmãos e vizinhos.
Continuamos levantando uma bandeira de luta com o coração em sangue e com a cabeça, que pede justiça em todos níveis.

Somos as quilombolas, as yalorixás que preservam os focos de resistência, as domésticas, as religiosas, as lésbicas, as diaristas, as advogadas, as médicas, as professoras, as enfermeiras, as empresárias, legisladoras, as profissionais do sexo,as professoras, as anônimas...
Somos mulheres negras de vários segmentos do movimento social que esperam a implementação das políticas de ações afirmativas acordadas em Durban para população negra.
Em 1995, a direita nos acusava de ser contra o governo, em 2005 a história se repete.

Ser mulher de verdade é não achar bonito não ter o que comer. Sempre estivemos e estaremos cobrando as nossas especificidades, seja no governo de direita, de esquerda ou de centro. Antes de ter participado da Fundação do Partido dos Trabalhadores na cidade de Santos, eu já ERA NEGRA E CONTINUO SENDO.

A população negra pensa, mulheres negras pensam. Não somos alienadas .
Reafirmamos a nossa posição de estar na Marcha do dia 16 por nossa própria conta e risco.
Quando alguma coisa nos faz mal, vomitamos, e não é por estarmos grávidas. Isso significa preservar a saúde mental.

Lélia Gonzalez, hoje no Orum e nós aqui no Ayê, continuando a trabalhar para mudar essa história de submissão, silêncio, estupro ideológico social e político .

Duas Marchas e a liberdade de optar por propósitos é hoje a decisão do Movimento Negro Brasileiro.
Enfim, entendo que chegamos a exaustão das discussões e a meta agora é trabalhar para que elas realmente aconteçam.

Violão não toca sem corda e não se faz passeata sem gente.
Ter em mente para estar lá com dignidade, sem estar pedindo ticket alimentação para nenhum governo. Sabemos que não se chega em Brasília à pé ou a cavalo. Sugiro que as associações de bairros, as Ongs, os ( as) profissionais liberais, os (as) autônomos (as), assalariados (as), funcionários (as) públicos, empregados (as) e desempregados (as) ou não, e + afins, entendam o significado de união para captar recursos e realmente fazer acontecer a explosão negra em Brasília.
Proponho que, as pessoas, mulheres e homens negros mostrem a sua cara respondendo aonde estão, para onde vão e no que acreditam. Não sejamos atores e atrizes de um palco iluminado.

Fátima, parabéns pela coragem, característica de nós, mulheres negras, que desde a Abolição desempenhamos um papel de resistência negra no país. Com certeza não estaremos lá como "Abre Alas que eu quero passar"...
Ânimo, não podemos fazer + Marcha à RE.

Esperamos que as nossas deusas e deuses continuem nos fortalecendo.

Nossa realidade é dura, mas tem raiz que segura.
Axé para todas (os)
Alzira Rufino,Mulher Negra-Texto Marcha Zumbi +10-Em 16/09/2005 .Publicado em
Boletim Eparrei no Blogspot
http://marchazumbimais10.blogspot.com/2005/09/sobre-pintinhos-e-guias.html e Revista Eparrei

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Entrevista publicada  em 12/05/07- A Personalidade do Mês de Maio. Alzira Rufino

 

PERSONALIDADE DO MÊS

Reportagem Jornalista Rita Silva

Vinda de família humilde, nascida em uma casa de cômodos em Santos, mais precisamente no bairro do Macuco, Alzira Rufino é referência na luta contra a violência à mulher e a favor dos direitos dos negros. Fundadora da Casa de Cultura da Mulher Negra, sofreu na pele muitos preconceitos e indiferenças. Poetisa, escritora e feminista convicta, Alzira tomou gosto pela literatura já aos 14 anos de idade, o que lhe proporcionou se tornar a primeira escritora negra a ter seu depoimento gravado no Museu de Literatura Mário de Andrade, em São Paulo. Em entrevista exclusiva a equipe do Jornal Vicentino, a diretora presidente da entidade falou de sua vida, trajetória de lutas e conquistas. Confira a seguir.

Aos nove anos, Alzira Rufino já trabalhava com seu irmão vendendo sacos vazios de cimento, peixe e palhas de taboa além de acompanhar sua mãe, catadora de café. Os estudos nunca deixaram de fazer parte de sua vida. Já na 3a série do Ensino Fundamental, recebeu seu primeiro prêmio de redação e desde esse período optou pela literatura, com atenção especial para a poesia. Na adolescência, foi faxineira e ajudante de cozinha da Irmandade Hospital Santa Casa de Santos, onde ganhou um concurso de redação que resultou em um prêmio do Banco Francês.

Sua vida atribulada soma títulos importantes como Mulher do Ano no Rio de Janeiro, pelo Conselho Nacional da Mulher em 1992, pela Câmara Municipal de Cubatão e Santos, onde também foi intitulada como “Cidadã Emérita”. Em 2002 recebeu o Prêmio Pagu, oferecido pela Federação de Teatro Amador de São Paulo. Entre as 51 brasileiras votadas por organizações e comunidade, o nome de Alzira foi indicado ao Prêmio “Mil Mulheres para o Nobel da Paz 2005”, entre tantas outras homenagens.

Autora de livros expressivos como “Eu, mulher negra, resisto” e  “Mulher negra tem história”, também escreve e edita, semestralmente, a revista Eparrei, criada em novembro de 2001 e direcionada para o público afrodescendente.

Durante a entrevista a diretora presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra, entidade que completa 17 anos em 30 de junho próximo, conta  que atendeu em 2006 mais de 400 mulheres, brancas e negras, revelou algumas de suas ansiedades, falou sobre sua vida e de questões raciais no Brasil e no mundo. Leia na íntegra a entrevista.

Jornal Vicentino - A senhora nasceu no bairro do Macuco em Santos. Como foi sua infância?

Alzira - Quando lembro de minha infância , lembro de minha mãe, e de nossa casa de cômodos, bastante pobre. Inevitavelmente lembro da pobreza e de toda nossa luta contra a violência. Minha mãe sofreu violência doméstica nessa época. Mas lembro também que quando minha mãe podia levava eu e meu irmão no circo, e fazia pastel de banana para nós comermos. Ela fazia de toda a miséria uma coisa de garra, nos dava educação. Tive momentos felizes e preocupantes para a vida de uma jovem negra.

JV - Dessas lembranças de infância qual a marcou mais ?

Alzira - Uma vez estava brincando com umas crianças que não eram negras e uma delas virou para mim e disse que se eu quisesse ficar branca deveria tomar banho de cândida. Outro momento foi quando deram “comigo ninguém pode” para o meu irmão, na tentativa que ele ficasse branco também. Na escola algumas mães não deixavam seus filhos brincarem comigo.

JV - Onde a senhora estudou e porque optou por se profissionalizar na área da saúde ?

Alzira - Comecei no Parque Infantil Patrícia, depois fiquei no Colégio Estela Maris, lembro de uma passagem que eu estava doente e minha mãe me disse que não poderia mais estudar e eu, inconformada fui pessoalmente fazer minha matrícula no terceiro ano. Logo depois fui para o Colégio Cidade de Santos. Em  São Paulo e me formei na área de  enfermagem. Na formatura fiquei doente e fui receber o diploma de ambulância. Para mim esse diploma representou uma vitória.

JV - Porque optou pela profissão de enfermeira ?

Alzira - Eu optei por essa área porque eu fui vítima de violência doméstica e depois comecei a sofrer racismo, logo menina, aos 6 anos, por isso fundamos o Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista em junho de 2005.

 JV - A literatura faz parte da sua vida desde os 14 anos de idade ? Como aconteceu o amor pelos textos ?

Alzira - Eu recebi aos  18 anos um prêmio de poesia na Santa Casa de Santos, oferecido  pelo Banco Francês. Nos primeiros anos da escola eu ganhava todos os prêmios de redação. Quando me formei eu mesma preparei meu discurso. Sempre gostei escrever. No livro de poesias “Eu Mulher Negra Resisto”, fiz a junção de várias poesias. Consegui publicar esse livro em 1988 na Feira Internacional do Canadá. A partir daí, comecei a escrever sobre a temática racial .

JV - A senhora na região é precursora na luta feminista, principalmente em relação a raça negra e coordena desde 1995 a campanha Violência Contra a Mulher uma Questão de Saúde Pública. Na sua visão o que efetivamente vem sendo feito sobre essa questão ?

Alzira - Na área da saúde eu pude observar vários casos de violência e o descaso das pessoas com as mulheres. Algumas chegavam no hospital em situação de  aborto, provocado por  chutes etc, e nada era feito. Algumas pessoas até riam dos casos e isso me fez despertar ainda mais para toda essa questão.

 Para cuidar das nossas questões raciais fundamos o Coletivo da Mulher Negra.

 Fui em seguida convidada para fazer um estágio nos Estados Unidos, onde aprendi muito. A coordenadora desse estágio leu meu histórico e entendeu que eu tinha o perfil para trabalhar com a violência doméstica, fiquei lá mesmo sem falar inglês freqüentando um curso com especialistas.

 Quando eu voltei dos EUA fundamos um departamento político e psicológico, para dar atendimento à essas mulheres e as  vítimas de racismo. Acho que a questão da mulher negra ganhou nesses anos uma maior visibilidade. Ainda falta muito para caminhar, mas hoje já se fala de mulher negra, não somente no carnaval. Existem muito mais instituições de mulheres negras trabalhado as questões das desigualdades. Os meios de comunicação hoje nos ajudam a dar essa visibilidade. nos casos de  racismo e Violência Doméstica

JV - A Lei Maria da Penha, que prevê prisão para agressores, surtiu quais efeitos na sua opinião ?

Alzira - Essa lei que é muito mais eficaz do que antigamente, porque antes se pagava uma cesta básica e pronto, hoje é cadeia mesmo. Mas para que isso seja realizado efetivamente depende de cada um de nós, das mulheres principalmente. Depende da sensibilização dos homens e da educação. O homem não nasce racista, torna-se racista, não nasce violento, torna-se violento. Então somos frutos do meio, não é somente a lei que irá mudar e sim um conjunto de ações. A cada 15 segundos uma mulher é agredida por seu marido ou companheiro, isso é inadmissível. Agora há a necessidade de se dar visibilidade dessa lei. Atendemos no ano passado uma média de 400 mulheres incluindo a orientação trabalhista para domésticas, a maioria ainda são as  vítimas de violência domésticas. Já presenciei e acompanhei  coisas que nunca imaginei que um ser humano pudesse fazer com outro. O mundo está estranho e muito feio.

JV - Foi nessa época que foi fundada a Casa de Cultura da Mulher Negra ?

Alzira - Sim. Tínhamos um coral e um grupo de dança. Na época os dois grupos ensaiavam dentro da Secretaria de Cultura. Eram meninas negras e um dia eu cheguei no ensaio e não tinha sala , eles estavam com frio ensaiando no corredor. A partir desse dia, decidi que precisávamos de um espaço para que tivéssemos dignidade. Aqui é uma casa de mulheres negras  que atua na promoção da igualdade NO Depto Jurídico trabalhamos  pelos direitos humanos das pessoas, seja ela branca ou negra. Há 17 anos atrás, as pessoas vinham procurar babás,faxineiras, prostitutas e mulheres exóticas para o turismo sexual. Passamos por  momentos de racismo forte desde o momento que aqui nos instalamos, foram e são ameaças de morte,calúnias,difamações entre outras injustiças que o racismo provoca. Atualmente oferecemos o  departamento jurídico, apoio psicológico, curso de trança, reforço escolar , apoio financeiro para jovens negras  nas universidades, alimentação,transporte e cestas básicas para as famílias para que as jovens negras permaneçam  nos seus cursos.

JV - Como a entidade é mantida ?

Alzira - Temos um pequeno projeto com  ONG Solidariedad na Holanda.Produzimos  aqui a  feijoada ,o curso de trança,roupas e livraria . O serviço de disk, o 3221-2650, onde entregamos as comidas de quarta à sábado, além das palestras e cursos fora da CCMN.Nosso quadro de associadas contrinuem com mensalidades.

JV - A senhora recebeu várias homenagens nacionais e internacionais. O que elas representaram na sua vida ?

Alzira - Aqui na Baixada Santista e em  Santos já recebemos  todas as homenagens de todos os setores da sociedade civil e governos  Em outras cidades também como  Rio de Janeiro,no norte, nordeste  sul e também no exterior . A indicação  para estar entre as 1.000 mulheres do Nobel da Paz foi importante para visibilidade do nosso trabalho. Isso significa um avanço e representa que o nosso trabalho está sendo respeitado. A consideração do mundo com uma mulher da Baixada Santista que tem uma instituição em uma casinha tão pequenininha, mas que vem trabalhando para melhorar um pouco esse planeta, que não deveria ter racismo e nem violência. Cada um deveria fazer sua parte.

JV - As políticas públicas têm exercido seu papel em relação a raça negra ? E o que a senhora pensa sobre as cotas nas universidades ?

Alzira - Eu sou a favor às cotas em todos os níveis>Na educação não podemos mais aceitar os índices da baixada. Nós temos hoje na Baixada Santista  menos de 3% de alunos negros nas faculdades ,essa desigualdade não pode continuar. Penso que as cotas é o primeiro passo, mesmo que não tenha caráter permanente .Lutamos também pela  qualidade do ensino fundamental para todos. Essa questão do negro não pode continuar dessa forma. Os donos de universidades privadas da região  devem contribuir para mudar essa história. O Brasil tem uma dívida muito grande com nosso povo. Temos que educar para mudar. Outras  lutas  importantes como a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, o genocídio de negros e a redução da maioridade penal, que irá afetar sensivelmente o nosso povo. Estamos entre a cruz e a espada, e eu entendo que Santos é a Cidade da liberdade e deveria repensar sua posição referente a todas as questões das desigualdades.

JV - A revista semestral Eparrei, completou seis anos. Como surgiu a idéia de fazer uma publicação direcionada ao público negro ?

Alzira - Não existe uma revista que foque o povo negro como protagonista. Temos a revista Raça, direcionada também para auto estima, mas com enfoque na beleza,moda e artistas que já possuem visibilidade no meio artístico Pensamos em um veículo  de comunicação onde pudéssemos apresentar o povo negro como sujeito de sua própria ação. A revista também é uma oportunidade de trabalho para jornalistas negras. Ela é produzida , coordenada e dirigida por mulheres negras. A principal proposta é que o povo negro conheça a nossa   história contemporânea.

JV - O Dia da Abolição da Escravidão é comemorado amanhã. Há motivos para se comemorar ?

Alzira - Não. Entendo que a abolição não aconteceu e esse dia deve ser de reflexão. É um dia especial para se pensar o que foi a vida de nossos antepassados e como está hoje. A data para comemorar será no próximo dia 30 de junho, quando o Coletivo de Mulheres Negras comemora 22 anos e a Casa de Cultura comemora  17 anos de fundação ; cada ano que a gente consegue manter as portas abertas  é um bom motivo para comemoração.

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Entrevista: Sem grilhões,a resistência negra

Flávia Mattar

A partir de 1995, o movimento negro brasileiro, com muita pressão, determinou que o 20 de novembro – em que o líder Zumbi dos Palmares foi assassinado, lutando pela liberdade de seu povo em 1695 – seria o Dia Nacional da Consciência Negra. Passados oito anos, o poder público ainda não atentou para a importância da existência de um feriado nacional nesta data. Existem apenas iniciativas isoladas, como no caso do Rio de Janeiro, onde a então governadora Benedita da Silva (PT) garantiu essa conquista para a população afrodescendente. Em entrevista, a coordenadora geral da Casa de Cultura da Mulher Negra, Alzira Rufino, afirma: "Estamos enfrentando a Câmara, assembléias e vamos chegar no âmbito nacional porque queremos que Zumbi seja resgatado como líder dessa nação". Assim como é importante conhecer e reconhecer a história desse herói negro, a população brasileira precisa resgatar e admirar a traje tória de tantos(as) outros(as) negros e negras, a maioria no ostracismo, que lutaram pela liberdade e dignidade de seu povo.

Qual a importância do Dia Nacional da Consciência Negra?

Alzira Rufino – Mostrar que somos a maioria da população e que temos cultura,
história de resistência e raízes. A visibilidade é importante, principalmente na atual conjuntura, na qual estão sendo trabalhadas leis, em que se vislumbra um processo
de mudanças. Um exemplo de que estamos no caminho da transformação são as leis de ação afirmativa. Dentro disso, há um processo de informação de direitos. Há uma comunidade de quem foi tirado tudo e estamos na luta pela devolução de nossa dignidade, contra os preconceitos que nos cercam.

Um dia é suficiente para que a população seja informada sobre a cultura, a
resistência do povo negro?

Alzira Rufino – Não é suficiente. Temos que reafirmar a nossa cultura, a nossa histó ria, as nossas raízes todos os dias. Não só no 13 de maio, Dia da Abolição da Escra-vatura, e no 20 de novembro. É claro que no Dia Nacional da Consciência Negra te mos uma atuação mais dirigida, ganhamos mais visibilidade já que a mídia e as pes soas gostam de datas, fotos. Uma forma de promover o debate, a informação no dia -a-dia é fazendo pressão para o cumprimento da lei que estipula o ensino da história e das culturas afro-brasileiras nas escolas públicas e particulares. É importante atuar com foco na educação. Precisamos nos apropriar dessa lei, cuidar para que não fique na gaveta como outras. Assim, estaremos preparando o futuro. Temos que trabalhar mais a cultura negra também nas secretarias, nas ONGs, nos movimentos negros etc.

Ainda é grande a briga para que seja decretado feriado nacional no 20 de novem
bro. Qual seria o motivo?

Alzira Rufino – Essa resistência se dá por causa do preconceito, falta de informação do que esse feriado representa para a maioria da população do país, falta de vontade política e racismo.

Existem pessoas que defendem o 20 de novembro como uma data que se contra-
põe ao 13 de maio. Você concorda com isso?

Alzira Rufino – Discordo. O 13 de maio é um dia para a reflexão sobre o que fizeram com o nosso povo, para que pensemos sobre o que foi essa ‘dita’ abolição. E o 20 de novembro representa luta, mudanças, resistência. É a consciência negra. Vejo como duas coisas bastante distintas, não como contraposição.

A criação do Dia Nacional da Consciência Negra foi uma iniciativa do movimento?

Alzira Rufino – Foi uma pressão de muito tempo. Enfrentamos muitas dificuldades e estamos conseguindo pouco a pouco. Não é um processo fácil resgatar a memória de Zumbi dos Palmares. Estamos enfrentando a Câmara, assembléias e vamos chegar em âmbito nacional porque queremos que Zumbi seja resgatado como líder dessa na ção. O movimento negro continua pressionando. Na capital a vereadora negra Claudete Alves do PT/SP, aprovou seu projeto e aqui em Santos da Vereadora Suely Mor gado foi autora da propositura .

Nós, da Casa de Cultura da Mulher Negra, estamos pressionando aqui da Baixada Santista, entre outros exemplos, para que haja feriado no Brasil inteiro. Estamos fa
zendo um trabalho de sensibilização. Tem muitas escolas que nem sabem que 20 de novembro é em memória ao Zumbi. A comunidade negra, as crianças negras não ti nham com quem se identificar. Dessa forma, acabavam recorrendo aos líderes brancos. Ressaltar Zumbi dos Palmares representa o fortalecimento de identificação e identida de do nosso povo.

Qual foi a contribuição de Zumbi e do quilombo dos Palmares na resistência contra a escravidão?

Alzira Rufino – De todos os quilombos , sem dúvida, o mais importante foi a Confederação de Palmares, criada por volta de 1590, quando escravos de um engenho pernambucano, depois de uma rebelião sangrenta, refugiaram-se naSerra da Barriga, atual Alagoas, e lá fincaram as bases de uma república em pleno Brasil Colonial. Durante sua longa existência, Palmares teve vários chefes. Mas a história até agora conhecida reservou para Zumbi o papel de protagonista dessa verdadeira epopéia. Depois de 17 anos de combate em que se notabilizou como um dos maiores generais da história da humanidade, o líder foi assassinado durante a expedição repressora de Domingos Jorge Velho, em 20 de novembro de 1695. A experiência palmarina foi a maior e mais longa contestação à ordem escravista em todo o mundo e em todos os tempos. Por extensão, e mesmo por ter sido Palmares um reduto que abrigava negros, índios e brancos pobres, a saga de Zumbi é um rico episódio de luta contra o racismo.

Assim como Zumbi foi reconhecido como o herói do povo negro, outros nomes poderiam ser citados como exemplos de resistência, luta, liderança etc, inclusive mulheres ...

Alzira Rufino – Sim, temos Dandara, Luiza Mahin, Nzinga, entre outras. Foram guerreiras, trabalharam no sentido da libertação da escravidão, tinham envolvimentoom quilombos. O que falta é conhecimento sobre a importância dessas lideranças. O fluxo de informação do movimento negro para a sociedade ainda é insuficiente. Além disso, quando se trata de mulheres, existe o machismo. Parece que tudo o que foi feito partiu de homens, quando, na verdade, a mulher negra estava à frente ou do lado na luta. Tivemos muitas lideranças mulheres negras na formação deste país, mas, infelizmente, não têm a visibilidade que gostaríamos que tivessem.

De que forma o movimento negro está se preparando para o 20 de novembro?

Alzira Rufino – A Fundação Palmares e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) estão cuidando da programação no âmbito nacional, inclusive tenho informações de que a Seppir ficará com a agenda presidencial para decidir como será a participação do presidente Lula neste 20 de novembro. Haverá mobilizações nos diferentes estados e cidades e nós, da Casa de Cultura, estamos nos preparando para cobertura da Marcha da Consciência Negra em São Paulo e na realização de um seminário sobre a questão da história e da cultura negra,além das atividades normais da CCMN.Jornal A Tribuna-20/11/2008
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Entrevista 19/11/2008-TV Net Cidade Canal 10-Cidadania

Programa Globo Reporter 05/03/2005 .Violência contra a Mulher


Jornal A Tribuna 2007
Sobre a fala da ministra Matilde Ribeiro :

Gostaria de sua opinião sobre a fala da ministra Matilde Ribeiro publicada ontem nos jornais brasileiros. A senhora foi a favor ou contra a declaração dela? Por que?

Resposta-Li a reportagem da BBC inteira e percebi que a fala dela foi  descontextualizada e mal interpretada.Reconheceu  a história da situação de exclusão social de determinados grupos étnicos no Brasilque prevalece após 120 anos de abolição, que pode por vez provocar este tipo de atitude de negros não gostarem de brancos.Acredito que a Ministra Matilde foi  explicita  de que não está incitando  este tipo de comportamento, afirmou que não considera o racismo  uma coisa boa. É evidente que na resposta não havia intenção de justificar qualquer atitude racista de negros contra brancos.

Infelizmente ainda vivemos num país com um índice muito alto de desigualdades econômicas, sócio raciais.

O que você pensa sobre o assunto?

 O  Brasil com a idade de 507 anos,só há   mais ou menos 120 anos é que foi assinada a chamada abolição.O Brasil gosta de propagar que não existe discriminação.No entanto,porque precisamos de  Leis, Secretarias ,Conselhos e entidades negras ?

 As estatísticas mostram que a proporção de negros abaixo da linha da pobreza dentro da população é de 50% o quanto de brancos é de 20%.

NO Brasil ainda existem lugares onde negros não vão e não são convidados.

Quem bate esquece quem apanha lembra.Pergunto, quando isso irá mudar?

Há 17 anos na direção da CCMN atendemos inúmeras denuncias de   racismo, em várias circunstâncias e em todas as classes sociais, daí termos criado um Depto. Jurídico para fazer prevalecer a Lei.

No nosso trabalho na Casa de Cultura da Mulher Negra trabalhamos com negros e brancos sempre  ressaltando a auto estima, a dignidade, o resgate da cultura e mostrando para nossas crianças, jovens e  mulheres que o negro não tem que sentir  inferiorizado.Nossa verdadeira história nos mostra  que devemos   conviver com todas as raças em igualdade de condições.

Sabemos que o  Brasil possui  uma dívida muito séria com a população negra deste país e no meu entender, dívida se paga.Foi para isso  que fomos para Conferência Mundial em 2001 na cidade de Durban na África do Sul. Entendo que a Ministra  Matilde Ribeiro, à frente da  SEPPIr está  cumprindo gradativamente o Plano de Ação acordado no mundo inteiro .São  vários projetos de inclusão social, que não possui  visibilidade na  mídia .

Matilde Ribeiro é paulista e foi indicada pelo Movimento Social Negro .Estamos todos juntos  para reivindicar a verdadeira democracia ,que  consta na  Constituição Brasileira.É isso que as organizações negras de todo Brasil espera dos governos .

Todos deveriam ser iguais perante a Lei, ou não?

 Percebo que  desde a infância sofremos o preconceito por sermos negros.Isso é fruto da cultura racista  introjetada no psiquê das pessoas de todas as cores..É o que chamamos de preconceito enraizado .

A criança não nasce com preconceitos,isso é introjetado. A lei 10639/03 que institui a cultura negra e a história africana e afro brasileira nos currículos escolares;se aplicada com seriedade poderá mudar comportamentos.


O que os afrodescendentes representam

No dia 20 de novembro, nacionalmente o Dia da Consciência Negra, honramos a resistência de Zumbi de Palmares e de anônimos/as antepassados/as, sobreviventes de uma guerra de terror e ganância. Datas como essa fazem refletir e escrever sobre os papéis que nós, afrodescendentes, queremos representar. Afinal, somos donos da nossa carta de alforria e estamos saindo dos bastidores, não para limpar o palco, mas para sermos protagonistas do novo milênio.

O poder tem cor? Onde estão as cores do Brasil nas mesas de decisão? A ONU considera que existe democracia num país quando todas as etnias estiverem representadas no poder na mesma porcentagem em que estão representadas na população. Ou seja, o Brasil só será uma democracia quando pelo menos 44% das autoridades forem homens e mulheres negras.

As Câmaras, Assembléias e o Congresso são um espelho onde não vemos a nossa cara. Uma amostra: são 15 negros em cerca de 550 congressistas. Ou seja, pouco mais do que 3% dos deputados federais e senadores representam a metade da população brasileira oficialmente afro-descendente; enquanto cerca de 97% dos congressistas representam a outra metade de maioria eurodescendente. A isso nós temos chamado de democracia racial.

A única coisa necessária para a perpetuação da discriminação racial é que as pessoas (brancas e negras) se omitam. A nossa omissão é uma forma de aprovação, porque nada fazer é cooperar com o racismo.

O que dizer da omissão das escolas e universidades? Que expectativas os/as educadores/as têm em relação à criança e adolescente negra/o? Baixas expectativas em relação às/aos estudantes negras/os fazem com que correspondam a isso.

Mensagem quase sempre nas entrelinhas: se as coisas ficarem difíceis, desistam.

O que dizer da omissão dos meios de comunicação? A mídia, pelo seu impacto na opinião pública, deve ser usada de maneira responsável para promover o respeito às diversas raças.

Aos que argumentam, um século depois da abolição (em liberdade vigiada), que ainda estamos despreparados para as funções qualificadas, responderemos que as pessoas negras recebem entre 30% e 40% menos do que as brancas com a mesma escolaridade e experiência no desempenho de funções iguais.

Pesquisa feita pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) indica a quantas anda a nossa democracia racial no mercado de trabalho brasileiro. A maior desigualdade foi verificada em Salvador, vista como uma cidade modelo de integração racial. Não é. Lá a taxa de desemprego entre os negros é 45% superior à dos brancos.

Nessa cotidiana experiência de "enfrentar um leão por dia", teremos que usar estratégias de descansar, recuar, avançar, para podermos chegar inteiros.

Voltamos nossos olhos e coração para a África, berço da civilização, tambor que nos mantém unidos.

Nossos deuses dançam e estão muito próximos das nossas alegrias e vitórias.

Se usamos nossas roupas coloridas, nossos cabelos trançados, não é por sermos exóticos/as. Somos a continuidade de uma história, uma cultura, uma raiz.

Na virada do milênio, estaremos à beira do oceano homenageando nossos/as antepassados/as que no mar ficaram. Temos consciência que suas dores precisamos amenizar.

Negro não é só lindo, é capaz, é competente. Sabemos fazer políticas. Experiência de quilombo, escola de Palmares.

Alzira Rufino é presidenta da Casa de Cultura da Mulher Negra, com sede em Santos (SP).

Notícias da Câmara SP
Titulo de cidadã paulistana a Sra. Alzira Rufino, presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra

Número do projeto:

PDL3/05-Data de apresentação:

04/2005

Concede titulo de cidadã paulistana a Sra. Alzira Rufino, presidente da
Casa de Cultura
da Mulher Negra

Projeto de Decreto Legislativo (PDL)
PBI
Condecoração indefinida
Claudete Alves

Câmara Federal confere Medalha de Mérito para Alzira Rufino em Brasília.
A Coordenadora da Casa de Cultura da Mulher Negra Alzira Rufino receberá da
Câmara Federal, a medalha de Mérito pelos relevantes serviços prestados ao
Legislativo Federal e ao Brasil.
A cerimônia acontecerá na Audiência Pública, no auditório da Câmara
Federal às 14:00 horas do dia 06 de dezembro pttp://www.mhariolincoln.jor.br/index.php?itemid=2181


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JORNAL: Afropress
DATA: 12 de março de 2007
EDITORIA: Site

MANCHETE: Encontro debate Relações Raciais
REPÓRTER: Redação

Encontro debate Relações Raciais

Santos/SP - A Casa de Cultura da Mulher Negra (CCMN) promoverá nos dias 16 e 17 de março, no Hotel Avenida Palace, o Seminário Nacional com Operadores de Direito - Alguns Aspectos do Direito das Relações Raciais - Lei 10.639/03 e Lei 11.340/06 e os movimentos sociais. O evento contará com a presença das mais representativas especialistas do Brasil nas áreas de Direitos Humanos e Educação, com ênfase na violência doméstica e racial.

Dentre os palestrantes, estão Sueli Carneiro, doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Geledés - Instituto da Mulher Negra, em São Paulo (SP); Maria Amélia de Almeida Teles, da União de Mulheres de São Paulo; Eunice Aparecida de Jesus Prudente, doutora em Direito pela USP e vice-diretora da Escola de Superior de Advocacia da OAB/SP.

O Seminário também terá a participação de Vera Baroni, coordenadora geral da Uiala Mukaji - Sociedade das Mulheres Negras de Pernambuco e especialista em Direitos Humanos e do Trabalho, que falará sobre o Estatuto da Igualdade Racial; de Raimunda Luzia de Brito, do Mato Grosso do Sul, que falará sobre cotas raciais; e do advogado Humberto Adami, mestre em Direito pela Universidade de Brasília e conselheiro do
Instituto Superior da Faculdade Zumbi dos Palmares. Adami tratará da implementação
da lei 10.639/03.

De acordo com a coordenadora da CCMN, Alzira Rufino, o Seminário tem como objetivo inserir no debate os jovens ligados aos movimentos sociais e, principalmente, os estudantes do 5º ano de Direito. "Nós queremos mostrar uma nova visão do Direito, não só o acadêmico, mas também o popular, pois estarão presentes uma ialorixá (sacerdotisa dentro do candomblé) e pessoas que trabalham em direitos humanos sem fazer parte da academia. Desta forma, acreditamos que a junção contribuirá para um novo olhar sobre esta prática, que está diretamente ligada ao recorte de gênero e raça".

Sobre a Lei 10.639/03

A Lei, que obriga a inclusão de História da África e Cultura Afro-brasileira no curriculo escolar, ainda é encarada como tabu, uma vez que o quadro dos profissionais de educação habilitados ainda é pequeno. "Os professores precisam ser sensibilizados e capacitados, porque ainda existe o preconceito e o racismo em mostrar a verdadeira história. Aqui na Baixada Santista, nós entramos com uma representação jurídica e encaminhamos solicitações aos advogados, de todas as etnias, para tomarem providências na implementação real da lei", enfatizou Alzira Rufino.

O Seminário também deverá contar com a participação de autoridades da região e do Judiciário, advogados, ativistas, estudantes de Direito e pesquisadores das temáticas.

A abertura acontecerá no dia 16, a partir das 20h e prossegue dia 17, a partir das 9h. O Hotel Avenida Palace fica na Avenida Presidente Wilson, 10, bairro do Gonzaga.

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contra a mulher negra na TV
 

 
21 de março de 2006
 

Alzira Rufino

Lideranças do movimento de Mulheres Negras estiveram em Brasília para entregar às Ministras da Secretaria Especial de Políticas para
Mulheres, Nilcéa Freire e da Secretaria Especial de Políticas de
Promoção da |Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, o Manifesto de Protesto
contra a Rede Globo de Televisão, repudiando imagens veiculadas na mini
série JK, em que mulheres negras são estupradas e espancadas.

A presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra, Alzira Rufino, que
iniciou o debate pela Internet, no dia 11 de janeiro, pretendia
entregar o manifesto - que conta com a adesão de 157 entidades do
movimento de mulheres negras e de direitos humanos (colhidos via internete nas listas de Discriminação Racial e Mulheres Negras )- logo no início dos
trabalhos. Mas, pelo atraso de uma hora e meia da titular da Seppir, a
proposta foi encaminhada para o final da pauta.

A deputada federal Mariângela Duarte (PT –SP) compareceu ao encontro
para dar apoio ao Manifesto, se comprometendo a divulgá-lo no Congresso
Nacional e de se empenhar em conjunto com o movimento para que haja uma retratação da Rede Globo.

No documento, a presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra, Alzira
Rufino, solicita que as autoridades manifestem desacordo com a exibição
das cenas da mini série JK. “Queremos que a Rede Globo tenha uma
política de resgatar a história da mulher negra, porque a juventude não
pode ter essa visão das mulheres como estão sendo representadas na
televisão. Temos de mostrar as histórias daquelas que resistiram à
opressão. No momento em que o movimento negro se mobiliza pela
implementação da Lei 10639 que inclui o ensino da Cultura Africana no
currículo oficial da rede de ensino, a Rede Globo não pode prestar este
desserviço à metade da população deste país que é
afrodescendente”,afirma a presidente.

Depois de muita insistência de Alzira Rufino para que as ministras se
pronunciassem a respeito do Manifesto que lhes foi entregue, já que a
reunião teve início às 10 horas e se encaminhava para o final, às 17
horas, as Ministras, após terem declarado suas participações no
Carnaval 2006 em escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo, que
abordarão temas relacionados às mulheres e à igualdade racial, fizeram
seus pronunciamentos.

A titular da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéa
Freire disse não ter uma opinião formada sobre o assunto porque não
está acompanhando a mini série JK. “Não vi as cenas, mas li o
Manifesto, acompanhei a situação pela Internet e encaminhei à Ouvidoria
da SPM para que estude o que podemos acionar do ponto de vista do que o
movimento solicita”, informou. Segundo a Ministra, houve também um
encaminhamento a um departamento do Ministério da Justiça para que faça
uma avaliação desta solicitação.

“Não discuti esse assunto com pessoas do governo, disse Nilcéa, mas
gostaria de dar minha opinião. Não temos ainda a possibilidade de
acionar um termo de ajuste de conduta, mas proponho que estabeleçamos
um diálogo entre o movimento e a TV Globo através da área com a qual
mantemos contato e discussão que é o Departamento de Merchandising
Social, chefiado por Luiz Erlanger, com o qual temos mantido um diálogo
franco e aberto. Proponho-me a isso e também de dar as respostas
formais que o documento solicita. Além disso, não posso me pronunciar
porque ainda não fiz uma discussão de governo sobre o assunto”, disse
Nilcéa Freire.

Para a titular da SEPPIR, Matilde Ribeiro, “enquanto Secretaria
Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, concordamos com
muitas das reflexões feitas pela sociedade civil em relação à
invisibilidade da população negra, das mulheres negras, a incitação de
situações que contribuem com a discriminação. Mas, assim como a
ministra Nilcéa não tenho um posicionamento de governo a
apresentar-lhes”.

“Entendo que essa condução do debate no campo da comunicação é um
caminho importante. O canal que a Secretaria de Políticas para Mulheres
tem na Rede Globo é o mesmo da Seppir. Fui apresentada ao Erlanger, em
2003, para discutir o projeto A Cor da Cultura e este canal ficou
aberto e construído para várias ações. Muitos dos debates coloco
diretamente ao Erlanger e acho possível aprofundarmos nesse processo.
Sou cidadã, assisto televisão e tinha conhecimento desta situação. A
questão já está na Ouvidoria da Secretaria, mas tudo é um processo e os
encaminhamentos estão aqui postos”.

Após o pronunciamento das Ministras, a presidente da Casa de Cultura da
Mulher Negra, Alzira Rufino, informou que já foram acionados
advogadas/os para que estudem os caminhos jurídicos possíveis para o
caso, solicitando reparação e também pleitear uma reunião com a direção
da TV Globo através do movimento social. Solicitamos que encaminhem e-mails para a Ministra Matilde Ribeiro e Nilcéia Freire no sentido, de obter respostas concretas sobre o Caso JK.  http://www.faustofigueira.com.br/noticiasIntegra.asp?codigo=602

  fonte:h ttp://www.eticanatv.org.br/pagina_new.php?id_new=152&idioma=0
 http://www.direitos.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=
1116&Itemid=2

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Violência Doméstica

QUANDO O PERIGO ESTÁ EM CASA-06/03/2006
A cada 15 segundos, uma mulher é espancada, de acordo com uma pesquisa nacional da Fundação Perseu Abramo. O medo e a falta de informações tornam alarmantes as estatísticas; questão discutida até domingo 22 no seminário “Violência contra a mulher e saúde – um olhar da mulher negra”, promovido pela Casa de Cultura da Mulher Negra. A associação há 13 anos atende as vítimas de violência sexual, doméstica e racial. CartaCapital conversou com a presidente da CCMN, Alzira Rufino.

CartaCapital: Como é o medo de denunciar a violência doméstica?
Alzira Rufino: Ainda hoje a mulher denuncia muito pouco essa violência. Ainda não entendeu que corre mais perigo no lar do que na rua. No “lar doce lar”, onde seu príncipe vira sapo, ela se cala, os familiares não deixam que denuncie, os vizinhos que dizem que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. A sociedade precisa mudar seus conceitos. A violência doméstica é crime e, sendo crime, precisa ser tratada como tal.

CC: E o que fazer para mudar esse quadro?
AR: Dar visibilidade à questão, promover seminários como este. A mídia precisa abrir espaço, as escolas devem trabalhar esse ponto. O serviço de saúde tem de ter um papel decisivo, de intervenção, porque essas mulheres vão aos hospitais, aos prontos-socorros e lá a violência doméstica é tratada como uma doença qualquer. O papel das delegacias e do Judiciário também é primordial. A PM não pode banalizar o atendimento a essa mulher.

CC: Como fazer uma denúncia?
AR: Há mulheres que acham que devem seguir ao pé da letra o que a Igreja diz: casados até que a morte os separe. Ela não pode esperar a morte separar. Ela tem de tomar atitudes, procurar a Delegacia da Mulher, os serviços de apoio existentes em sua cidade. Tem de procurar ajuda junto às pessoas que tenham preparo para fazer esse atendimento. http://www.cartacapital.com.br/2003/06/784

08/03/2001
TRABALHO INTEGRADO FORTALECE O MUNICÍPIO NO ATENDIMENTO À MULHER

 
O trabalho integrado entre o Poder Público e a sociedade civil foi reconhecido ontem como o grande avanço do Município nas questões que envolvem o atendimento à mulher em suas mais diversas áreas. Seja com a criação de novos serviços e procedimentos ou com a implementação de iniciativas e campanhas que conscientizem a população sobre a importância do respeito à mulher, o fato é que tanto a Prefeitura, por meio de suas secretarias municipais, quanto a sociedade civil, por meio das organizações não-governamentais, têm estado juntas nas permanentes discussões sobre o tema. Mais do que isso, têm conseguido colocar em prática projetos imprescindíveis para o combate ao principal problema enfrentado ainda hoje pelas mulheres: a violência doméstica.
Todos esses avanços foram ressaltados ontem durante solenidade realizada no Salão Nobre Esmeraldo Tarquínio pelo Dia Internacional da Mulher, onde estiveram reunidos os representantes do Executivo e de Secretarias Municipais, além de Integrantes do Legislativo e a presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra, Alzira Rufino. Também participaram membros do Governo e de diversas entidades e movimentos de defesa da mulher.
Na oportunidade foi lançado o cartaz Violência Contra a Mulher – Identifique e Oriente, produzido pelas secretarias de Saúde (SMS) e Ação Comunitária e Cidadania (Seac), em parceria com a Casa de Cultura da Mulher Negra. A peça dá início a uma campanha que será desenvolvida com o objetivo de conscientizar os profissionais, especialmente os da área de Saúde, a perceber quando uma mulher que chega para o atendimento (seja nos prontos-socorros, hospitais ou policlínicas) é vítima de violência e, a partir daí, ouvi-la e orientá-la.
“Perceber que a violência contra a mulher é uma questão de Saúde Pública é um grande avanço. Felizmente Santos vem se destacando por implantar um trabalho inédito e pioneiro com este fim, no qual os profissionais da Saúde são estimulados a estar atentos aos casos que chegam e também incentivados para que ouçam as queixas destas mulheres. Desta forma, Santos está dizendo não à violência doméstica”, ressalta Alzira Rufino.
Segundo ela, em 2000 a Delegacia da Mulher de Santos atendeu 803 mulheres vítimas de violência. “Pela Casa de Cultura da Mulher Negra passaram 314 mulheres. É um número muito alto. Por isso, é preciso adotar a política da tolerância zero”. Durante a solenidade Alzira entregou o livro Violência Contra a Mulher – Um novo olhar, publicação que traz modelos de protocolos para o atendimento em caso de violência doméstica.
Santos é escolhida pelo Governo Federal para implantar Programa Sentinela.
A Secretaria de Ação Comunitária e Cidadania, anunciou que muito em breve será implantando pioneiramente em Santos o Programa Sentinela, que tem o objetivo de combater a exploração sexual de crianças e adolescentes. Santos foi uma das 25 cidades brasileiras escolhidas pelo Governo Federal para participar do projeto. A única do Estado de São Paulo. Trata-se de uma nova experiência que vai incrementar o trabalho já desenvolvido no Município pela Seac por meio do Espaço Meninas, projeto que já atua com esta demanda, principalmente na região do Centro.
O objetivo do Projeto Sentinela é disponibilizar equipes de profissionais durante as 24 horas do dia para atender caso a caso as vítimas de abuso ou exploração identificados nos municípios.

CASA-ABRIGO – No ano passado, na mesma data, a Prefeitura recebeu um grupo de mulheres que trazia uma reivindicação de quase uma década: a implantação de uma casa-abrigo. Prontamente foi atendido ao pedido. Hoje a casa-abrigo é uma realidade. Foi implantada há oito meses e tem nos feito aprender muito. Mais do que atender mulheres vítimas de violência, estamos podendo traçar seu perfil e trabalhar de forma integrada com outras secretarias e organizações não governamentais.
Quando as mulheres chegam ao abrigo depois de serem agredidas sentem o impacto pela quebra do círculo da violência e por conseguirem ter um pouco de tranqüilidade. Apesar disso, uma das primeiras intervenções da equipe é trabalhar para que essas mulheres não reproduzam a violência na relação com os próprios filhos ou com as pessoas com as quais convivem. É muito comum isso acontecer, por isso é preciso estar atento desde o primeiro momento. A partir daí, nossa equipe, que conta com psicólogos e assistentes sociais, dá todo o suporte para que elas reestruturem suas vidas, com retaguarda da Secretaria Municipal de Saúde e da Secretaria de Educação. Cada caso é avaliado e acompanhado individualmente, tanto no aspecto psicológico e social quanto no jurídico.

APOIO FUNDAMENTAL – Para o Executivo, a implantação do abrigo foi muito importante para o Município porque preencheu um espaço que há muito tempo estava vazio.
A iniciativa da Prefeitura significou um passo importantíssimo para a Cidade porque propiciou o atendimento especializado e integrado a essas mulheres. A implantação da casa-abrigo, e simultaneamente a criação da Comissão Municipal da Condição da Mulher, fortaleceu ainda mais a relação do Poder Público com a sociedade civil organizada. Tudo foi feito em conjunto, com respaldo de entidades que há muitos anos trabalham pela defesa da mulher. Além disso, e até por tratar-se de um serviço novo, fomos para outros municípios conhecer experiências que vêm dando certo. Enfim, ainda se aprende muito sobre esse assunto, tentando nos aprimorar e prestar a essas mulheres o melhor atendimento possível.

MULHERES LUTAM PARA REFAZER SUAS VIDAS

Duas das quatro mulheres que estão hoje na Casa-Abrigo da Prefeitura contam que a violência praticada pelos companheiros sempre tende a aumentar. “Quando levei o primeiro tapa estava grávida. Achei que ele estava nervoso por causa do bebê, que não tinha sido planejado, e deixei pra lá. Só que depois vieram o segundo, o terceiro e muitos outros. Sempre agüentei por achar que ele ia mudar”, diz uma delas. Há um mês, depois de quase dois anos, de mais uma surra na frente do filho e do medo de ser morta, ela decidiu sair de casa e pedir ajuda. “Quero refazer minha vida”.
Assim como ela, outras quatro mulheres têm histórias parecidas. “Na primeira agressão a mulher tem de sair fora. Não adianta dar chance porque eles não mudam”, diz uma delas, que está pela segunda vez na casa.
“Vivi 12 anos de violências gravíssimas, contra mim e principalmente contra meus filhos. Acontece que a Justiça tem muitas falhas. Hoje eu estou presa e ele solto, apesar de todas as denúncias. Hoje eu e meus filhos temos de viver como se fôssemos bandidos, longe da nossa casa, fugidos. E a ele? Nada acontece”.

OS ÍNDICES DA VIOLÊNCIA
 Um· em cada cinco dias de faltas da mulher no trabalho é motivada por violência doméstica.
 23% das mulheres (1/4 da população feminina) estão sujeitas à· violência doméstica.
 A cada 16 minutos uma mulher é agredida em seu lar.·
 70% dos incidentes acontecem em casa, quase sempre praticados por· companheiros ou maridos.
 Uma em cada dez mulheres atendidas nas unidades· de Saúde são oficialmente reconhecidas como mulheres espancadas.

Fonte: SMS

Confira a programação da Semana da Mulher
Hoje
 14 horas –· Grupo de Estudos sobre a Mulher – Mostra de vídeo e exposição de livros
Local: Casa de Cultura da Mulher Negra
 19 horas – Solenidade em· Homenagem à Mulher
Local: Câmara Municipal de Santos-Homenageada- Profa.Urivani Rodrigues de Carvalho
–Autora da propositura-Vereadora Suely Morgado-Sala Princesa Isabel
Domingo

 Juventude Negra em Ação: Curso Capacitação para o Trabalho - Depto Pessoal-Auxiliar Administrativa-Classificação Contábil-Designer Afro-Moda Afro-
para bolsistas selecionadas pela CCMN
08/03/ Das 9 às 17 horas – Dia da· Beleza Negra, com oficinas de trança afro, corte de cabelo étnico e maquiagem
Local: Casa de Cultura da Mulher Negra
 http://www.santos.sp.gov.br/cgi-bin/comunicacao/listanoticias.pl?4314

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Amor, se dói, não é amor

  Mirian Ribeiro -Jornal da Orla

Os sinais aparecem ainda no namoro, mas a mulher interpreta como cuidados, algumas ficam até envaidecidas. Sedutor e possessivo, simpático a princípio com a família e os amigos, lentamente ele vai tirando a máscara e expondo toda a truculência que carrega dentro de si. Quando chega a este ponto, muitas mulheres já estão fragilizadas demais para reagir, envergonhadas pela situação e com a auto-estima minada pelas humilhações e ameaças. Outras enfrentam e podem pagar até com a própria vida por esta atitude.

A violência doméstica continua transformando muitos lares em verdadeiro inferno, apesar dos avanços obtidos nas duas últimas décadas, com a articulação de movimentos femininos e em especial com a instituição da Lei Maria da Penha, que completou um ano e endureceu a punição para o homem que agride mulher. Agora, o agressor pode parar na cadeia, e não ser condenado apenas a distribuir cestas básicas, como ocorria até o ano passado.

Como muitas mulheres, foi por medo e esperança de que o companheiro mudasse que a professora universitária cearense Maria da Penha Maia resistiu em denunciar o ex-marido, Marco Antônio Herredia. Em 1983, ela escapou duas vezes de ser morta. Na primeira, com um tiro. Na segunda, com choques elétricos e afogamento. Maria ficou paraplégica e seu caso ganhou repercussão internacional.

 A lei mais severa, porém, parece não intimidar muitos desses "machões". Na última semana, duas famílias (mães e filhos) estavam na Casa de Abrigo mantida pela Prefeitura de Santos, impedidas de voltar para casa após a denúncia feita à polícia. Voltar pode significar uma sentença de morte. Uma delas está lá há dois meses. Em sete anos de funcionamento, a Seção de Atendimento e Acolhida à Mulher Vitimizada, ligada à Secretaria Municipal de Assistência Social, atendeu cerca de 400 mulheres, número considerado muito abaixo da realidade, pois a maioria das agredidas recorre aos serviços de saúde e evita levar o caso às autoridades policiais.

 Banalização

 "A agressão à mulher não é uma questão de nível cultural. Em todas as classes sociais e profissões há homens capazes de empregar violência, mas a mulher pobre se expõe mais. A que tem melhor situação financeira, fica dentro de casa até o olho roxo sumir, busca terapia ou vai viajar", conta Lílian Peixoto, assistente social da Seção de Atendimento e Acolhida à Mulher Vitimizada.

Presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra e uma das pioneiras da luta em defesa da mulher, Alzira Rufino reforça: "Recebemos mulher negra, branca, pobre, rica. Quando chegam a nós já estão no fim da linha. Deprimidas, com problemas psíquicos sérios, mas a maioria não quer se separar nem prejudicar seu companheiro, só quer um corretivo, acham que eles podem mudar. Vivemos ainda em uma sociedade extremamente machista, o homem é criado para ser dono da mulher. Romper com este silêncio é muito difícil".

Alzira critica a falta de preparo nas unidades de saúde e policiais para atender casos de violência contra a mulher. Quando decide denunciar, é preciso coragem para cumprir um périplo pelos serviços de saúde e policiais: "A maioria das vítimas não procura a delegacia de polícia, vai para o hospital, à policlínica ou ao Pronto-Socorro. A mulher chega lá e mente para proteger marido e o profissional de saúde não tipifica a violência. E no IML, onde é feito o exame de corpo delito, o local e o atendimento são um horror".

Fases da violência

A violência doméstica compõe um ciclo que pode se tornar vicioso, repetindo-se ao longo de meses ou anos, podendo terminar em tragédia com a morte da mulher. Primeiro, vem a fase da tensão, que vai se acumulando e se manifestando por meio de atritos, cheios de insultos e ameaças, muitas vezes recíprocos. Em seguida, vem a fase da agressão, com a descarga descontrolada de toda aquela tensão acumulada. O agressor atinge a vítima com empurrões, socos e pontapés, ou às vezes usa objetos. Depois, é a vez da reconciliação, em que o agressor pede perdão e promete mudar de comportamento, ou finge que não houve nada, mas fica mais carinhoso, bonzinho, traz presentes, fazendo a mulher acreditar que aquilo não vai mais voltar a acontecer. "O homem violento é sedutor e dominador, mas vai mostrando isso aos poucos. Com o tempo, não importa se é contrariado ou não, vai sempre encontrar algum motivo para explodir", constata Lílian.

Por trás do pano

Pelos perfis das pessoas atendidas ao longo dos anos, Lílian Peixoto pôde constatar que tanto homens quanto mulheres vêm de lares agressivos, vivenciaram os pais agredindo as mães e acabam reproduzindo esses modelos. "A mulher estica a corda até onde dá, são dependentes emocionalmente, crescem com a auto-estima muito abalada e com tendência de se ligar a um homem que lembre a figura do pai, dominador, agressivo, autoritário". Segundo ela, o homem geralmente usa a agressividade para encobrir sua insegurança. "Tem ainda a competição da mulher no mercado de trabalho, o uso de álcool e drogas, tudo favorece que a violência doméstica se perpetue".

Mulher de malandro. Será?

Ainda na década de 30 do século passado, Heitor dos Prazeres compôs a música que imortalizou a crença que mulher de malandro gosta de apanhar. Daí vieram outras tantas canções, frases e chacotas —como a que diz que ele não sabe por que está batendo, mas ela imagina por que está apanhando— que apenas fortaleceram a dominação masculina profundamente entranhada na sociedade brasileira.

Este tipo de crença deixa a mulher agredida ainda mais vulnerável, pois envergonhada, e sem força ou condições para abandonar o lar, agüenta tudo calada. "É preciso criar uma rede de apoio para preparar a mulher para largar a casa. Ela não tem apoio familiar nem religioso, os vizinhos criticam, algumas empresas não dão trabalho e têm os filhos", sugere Alzira.

A maioria das mulheres procura os serviços de atendimento, não por elas, mas na tentativa de encontrar ajuda aos seus companheiros. Elas têm esperança que eles possam mudar. Lílian e Alzira não acreditam nisso. "Nunca vi", diz Lílian. "Quem bate uma, bate duas, três e mata. O homem diz que vai mudar, chora, manda flores e no outro dia quebra a mulher de novo", completa Alzira.

Mas elas entendem esta relutância: "Nenhuma mulher casa ou se une pensando em se separar. Ela quer construir família, educar filhos com o companheiro, é um sonho e romper com este sonho é doloroso", afirma a assistente social. Reconhecendo que a maioria das mulheres cria os filhos homens para serem machistas, Alzira aponta o papel importante dos educadores e da mídia nesta transformação, apostando principalmente nas novas gerações.

Onde buscar ajuda

Na Seção de Atendimento e Acolhida à Mulher Vitimizada é prestado atendimento psicossocial e acompanhamento do caso. Se for preciso, a mulher e os filhos (se tiver) ficam na Casa de Abrigo, onde o tempo máximo de permanência é de quatro meses (se for preciso, prolonga-se o prazo). Fica a critério da mulher voltar ou não para seu companheiro. Se decidir abandona-lo, é oferecido suporte para retomar sua vida sozinha, dando um tempo para conseguir trabalho, creche", conta Lilian.

Tem também a Casa de Cultura da Mulher Negra, que oferece orientação jurídica às mulheres vítimas de agressão, além de articular com outras organizações e movimentos nacionais e internacionais políticas em defesa da mulher. Quando começou a militar, Alzira Rufino foi muito criticada e recebeu várias ameaças. "Achavam que a gente estava se metendo na vida íntima da pessoa, metendo a colher na vida do casal".

A Casa de Cultura distribuiu cinco mil cartilhas com a Lei Maria da Penha e está buscando patrocínio para confeccionar outras 100 mil, que serão entregues nas mãos das mulheres junto com o serviço de gás. Quer quiser colaborar, pode fazer contato com a entidade.

A Seção de Atendimento e Acolhida à Mulher Vitimizada atende de segunda a sexta-feira, das 8 às 18h, tel. 3224-4927. A Casa de Cultura da Mulher Negra fica na rua Primo Ferreira 22, Boqueirão, em Santos, tel 32212650 e 32226068.

Um relato de dor

Nesta terça-feira, dia 13, Deise Leopoldi estará em Santos para lançar o livro "Do Silêncio ao grito contra a impunidade: o caso Márcia Leopoldi", às 18h, na Sala Princesa Isabel, a convite da vereadora Suely Morgado, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Santos. No livro, a autora narra, com grande carga de emoção, a morte brutal de sua única irmã, Márcia, estudante de Arquitetura de 24 anos, assassinada em 1984 em Santos por José Antonio Brandão do Lago, que não aceitou o fim do namoro de apenas três meses.

De família rica e histórico violento, Brandão do Lago, mesmo condenado a 15 anos de prisão, conseguiu se livrar das garras da Justiça e vivia impunemente no Maranhão até 2005, quando sua foto foi exposta por Deise no programa "Mais Você", de Ana Maria Braga. Denunciado, Brandão do Lago encontra-se hoje preso na Penitenciária de São Vicente.

Num relato comovente, Deise conta a infância das duas irmãs no interior paulista, em um lar com pai violento e autoritário e mãe submissa, os sonhos de Márcia e toda a luta que teve que travar em busca de justiça, incluindo sua militância em movimentos de defesa da mulher.

Mapa da violência

Pesquisa do DataSenado realizada no primeiro semestre deste ano constatou que, em cada 100 mulheres brasileiras, 15 vivem ou já viveram algum tipo de violência doméstica. Foram ouvidas 797 mulheres, maiores de 16 anos, em todas as capitais brasileiras de acordo com o sistema de cotas proporcionais. A situação é mais grave na Região Norte, onde 1 em cada 5 mulheres afirmaram que já foram vítimas de violência. Do total de vítimas, apenas 40% tomaram a iniciativa de registrar uma denúncia nas delegacias comuns ou delegacias da mulher. As restantes optaram por não tomar nenhuma atitude ou procurar ajuda de familiares e amigos. Os maridos e companheiros foram os responsáveis por 87% dos casos de violência doméstica. Em relação ao tipo de violência sofrida, 59% apontaram a violência física, 11% sofreram violência psicológica e 17% já vivenciaram todos os tipos de violência. Os motivos principais da violência, segundo as entrevistadas, são o uso do álcool (45%) e o ciúme dos maridos (23%). 

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Entrevista com: Alzira Rufino - Presidente Casa da Cultura da Mulher Negra
Data: 23/07/2003-
Por: Flavia de Queiroz Hesse

 Nossa entrevistada desta semana é uma vencedora. Ela é uma batalhadora incansável pelos direitos da mulher, sobretudo da mulher negra. Destemida luta por aquilo que acredita, tendo ingressado no Partido dos Trabalhadores quando ainda era ilegal. Conheça a riquíssima trajetória de Alzira Rufino.
WM: Qual é a sua formação?
Alzira: Da área de enfermagem. Politicamente, sou do período de construção do PT em Santos.
WM: Sendo mulher negra e de origem pobre quais foram as dificuldades que a sra. enfrentou para conseguir cursar a faculdade de enfermagem?
Alzira: As que toda a jovem negra enfrenta. Trabalhei muito, economizando tudo o que podia para bancar os estudos e fazer o estágio que a profissão exigia.
WM: Quando criança, ao trabalhar com café ou vendendo taboa na balsa que liga Santos ao Guarujá, no Estado de São Paulo, a sra. foi vítima de discriminação racial ou sofreu assédio sexual?
Alzira: A discriminação eu sentia já por parte dos meus vizinhos que  não deixavam seus filhos brancos brincarem comigo. Uma menina negra nas ruas vive uma situação bastante vulnerável  ao abuso sexual, mas eu pessoalmente nunca passei por esse problema porque eu estava sempre com meu irmão ou minha mãe (que era uma fera!).
WM: O que a motivou a ingressar no Partido dos Trabalhadores  quando ele ainda era ilegal?

Alzira: O sentimento de que a sociedade é muito desigual, desumana, preconceituosa. Por ser um partido dos trabalhadores eu me sentia enquadrada nele. O PT tinha uma proposta de mudanças e isso me sensibilizou.
WM: Como foi a sua ligação com a ex-prefeita de Santos e atual deputada federal pelo PT, Telma de Sousa?
Alzira: Comecei minha formação política tendo Telma e Edméa Ladevig como minhas grandes referências, enquanto lideranças políticas e enquanto mulheres corajosas, à frente do seu tempo. Minhas grandes mestras, com certeza.
WM: O que a motivou a fundar o primeiro núcleo da mulher dentro do Partido dos Trabalhadores?
Alzira:  Esse núcleo não foi uma iniciativa individual, foi fundado por um conjunto de mulheres do PT.  Sendo um partido fundado por mulheres era óbvia a necessidade de discutir as questões da mulher dento do partido em todos os municípios.
WM: Quando a sra. tomou consciência das questões ligadas à raça negra e em especial das mulheres negras?
Alzira:. É realmente uma questão de sentir na pele. Só quem sente, sabe.
WM: Como nasceu o movimento "Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista"?

Alzira: Em 1985, eu  havia coordenado o primeiro 8 de março unitário na Baixada Santista  e percebi que as mulheres negras que estavam no movimento de mulheres sempre continuavam nos bastidores, nunca nas mesas, e nem eram respeitadas como cabeças pensantes e sim, como corpos trabalhantes. (Aliás, isso não mudou muito!) Em 1986, fundei o Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista para fortalecer as mulheres negras da região,  falar por nós mesmas dando visibilidade política às nossas questões.
WM: Qual era a principal proposta do movimento? Ele era restrito somente às mulheres negras?
Alzira: A proposta era dar voz às mulheres negras que já estavam caladas há tempo demais. A sua composição era de mulheres negras.Temos  a Maria Rosa Pereira uma negreira que sempre esteve à disposição da CCMN.

WM: Esse movimento ainda existe?

Alzira: Algumas integrantes do Coletivo  participaram da fundação   da Casa de Cultura da Mulher Negra ,outras bem antes da fundação foram atuar em  outras organizações .Temos hoje mulheres e jovens que atuavam no Coletivo e que ainda  atuam com os movimentos de base e que  fazem parte da organização.A Profa. Urivani é  uma das que acreditou  na proposta e continua conosco de 1987 até hoje.A CCMN   possibilitou  a sua  formação e reciclagem em vários países do continente  africano para que  pudesse dar suporte às educadoras  que freqüentam ou procuram a nossa sede.Algumas  meninas que cantavam no Coral Omo Oyá hoje integram o quadro de funcionárias da CCMN>
WM: Atualmente a sra. é presidente e coordenadora da Casa de Cultura da Mulher Negra de Santos? Como e quando a sra. fundou essa entidade?
Alzira: Em 1990 éramos um grupo oriundas do Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista . Antes da fundação da  Casa, dependíamos de locais cedidos por outras organizações, como sindicatos e prédios públicos nos quais havia restrições de horários  e tipos de atividade. Discriminação brava. Alugar um imóvel para centrar nossas atividades foi um ato de coragem que exigiu sacrifícios enormes  mas as mulheres negras e a população negra sabiam e sabem onde podiam nos encontrar, onde podiam buscar apoio para defender seus direitos.
WM: Qual é a sua finalidade. Qual é o seu diferencial em relação a outras entidades voltadas à mulher negra?
Alzira: . O resgate da cultura  a partir da produção própria herança de nossas antepassadas .Também   priorizamos a informação como instrumento de mudança, de fortalecimento da consciência. Informação é poder e compartilhar informação é democratizar esse poder.
Outro trbalho pioneiro enquanto entidade negra  foi ter  priorizado o atendimento às mulheres negras em situação de violência doméstica e racismo, dando-lhe atendimento jurídico e psico-social em todas as suas necessidades , em 2009 apenas orientamos e encaminhamos para o serviço público que ajudamos a capacitar.
WM: Quais são as fontes de renda da Casa de Cultura da Mulher Negra de Santos? Ela recebe apoio de outras organizações?
Alzira: Desde a fundação da CCMN, nós desenvolvemos alguns serviços que geram renda e ao mesmo tempo resgatam nossa cultura: temos um restaurante de comidas típicas com entrega a domicílio, uma oficina de roupas étnicas, consultas de pesquisa à biblioteca, xerox de materiais do acervo, cursos, etc. Além disso temos um pequeno apoio de uma instituição de fora do Brasil para algumas atividades de nossa organização
WM: O que é inaceitável para a sra.?
Alzira: O racismo da maneira que vem, velado, a exclusão que ele provoca;  a violência contra a mulher, o estupro de crianças, a fome, a pessoa doente não ter acesso a tratamento de saúde digno A desvalorização social da mulher negra. O tráfico de drogas que trafica todos os valores humanos e toda a decência. A hipocrisia e o oportunismo político, me sentir usada.
WM: A sra. se considera polêmica?

Alzira: Não, trabalho com direitos humanos. O rótulo de polêmica vem de quem não se indigna com a injustiça e a violência.
WM: Qual é a sua percepção atual da questão racial no Brasil. Há ainda muita discriminação contra a mulher negra? Há melhora?
Alzira: Não podemos mais ficar só no processo de denúncia, temos que trabalhar em cima de ações afirmativas, fortalecer nossa representação política nas câmaras municipais, assembléias estaduais e no congresso; aumentar nossa auto-estima em relação à nossa cultura, nossa história e principalmente sermos mais unidos, mobilizados contra o desafio maior que é o racismo. O movimento negro precisa ter um papel decisivo junto à população negra  e à sociedade. As Ongs de mulheres negras têm também um papel importante de apontar direções, de articular essas mudanças exigindo a inclusão da mulher negra em todas as políticas de gênero e de raça em nosso país, resgatando sua liderança desde a chamada abolição. Em relação à mulher negra, um dos grandes desafios deste início do terceiro milênio é colocar a mulher negra no poder, mostrando a cara nas mesas de decisão política e econômica. Se compararmos com os avanços das mulheres brancas, por exemplo em áreas em que elas já são maioria (medicina, advocacia)  nós constatamos quantas barreiras diferenciadas enfrentam as mulheres que têm a pele negra.  Ao falarmos de avanços das mulheres, precisamos perguntar de que mulheres nós estamos falando. Da mulher branca, da mulher negra, da mulher indígena?
WM: Escrever livros e poesia é uma forma de relaxar para a sra?
Alzira: É uma forma de conservar minha humanidade, de me endurecer sem perder a ternura.
WM: Quais são os seus projetos para o futuro?
Alzira: Escrever mais.
WM: Para uma mulher vítima de violência o que a sra. recomenda?
Alzira:  Procure ajuda,porque o silêncio não vai proteger você. Ao contrário, a tendência do agressor é aumentar a sua violência ao não encontrar resistência e continuar impune. Ninguém merece ser espancado, nada justifica a agressão.
WM: A sra. gostaria de dar um recado final para nossas leitoras?
Alzira: Venham conhecer nosso trabalho em Santos. Entre em contato pelo e-mail ccmnegra@uol.com.br e tels(13) 3221-2650 e 3223-0738.

Deixo também um trecho de meu poema "resgate":

"sou negra

sem reticências

sem vírgulas  sem ausências

sou negra balacobaco

sou negra  noite cansaço

sou negra  ponto final"


Santos entra na Campanha do Laço Branco

Da Reportagem

    Aos poucos e sem fazer alarde um movimento liderado por homens busca envolver a população masculina na luta pelo fim da violência contra a mulher. A Campanha do Laço Branco, como vem sendo chamada, pretende não apenas comprometer o homem com a causa, mas acima de tudo impedir que ele feche os olhos para o problema, sendo cúmplice por omissão.
    A campanha foi lançada ontem em Santos durante a Programação Integrada da Semana da Mulher, no Mendes Panorama Hotel.
    Santos é a quinta cidade brasileira a adotar a campanha, que tem como slogan Homens Pelo Fim da Violência Masculina Contra a Mulher. As outras quatro são Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Santo André. Nessa última, ela está sendo organizada pelo Programa Gênero e Cidadania, da Organização Não-Governamental Centro de Educação para a Saúde (CES), em parceria com a Assessoria dos Direitos da Mulher, ligada à Prefeitura de Santo André.
    Leandro Mazzo, representante da CES e um dos organizadores da campanha, diz que cerca de 50 homens participam das ações, mas a idéia é ampliar esse universo. A divulgação acontece geralmente em eventos culturais ou esportivos de Santo André, quando o grupo de homens sai às ruas distribuindo folhetos educativos e amarrando os símbolos da campanha, os laços brancos, nos pulsos. Há ainda a versão do laço preso na camisa por um alfinete.
    Além da entrega do material, Mazzo explica que a campanha busca sensibilizar os homens para o problema. Um dos principais argumentos utilizados é mostrar para o homem que a violência contra a mulher atinge também os filhos e o próprio agressor, que em virtude da falta de sensibilidade e do egoísmo não pode vivenciar plenamente a sua masculinidade.
    No Brasil, as ações começaram em 2000. Mas no primeiro país a adotar a idéia, o Canadá, os grupos surgiram em 1986.

Números – De acordo com dados divulgados pelo CES, cerca de 300 mil mulheres já relataram ter sofrido algum tipo de violência masculina. Metade das mulheres assassinadas no País foram mortas pelo companheiro e estima-se que 20% das brasileiras adultas já sofreram algum tipo de violência de seus maridos ou companheiros.

Abertura — Participaram da abertura do encontro a secretária de Ação Comunitária e Cidadania, Anamara Simões Martins; a coordenadora da Saúde da Mulher, Elenice Hushi; a presidente da Casa da Cultura da Mulher Negra, Alzira Rufino; e a presidente da Comissão Municipal da Condição da Mulher, Marlene Mota Zamariolli.

Estatísticas confirmam as agressões

    De dezembro de 2000 a janeiro de 2002, a Casa da Cultura da Mulher Negra de Santos atendeu 1.181 mulheres que sofreram violência física, psicológica, sexual ou racial, provocada por homens. Só esses números fazem com que a presidente da Casa, Alzira Rufino, considere o combate à violência como o principal desafio da mulher.
    Conforme Alzira, os serviços públicos estão despreparados para atender a mulher vítima de violência, principalmente as unidades de saúde, que costumam ser o primeiro local onde as mulheres procuram ajuda quando são vítimas de agressões.
    As queixas delas, segundo Alzira, são banalizadas. ‘‘Poucas procuram a delegacia da mulher’’.
    A presidente da Casa da Cultura da Mulher Negra enfatizou que, mesmo sendo responsável pelo sustento da casa ou ocupando cargo de destaque, ‘‘nenhuma mulher está livre de sofrer agressão por parte de maridos e companheiros. As estatísticas são aterrorizantes. A cada quatro minutos uma mulher é agredida pelo companheiro’’.
    Se o atendimento médico pode curar a ferida da violência física, Alzira diz que a parte psicológica da mulher dificilmente se recupera. Humilhadas e com a estima em baixa, essas mulheres costumam buscar conforto no álcool, drogas ou comprimidos. Algumas não resistem e cometem suicídio. ‘‘Elas apelam para a morte física porque a psicológica já chegou’’.

Fonte: A Tribuna de Santos – http://atribunadigital.globo.com/

 http://www.consciencia.net/cidadania/arquivo02/lacobranco.html

8-25-2006 - 00:15:14 - 200.139.128.116 

Estado de S.Paulo.

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Anuário do IBGE

A informação (ou desinformação) de que os negros representam apenas 5% da população brasileira é absurda. Essa desinformação vem se somar a outros meios de violência contra a raça negra, como o extermínio de criança e adolescentes negros e a esterilização em massa de mulheres negras faveladas. A classificação dos “não-brancos” como “pardos”, “morenos”, “morenos claros” ou “morenos escuros”, pelo IBGE, branqueou o Brasil! A quem isso interessa? Alzira Rufino, Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista, Santos.

segunda Feira, 5 de abril de 1993 - A Tribuna.

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Negros do Brasil

A informação (ou desinformação) contida no Anuário do IBGE de 1992 e veiculada na mídia brasileira, onde consta que apenas 5% da população do Brasil são negros, parece no mínimo, absurda.
Absurdas, ainda, as explicações dadas por uma funcionária do IBGE, afirmando que o item cor era uma prerrogativa pessoal do entrevistado e não do entrevistador, durante o censo.
Ora, se o entrevistador batesse à porta de uma casa na cidade de Joinville/SC, onde a maioria dos habitantes são louros, de olhos azuis (origem ítalo – germânica) e uma senhora branca, ao responder à entrevista, quando se deparasse com o item cor, dissesse “negra”, que tipo de resposta seria computada? Loura, loura escura, Albina, Albina escura? Nenhuma delas, ela seria branca e branca mesmo!
Se a situação ocorresse em Salvador/BA (onde a maioria dos habitantes é de origem africana, portanto negros) e uma senhora negra, ao responder à questão cor dissesse “branca”, a resposta computada seria parda, morena clara, morena escura, mas “negra” jamais.
Com este tipo de expediente, os órgãos oficiais tentam diminuir a presença da raça negra e sua importância nos registros históricos.
Como no caso da Cidade de Santos, onde não há interesse, em  nível oficial, em resgate a história dos três quilombos da cidade, um dos quais o do Jabaquara, é , depois de Palmares, o mais importante do Brasil, tendo um papel importante no período abolicionista. Isso, porque se supõe que a historia do povo negro não é significativa.
Rui Barbosa rasgou a nossa história e, agora, o IBGE quer acabar com a nossa raça. O que acontece, neste caso, vem somar-se a outras violências contra a população negra, como o extermínio de crianças e adolescentes negros,ou, ainda , a esterilização em massa de mulheres negras faveladas.
Cabe a nós, raça negra, mostrar nossa representatividade nas urnas, elegendo candidatos (as) negros (as) para cargos de decisão neste País.
 Só assim não deixaremos nossa cor passar em branco!
O IBGE branqueou o Brasil! Resta – nos a pergunta: - A quem isso interessa? – Alzira Rufino, diretora da Casa de Cultura da Mulher  Negra de Santos


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Tribuna do Leitor-Domingo, 24 de janeiro de 1993 -
Guarda Municipal

Conforme matéria veiculada em A Tribunano dia 21 de janeiro, tendo como título “Comandante da Guarda quer armar a corporação”, a Casa de Cultura da Mulher Negra manifesta sua preocupação com essa notícia, especialmente quando a sociedade está mergulhada em uma onda interminável de violência e se cogita de um plebiscito nacional para a aprovação da pena de morte no Brasil.
A cidade de Santos pretende armar a sua Guarda Municipal. Qual seria o objetivo prático desse pequeno exército de comarca?
A nós, parece uma solução um tanto questionável. Será mesmo que o patrimônio necessita de homens armados para protegê-lo? Suponhamos que ao passear pela orla da praia o cidadão comum, com sua família, seja assaltado. Imediatamente os guardas municipais entrariam em ação perseguindo os assaltantes ou os suspeitos e ao alcançá-los aplicariam um golpe de caratê, ou judô, a exemplo do que ocorre na Holanda, onde a policia imobiliza os marginais armados sem disparar um tiro. Tudo acabaria de maneira mais segura possível. Suponhamos, agora, a mesma cena até o momento do assalto. Imediatamente os guardas municipais entrariam em perseguição armada contra os assaltantes, ou suspeitos, seguida da inevitável troca de tiros. Não é preciso dizer mais nada...
Outro agravante seria o critério no uso da arma (e que situação, em quais indivíduos, mais precisamente). Isso nos implica diretamente, pois sabemos que nós, negros e pobres, somos suspeitos em potencial.
A matéria afirma ainda a falta de impedimento legal para tal iniciativa. Pediríamos o seguinte: estatísticas de casos onde o indivíduo (especificamente da corporação) sofreu, ou foi vítima de intimidação, agressão, ou mesmo violência física que justifique tal medida.
Com esse estudo nas mãos, ainda assim procuraríamos aperfeiçoar o treinamento do indivíduo para que ele pudesse cumprir o seu papel sem pôr em risco a segurança dele e da sociedade.
Se não existe impedimento legal, nós, mulheres negras, pedimos o impedimento moral. Não vamos admitir mais derramamento de sangue nas nossas praias, na nossa Cidade. – Alzira Rufino, presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra.

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Sexta Feira, 29 de janeiro de 1993.

PAINEL DO LEITOR

Folha de S.Paulo

Pena de Morte

“O Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista e a Casa de Cultura da Mulher Negra vêem com preocupação a instituição da pena de morte num país onde persiste a impunidade para quem tem poder aquisitivo, como nos crimes de colarinho branco, e onde a punição severa está reservada para as camadas despossuídas da população”.
Alzira Rufino (Santos, SP)

Ester da Cunha Lemos disse,  

Olá, não sei se viram mas há muitas críticas à forma preconceituosa como a Veja abordou os eleitores e as eleitoras nordestinas. É possível no blog dar uma chamada para o assunto?

Abraços,
Ester da Cunha Lemos

Maria de Jesus disse,

8-25-2006 - 13:46:19 - 201.58.158.35    

Oi,

Sobre o assunto há um artigo do jornalista Altamiro Borges, reproduzido em vários sites inclusive no Portal MLB com 16 comentários. Vale à pena ler.
www.mhariolincoln.jor.br/index.php?itemid=1679
Veja: preconceito e manipulação de fatos Veja estimula ódio e preconceitos. Altamiro Borges.

Lindomar B. de Carvalho disse,

10-5-2006 - 08:48:54 - 164.41.124.43   

que legal que as mulheres estão interessadas neste assunto. Eu me casarei no dia 4 de Novembro próximo com uma mulher negra. Eu sou branco, tenho PhD e algumas perspectivas econômicas pela frente. Infelizmente nós temos sofrido todo tipo de preconceito, por isto fiquei chocado ao ver o que a veja fez e como fez. Na verdade está imbutido na reportagem uma série de erros ou crimes. Somente analizando a capa dá para ser perceber o seguinte: 1) porque somente agora uma negra é capa da revista veja? Mesmo sendo a maioria da população de parda para negra? 2) Porque esteriotipar a foto: nordestina, 450, educação média, … É contra este tipo de gente que temos lutar. O Lula fez muito mais do que o FHC (branco, com estudo, classe média alta, …) O Lula não chamou o povo de “caipira” (idiota, ignorante, …) Vale a pena e muito ler o artigo sugerido.

claudia gomes disse,

10-23-2006 - 14:47:45 - 201.10.147.230   

Essa matéria é extremamente preconceituosa!!!
Grande abraço.
Claudia

"Infelizmente temos que ter secretarias para poder resolver as nossas coisas, senão ficamos sem espaço..."  Leci Brandão

"O homem branco vê a mulher negra, na maioria das vezes, como objeto sexual eventual..."  Alzira Rufino

" O homem negro procura a mulher branca para uma relação mais estáve, como forma de ascensão social..."  Alzira Rufino

" A mulher negra sofre todo o impacto de uma mídia dirigida para a mulher branca..."  Alzira Rufino  http://marcelleba.spaces.live.com/lists/cns!AD56D54907B3E980!365/
Quinta Feira, 25 de março de 1993.

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Vocês não podem mais adiar nosso sonhos http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/381/38110115.pdf

Confira também  entrevista da Revista Internacional de Folkcomunicação,
edição 9, agosto/2007, com a editora da Revista Eparrei, Alzira Rufino.

http://www.uepg.br/revistafolkcom/atual/RevistaFolkcom
EntrevistaARufino

Vídeos no youtube
http://br.youtube.com/watch?v=QOFwNp1UR-k
 
Parte 2
http://br.youtube.com/watch?v=VuSxqiLOEH0
 
Parte 3
http://br.youtube.com/watch?v=jkBQDGLHgF8
 
Parte 4
http://br.youtube.com/watch?v=BqvFW3yR76I
 
Parte 5
http://br.youtube.com/watch?v=ipRtGDv6ZWY

 
Parte 6
http://br.youtube.com/watch?v=ctTJxHNHyhw


Mulheres Negras convocam:
NÃO A REDE GLOBO

Galera,

Recebi essa convocação da Casa de Cultura da Mulher Negra e achei legal passar pra frente. Vamos fortalecer essa corrente contra as manifestações preconceituosas e racistas da Rede Globo. Segue abaixo a convocação. Endereço on-line da organização http://www.casadeculturadamulhernegra.org.br


Um abraço


Negro Wal



Companheiras e companheiros:

Devido às ações da Rede Globo de Televisão em casos de desrespeito à população negra brasileira , em novelas, programas diversos e em especial:
a) Minissérie JK, onde assistimos cenas de estupro ,violência doméstica e racismo ;
b) Justificativas de que a nossa História não deve ser camuflada ;
c) Ausência de uma ação efetiva por parte dos órgãos que nos representam ,enquanto mulheres e negras;
Propomos:
Realizar uma intervenção do tipo:
" Desligue o Plin Plin da Globo".
Nos desligaremos da Rede Globo em nível nacional a partir de meia noite do dia 20 até meia noite do dia 21 de Março.Idem nos dia 25 de julho "Dia da Mulher Negra Latino Americana" no dia "25 de novembro Dia Internacional contra a Violência Doméstica ".
Entendemos que devemos usar o nosso poder enquanto 48% da população negra do país, intervindo economicamente no Ibope da emissora.
SE você acredita na intervenção e que juntos faremos a diferença, divulgue para sua base, amigos, vizinhos, sindicatos, enfim....
Estamos produzindo um material para circular via internet que poderá ser reproduzido para seus contatos.Você que assinou ou não a Carta, se quiser incluir o seu nome ou de sua organização no folder eletrônico, aguardaremos até dia 22 de fevereiro de 2006 até às 22:00 horas.
Aguardamos seu retorno,

Alzira Rufino e equipe CCMNegra.

Caros companheiras e companheiros:

Faltam menos de dois dias para o 21 de março -Dia Internacional de Combate ao Racismo e a nossa campanha cresce cada vez mais!

Apesar do desânimo do povo brasileiro, com essa ação,ainda conseguimos acender as poucas brasas dentro das cinzas do descrédito popular. Tem nos surpreendido a resposta das entidades,grupos e familiares de negros e negras em sua maioria anônimas para o intitulado Movimento Negro Nacional oficial.

São os reflexos da Marcha Zumbi que veio revitalizar e reciclar a militância que hoje está mostrando sua cara, são focos de resistência que partem da falação para uma ação concreta.

A Campanha têm demonstrado a necessidade da unificação negra em torno de nossas reinvidicações , só nos resta saber quais estratégias iremos criar para que essas organizações acreditem que é possível transformar o pensamento racista,sexista e violador dos direitos humanos.

Visibilizar nossas ações para essa mídia que insiste em nos rotular de maneira esterotipada e desrespeitosa é um prenúncio de movimento contrário aos poderosos .
Espero que a comunidade se apodere dos meios de comunicação para uma nova forma de agir e reagir contra os abusos dos chicotes, dos estupros, da violência, enfim, do dano psíquico que essas imagens produzem em nosso imaginário.

Que nesse trilhar de novos caminhos, os(as) comunicadores negras e negros desempenhem seu compromisso com a informação saindo dos guetos para desarticular esses tabus oriundos da grande mídia ,que devido ao poderio econômico acreditam que podem continuar com o desrespeito aos nossos ancestrais e os herdeiros de hoje.

Que as lideranças possam sentar na mesa com a Rede Globo acreditando na representatividade de 49% da população reivindicando políticas de promoção para igualdade com programas que eduquem e resgatem de fato a nossa auto estima ,sem politicagem.

Que os tambores da comunicação batam realmente para valer !
Alzira Rufino

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