NOSSA HISTÓRIA
Zumbi - Guerreiro Negro
Ciro Brigham
"Senhor não me pareceu dilatar a Vossa Majestade a notícia da gloriosa restauração dos Palmares, cuja feliz vitória senão avalia por menos que a expulsão dos holandeses, e assim foi festejada por todos estes povos com seis dias de luminárias e outras muitas demonstrações de alegria sem que nada disto se lhes ordenasse".
Este é o trecho inicial da carta do governador de Pernambuco Caetano de Melo e Castro, de 18 de fevereiro de 1694, enviada ao rei em exultação pela destruição da capital palmarista. O documento existente no Arquivo Histórico Colonial de Portugal, copiado por Ernesto Ennes, mostra que as autoridades coloniais levaram a sério a queda da Cerca Real do Macaco. Com ela, caía a articulação entre os mocambos, desaparecia a "República de Palmares", assim considerada desde 1630. No mesmo ano, outras aldeias palmaristas (Una, Catingas, Engana-Colomim, Quiloange, Pedro Capacaça) foram atacadas e destroçadas. Mas em algum ponto daquela região, Zumbi, com 39 anos, continuava vivo. Com ele, sobrevivia também o "fantasma" da rebeldia que há cem anos atordoava o sistema escravista.
Cabeça a prêmio, coxo e combalido por duas pelouradas na última batalha, o líder de Palmares ainda tentava reagrupar as migalhas de seu exército. Durante meses, grupos chefiados por seus homens de confiança irromperam nas vilas do distrito de Penedo à caça de armas e munição. Um deles, Antonio Soares, acabou capturado. No caminho para o Recife, a guarda que escoltava o prisioneiro topou com a coluna de André Furtado de Mendonça, que logo dele se apoderou. Acuado e torturado, Antonio Soares entregou o paradeiro de Zumbi pela garantia de viver, e em liberdade.
"... aceitou-se-lhe a oferta e desempenhou a palavra guiando a tropa ao mocambo do negro que tinha lá lançado fora a pouca família que o acompanhava, ficando somente com vinte negros dos quais mandou quatorze para os postos das emboscadas que esta gente usa no seu modo de guerra, e indo com os seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro que artificiosamente fabricado, achou tomada a passagem; pelejou valorosa ou desesperadamente matando um homem ferindo alguns e não querendo render-se nem os companheiros, foi preciso matá-los e só a um se apanhou vivo".
Foi assim que a carta que o governador enviou ao rei, em março de 1696, deu conta da fatídica manhã de 20 de novembro de 1695. O que não consta da carta é que o primeiro a atacar Zumbi - com uma punhalada na barriga - foi o próprio Antonio Soares. Em agosto de 1696, o Conselho Ultramarino recomendou ao rei a ratificação de seu perdão, já que "... era Zumbi a cabeça principal de todas as inquietações e movimentos da guerra que tão sensivelmente padeciam os moradores daquelas capitanias". Soares, que viveu tranqüilo até a velhice no Recife, foi incorporado à galeria dos grandes beneméritos da história pernambucana. Já o líder palmarista, a história escrita pelos mesmos brancos tratou de outra maneira.
Tiro de misericórdia
Quinze ferimentos a bala; dezenas de golpes de faca; um olho arrancado e a mão direita decepada; o general negro Zumbi ainda fora castrado e o pênis enfiado na boca; Em Porto Calvo, os oficiais da câmara lavraram autos de reconhecimento e decapitação. Sim, Zumbi teve sua cabeça salgada e enviada para Recife, onde o governador Melo e Castro mandou espetá-la num pau em praça pública, "para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente o julgavam imortal". Entre 1695 e 1716, ainda houve 29 expedições coloniais contra palmaristas, que contra-atacavam fazendas e vilas.
No auge da economia do açúcar, a morte de Zumbi foi um golpe para a luta contra a escravidão. O desaparecimento do líder negro ganha ainda mais importância quando estabelecida uma conexão com a recusa ao tráfico negreiro pelo Reino do Congo. Motivo pelo qual o rei Antônio (católico, por sinal) foi atacado em 1665 por Salvador Correia de Sá e André Negreiros, que levaram mil índios tupis para guerrear e conseguir restabelecer as rotas entre África e Brasil.
Durante todos estes três séculos, a simbologia da resistência palmarista persistiu. Primeiro, desprezada aos olhos de quem escreveu para os "heróis" vencedores, como um estorvo no caminho da civilização colonial, uma revolta qualquer que nem mereceu a classificação de "movimento nativista", a exemplo do que fazem os livros didáticos com a Revolta de Beckman, no Maranhão, Amador Bueno, em São Paulo, Restauração Pernambucana e Inconfidência Mineira. Depois, romantizada na lenda de um Zumbi que preferiu se atirar do precipício a ser pego pela coluna de Jorge Velho. Por fim, desqualificada enquanto memória necessária à reconstrução da história.
É em 1971 que a data do assassinato de Zumbi aparece ressemantizada enquanto acontecimento histórico, através de um grupo de intelectuais negros em Porto Alegre (Grupo Palmares). A idéia do poeta Oliveira Silveira se espalha por outros movimentos sociais de luta contra a discriminação racial e aparece já no final dos anos 70 como proposta nacional para o Dia da Consciência Negra. O Ilê Aiyê já desfilava no Carnaval pelas ruas de Salvador quando surge em São Paulo o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR) e com ele, articulações em praticamente todos os estados da federação.
"Nessa época, a gente começava a consolidar uma reflexão sobre a importância de um herói negro. Assim como a supremacia branca afirmava seus mitos, ídolos e referências, o movimento negro veio erguer os seus", comenta o deputado federal pela Bahia e militante histórico do movimento negro, Luiz Alberto. "Zumbi é a imagem unificadora do herói que esteve à frente de uma sociedade igualitária, espécie de mito político de liberdade originária no Brasil. Para a Bahia, especialmente importante porque daqui partiram os primeiros movimentos de peregrinação à Serra da Barriga", atesta o presidente da Fundação Palmares, Ubiratan Castro. Já para o historiador, vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura e ex-diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba (Ceao), Waldir Freitas Oliveira, "Palmares é que tem bibliografia, é o movimento. Zumbi foi uma conseqüência, uma pessoa transformada intencionalmente em mito; criou-se uma roupagem para ele. É emblemático, mas deve ser reconhecido dentro de sua realidade histórica".
Zumbi vive para representar Palmares. A dissociação parece desnecessária, já que ambos significam a possibilidade de construir uma sociedade com padrões de organização diferenciados. Justamente por isso são vinculados como bandeira à perspectiva de se consolidar uma identidade negra, que busca espaço e igualdade de condições num mundo historicamente dominado por e formatado para brancos.
Na Bahia de todos os negros, muitos sonham um mundo assim, enquanto outros vários trabalham para construí-lo. Talvez, como tenham sonhado e tentado construir Zumbi e os palmaristas, do alto daquelas serras de onde vigiavam tudo, desconfiados e encurralados, mas esperançosos. Talvez até o ex-Francisco esteja à espreita, através de alguns espiões, a conferir se a semente plantada está para brotar. Quem sabe um deles não fosse o mendigo de rosto escuro perdido entre os cabelos, de pés enormes e redondos, olhando para a festa dos forasteiros (baianos) negros a tomar União dos Palmares, na peregrinação para a Serra da Barriga em 1982. Baixinho, ele disse: "Eu sabia que esses herdeiros de Zumbi vinham tomar posse do que é seu".
Zumbi dos Palmares sobrevive no movimento negro como signo de luta pela igualdade racial
Foram muitos os golpes da historiografia. Mas a memória dilacerada de Zumbi dos Palmares vai, aos poucos, sendo reconstruída no Brasil. Ela sobrevive na Bahia, estado mais negro de um país que recebeu 40% de todos os africanos traficados para as Américas. De Salvador, agora os negros percorrem um caminho, num rito de reverência que já virou tradição - periodicamente, caravanas de afrodescendentes sobem a Serra da Barriga. No coração do Quilombo de Palmares, reverenciam o líder-herói, símbolo de luta pela igualdade racial. Três séculos depois do seu desaparecimento, em 1695, a data de sua morte, 20 de novembro, permanece como signo de uma identidade étnica sem fronteiras.
No Congo e em Camarões, Nzambi era o rei. Em Angola, zombi era o defunto, e no Caribe, zumbis são os mortos-vivos. Qualquer uma das definições poderia ser aplicada àquele que venceria, nos artífices da guerra do mato, mais de 40 batalhas. A violência de carregar um nome cristão durante 15 anos estava, enfim, liquidada. Naquela fuga de Porto Calvo para o aglomerado de mocambos do sertão pernambucano, morria um Francisco e nascia um Zumbi. Em Palmares, os desenraizados de África se encontravam para formar uma nova família, de língua, religião e hábitos distintos. Unidos na cor, os que antes eram inimigos no continente negro agora davam as mãos. Só assim voltariam a ser gente.
Quando Zumbi retornou a Palmares, naquele 1670, encontrou dezenas de aldeias articuladas numa área de seis mil quilômetros quadrados: Macaco, Subupira, Amaro, Andalaquituche, Acotirene, Dambrabanga, Aqualtene, Tabocas... Povoações de madeira e palha, normalmente ao longo de uma única e estreita rua, protegidas por fortificações de paliçadas e fossos com estrepes pontiagudas camuflados na mata. Atacavam e resistiam com armas de fogo, espadas, lanças e flechas, mas se valiam principalmente da retirada pela mata ao sinal de aproximação de colunas reescravizadoras.
Ali viviam de 20 a 30 mil pessoas, numa espécie de "república". Sua religiosidade combinava fragmentos de crenças africanas e do cristianismo dos brancos, e mantinham autonomia militar e econômica em cada mocambo. Havia, porém, um líder maior, conhecido por Ganga-Zumba (Grande Chefe), chegado a Palmares no tempo dos holandeses. Ele adotou Zumbi - perto de completar 17 anos - como sobrinho. Instruído, inteligente e vigoroso, o mais novo chefe de aldeia passaria ao comando geral do exército negro do quilombo em 1677. Este foi o ano em que a expedição de Fernão Carrilho partiu para, em cinco meses, capturar mais de 200 aquilombados, matar três chefes de mocambos e acertar Ganga-Zumba com uma flechada na perna, em Amaro. Outras duas colunas também prenderam e mataram dezenas em seguida.
Palmares estava enfraquecida e os deslocamentos constantes minavam a resistência dos aquilombados. Era difícil planejar evacuações e reorganizar economias. Por outro lado, sem mais recursos para investir nas expedições - e certo de que nenhum momento havia sido mais propício até então - o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, ofereceu um acordo de paz a Ganga-Zumba. O acordo propunha que todos os negros nascidos em Palmares eram livres; os que aceitassem a paz receberiam terras para viver e seriam vassalos da Coroa; e o comércio entre os negros e povoados vizinhos seria legalizado. Ganga-Zumba entrou em Recife na manhã de 5 de novembro de 1678 para selar a capitulação com o então governador Souza e Castro.
Foi no seio da desesperança dos que planejavam insurreições nas fazendas, e dos aquilombados que não suportavam a idéia de viver sob o domínio direto do governo colonial, que Zumbi, aos 23 anos de idade, se fortalece como o líder que rejeitou a capitulação. Abandonado por inúmeros palmaristas que foram se juntar ao sobrinho, Ganga-Zumba morre envenenado em Cucaú, e empresta o próximo capítulo da história de Palmares ao ex-Francisco.
A partir de 1679, a guerra é total. Zumbi se nega a fazer acordos e comanda o enfrentamento às tropas coloniais dirigidas por inúmeros comandantes. Da Cerca Real do Macaco, que transformou numa gigantesca fortaleza, tudo passava a decidir. Transfere mocambos, desativa outros, redistribui a população seguindo critérios militares. Primeiro, derrota o exército de índios conduzidos por João Freitas da Cunha. No ano seguinte, faz o mesmo com a expedição de Gonçalo Moreira. Mas a repressão aos mocambos aumenta, novas batalhas são travadas e ocorrem muitas baixas palmaristas. Com o poderio militar enfraquecido, a capital de Palmares teria o destino selado pela chegada do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, com seu batalhão de índios, mestiços e brancos.
A expedição parte em agosto de 1692, alcança a serra da Barriga e, diante das guaritas, armadilhas e 5km de paliçadas que protegiam a capital Macaco, é obrigada a estacionar e esperar, por mais de um ano, por reforços. Não sem antes sofrer uma grande derrota em batalha corpo-a-corpo com os homens de Zumbi, que provocaram a debandada de parte da coluna. Somente no início de 1694, com a chegada de homens, mantimentos e canhões, é que Domingos Jorge Velho resolve agir. À frente de um Exército de nove mil homens, manda construir uma contra-cerca, e consegue, com ela, aproximar seus canhões das cercas e paliçadas de Macaco.
Os palmaristas descobrem o plano e preparam uma rápida retirada. A tentativa de pegar os expedicionários de surpresa, mandando guerreiros pela brecha nas defesas do inimigo à encosta do precipício, não dá certo. Na madrugada de 6 de fevereiro, os homens de Jorge Velho atacam. Negros em fuga caem no abismo, horas de batalhas terminam em mais de 500 palmaristas presos, centenas de mortos e outros fugidos para a mata. Zumbi já não estava em Macaco - havia batido em retirada. A fortaleza deixava de existir.
À espera do inimigo
Difícil dizer por que Zumbi renunciara às estratégias de guerra do mato para se plantar, estático, à espera do inimigo. Talvez a influência de um mouro sudanês que vivia no quilombo; quem sabe, a perspectiva de vencer o Exército colonial e exigir do governo condições de paz justa e honrosa. De qualquer forma, o general palmarino não se rendeu, não aceitou capitular como o fez o antecessor Ganga-Zumba, cujos seguidores sobreviventes acabaram reescravizados.
Assim como Zumbi, o movimento negro não tem aceitado capitulações desonrosas. Na luta pela justiça racial, não há direitos pela metade, e sim, a vontade de poder ser negro por inteiro. Foi essa vontade, de transformar a cultura afro-brasileira em cultura histórica brasileira, que fez surgir, por exemplo, a Lei Federal 10.639, que obriga as instituições de ensino a incluírem a história dos negros em todos os níveis do ensino formal. Uma vitória para quem já militava inspirado nos ideais libertários do maior de todos os líderes palmaristas. "Quando Zumbi joga a lança no fim do filme de Cacá Diegues (Quilombo), é para que o inimigo não a pegue e para que a luta continue. A nossa lança é a caneta, o nosso patamar de luta, a educação; este é o nosso principal instrumento", coloca o diretor executivo do Instituto Steve Biko, Silvio Humberto Cunha.
O instituto mantém turmas de pré-vestibulares para negros (em parceria com o MEC), e trabalha com formação de lideranças afro-brasileiras, empreendedorismo solidário e fomento ao interesse pela ciência e tecnologia no ensino médio (em parceria com a Fundação Kellogs). Assim como o Ilê Ayê mantém suas oficinas profissionalizantes para jovens negros e a Escola Mãe Hilda, que atende à comunidade do Curuzu. Assim como a Universidade Estadual da Bahia (Uneb) foi pioneira em apostar na política de cotas, fazendo dela uma fortaleza, defendida a ferro e fogo por quem persegue o sonho da verdadeira democracia racial.
"Temos pela frente a oportunidade de transformar o viver através do conhecimento acumulado. Não é apenas conhecer a história e usá-la como arma para um apartheid, mas entender e respeitar a importância de cada etnia na formação do povo brasileiro", explica a ex-reitora da Uneb, Ivete Sacramento, que sentencia, à moda Zumbi: "Não queremos mais a presença do negro acorrentado. Estamos quebrando as correntes da submissão através da superação, da reparação e da busca pela igualdade de condições".
"Zumbi é o símbolo de uma luta contra a escravidão e por uma sociedade africana alternativa no Brasil, que tinha capacidade de abranger a população não-negra. Palmares não foi apenas uma revolta de escravos, foi um movimento de rebeldia étnico e social", lembra o antropólogo e presidente da Fundação Cultural Palmares, Ubiratan Castro. O legado daquele Brasil escravista, contra o qual Zumbi lutou e cuja dominação econômica se estruturou em cima da diferenciação étnica, é a mensagem simbólica que permanece entranhada, por exemplo, numa hierarquia de trabalho e ocupacional marcada pela raça. "Ninguém se assusta ao ver um negro no caminhão de lixo, mas ele chama atenção quando é empresário", completa Castro.
Na Bahia, essa faceta simbólica é acompanhada de uma referência histórica forte: foi na então capitania que surgiu a primeira notícia de repressão a um quilombo no país, em 1575. Além disso, alguns historiadores levantam indícios de que fugitivos da Bahia e Sergipe tenham se articulado aos mocambos palmaristas, que nasceriam 22 anos mais tarde, e formariam a maior sociedade de escravos fugidos das Américas nos séculos XVI e XVII. Todos funcionavam como nos ajuntamentos de fugitivos espalhados pelas planícies e planaltos de Cuba, Jamaica, Haiti, Colômbia, Peru, São Domingos e Guianas. Móveis ou estáveis, grandes ou pequenos, se estruturaram para sobreviver, impondo bases rígidas que serviam para todos os que buscassem seu abrigo.
Aliás, Palmares deixou marcadas algumas importantes lições de economia cooperativa, política, táticas militares, convívio e respeito às diferenças de todo o tipo: raça, sexo, culto. Uma evolução que afrontou e desestabilizou todo o sistema latifundiário escravocrata da colônia, da raiz à ponta. E uma sociedade que se apresentava como a negação da estrutura escravista-colonialista só poderia ser considerada um antro de bandidos e foras-da-lei, que saqueavam fazendas, roubavam munição, raptavam escravos e mulheres. Na verdade, foram reações de muitos quilombos ao mundo do engenho e às expedições reescravizadoras, e devolveram aos colonos parte do pavor e do ódio semeados nas senzalas, como mostra o relato a seguir sobre os aquilombados de Palmares, trecho de um documento existente no Arquivo Histórico Colonial de Portugal, copiado por Ernesto Ennes:
"(...) Aqui cultivam terras para o seu sustento, com toda a segurança de se verem destruídos, porque fiados no extenso do bosque, e fechados arvoredos, e mais serranias que discorrem circunvizinhas; não logram domicílio certo para haverem de ser conquistados. Deste asilo seguro, o valhacouto, infestam todas aquelas terras de Pernambuco tratando com exorbitantes desaforos que não estão seguras as vidas, honras e fazendas dos moradores de toda aquela conquista (...) "
Em se plantando tudo dá
Entre os principais contrastes que diferenciavam os dois mundos - o escravista e o palmarista - estava a visão coletiva sobre o espaço explorado. O mundo do açúcar praticava a monocultura da cana, sofria com a escassez de alimentos, produzia para vender, tinha a terra como base da riqueza e a sociedade dividida em classes. Palmares, após os primeiros tempos de penúria, desfilava culturas agrícolas de toda a espécie, tinha alimentos em abundância, produzia para o consumo interno, considerava a terra pelo valor da utilidade e não conservava divisão em classes com desníveis sociais - apesar dos privilégios concedidos a chefes militares e políticos.
De qualquer forma, um dos mais respeitados estudiosos da escravidão no Brasil, Clóvis Moura, adverte em Quilombos, resistência ao escravismo: "Saber até que ponto esse protesto, essa posição de resistência individual ou grupal correspondia à possibilidade de um projeto de nova ordenação social é outra discussão". Na verdade, é justamente a discussão que interessa aos que resgatam a simbologia da luta de Zumbi. Em União dos Palmares, município alagoano onde está a Serra da Barriga, ou em Salvador, município baiano onde centenas de comunidades quilombolas também desafiaram a morte anunciada pelo açoite e pela miséria, o herói negro fita o horizonte como referência de um passado esfaqueado, esperança viva de um presente recheado por seqüelas.
Zumbi permaneceu vivo para cristalizar, com a sua imagem, o discurso de uma identidade negra, mesmo que a importância de sua luta fosse, por vezes, salpicada de temperos interpretativos de sabor amargo. "Avalio que é nos anos 60 e 70 que começa com uma determinada historiografia marxista - invariavelmente branca - de obscurecer a figura de Ganga-Zumba, como depois foi feita com Zumbi, desqualificando os significados de identidade étnica de Palmares em termos de reconstrução histórica", defende Flávio Gomes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Palmares, publicação mais recente sobre a dimensão alcançada pela história de escravidão e liberdade no Atlântico sul.
Na Bahia, Zumbi dos Palmares estava vivo quando o movimento negro questionou publicamente o mito da democracia racial. Tese esta tão difundida pelos brazilianistas de Chicago no pós-segunda guerra, e que ainda respirava com bastante força em importantes setores da sociedade baiana quando, por exemplo, o Ilê Aiyê rompeu na avenida em 1974, com seu grito palmarista de liberdade. É isso que demonstra uma nota publicada no jornal A Tarde, de 12 de fevereiro de 1975, intitulada Bloco racista, nota destoante: "Conduzindo cartazes onde se liam inscrições como: "Mundo Negro", "Black Power", "Negro para Você", etc., o bloco Ilê Aiyê, apelidado de "Bloco do Racismo", proporcionou um feio espetáculo neste Carnaval. Além da imprópria exploração do tema e da imitação norte-americana, revelando uma enorme falta de imaginação, uma vez que em nosso país existe uma infinidade de motivos a serem explorados, os integrantes do Ilê Aiyê - todos de cor - chegaram até a gozação dos brancos e das demais pessoas que os observavam do palanque oficial. Pela própria proibição existente no país contra o racismo, é de se esperar que integrantes do "Ilê" voltem de outra maneira no próximo ano, e usem em outra forma a natural liberação do instinto característico do Carnaval. Não temos, felizmente, problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro" - e por aí vai a nota, forçando uma identificação que se fazia na época entre militantes negros e comunistas.
Memória dilacerada
A memória de Zumbi e de Palmares sofreu vários golpes da historiografia. Nunca foram encontrados documentos escritos deixados por palmaristas. Ou foi a tradição oral da maioria negra, ou a saga dos que tentaram assassinar essa herança simbólica. Tamanho descaso e inversão de valores fizeram com que somente três séculos depois da república livre de ex-escravos, a Serra da Barriga fosse tombada como patrimônio histórico, em 1986. Anos mais tarde, o local viria a ser considerado o principal sítio arqueológico do país. Isso não impediu que, em 1995, à altura das comemorações dos 300 anos da morte de Zumbi, uma motoniveladora da prefeitura de União dos Palmares subisse a serra com o objetivo de fazer da área um campo de pouso para o helicóptero presidencial. A manobra infeliz praticamente destruiu a camada do solo rica em vestígios do quilombo, e fez o arqueólogo Paulo Zanettini, membro da equipe que participou das primeiras pesquisas, classificar a "trapalhada" como "o maior crime contra a história negra no continente americano".
Porém, nenhum crime conseguiu apagar as marcas deixadas por Zumbi. Seu sangue escorreu pelo mapa dos tempos, foi resignificado algumas vezes, acabou encontrando bandeiras e causas para estampar, onde quer que seu exemplo sirva de rumo para as aspirações de um povo marcado pela maior diáspora que o mundo já viu. Essa é a história que estudiosos e militantes dos movimentos negros tentam reescrever. Na simbologia personalizada de uma luta atlântica, africana, dar vida a Zumbi é reconstruir os significados de uma identidade étnica que extrapola divisas e fronteiras, e que encontra na Bahia referências suficientes para renascer, a cada dia.
Para lá, rumaram os 40 escravos fugidos de um engenho no sul de Pernambuco, numa noite qualquer de 1597. Insólito era o número de fugitivos de uma só vez. Insólito era também o que fizeram antes de partir: massacraram a população livre da fazenda. Ato que os empurrou, por prudência - já que seriam caçados furiosamente - a atravessar toda a zona da mata e andar por 20 dias até que se sentissem seguros. Estes foram os primeiros aquilombados da região de Palmares, que se estabeleceram num ponto inexato entre as cidades de Serinhaém (PE) e Viçosa (AL).
Poucos, se embrenhando pela mata ao sinal de perigo, espalhando armadilhas, atacando milícias reescravizadoras, migrando e construindo novos mocambos, os negros asilados na Angola Janga - Angola Pequena - dariam forma a um pequeno mundo que resistiria por cem anos a mais de 40 campanhas patrocinadas pelo governo ou por senhores de engenho. O espírito de uma resistência voraz contra a escravidão estava formado, e viria a ser reforçado com o aumento indiscriminado das fugas nas senzalas, especialmente a partir de 1630, quando os holandeses desembarcaram a duas léguas ao norte de Olinda e se apossaram de Pernambuco, a mais importante capitania da época.
Invasão holandesa
Seis anos antes, o mesmo havia acontecido à Bahia, quando os navios da West Indian ancoraram em Salvador. Sócia dos lusitanos na exploração de Brasil e África, a Holanda era arquiinimiga da Espanha, que em 1580 apoderara-se de Portugal e seus domínios. Os holandeses ficariam até 1654, tempo suficiente para desestabilizar a estrutura do mundo do açúcar. A invasão holandesa "afrouxou, por exemplo, a vigilância de ferro sobre os pretos escravos. Foi como um furacão que deixasse no seu rastro destruição e desordem. Alguns negros aproveitaram para fugir; outros lutaram - à força ou seduzidos por promessas - junto com seus amos; terceiros decidiram ajudar o invasor", escreve Joel Rufino dos Santos. Este não é um movimento isolado. Décio Freitas coloca que os primeiros a se valer do caos produzido pela guerra - como a debandada das autoridades e funcionários e a migração de senhores de engenho para o sul - foram os índios: "Passaram-se em massa para os invasores e procuravam ajustar contas antigas com os portugueses". Ele relata que Frei Manuel Calado comentou com amargura: "Embora criados entre nós e aos peitos da Santa Madre Igreja, brigara contra nós a ferro, fogo e sangue".
A invasão dos holandeses e a guerra de retomada da colônia estimularam o crescimento de Palmares, que além de negros fugidos, passou a receber também índios e brancos pobres, desprovidos de identidade, honra e oportunidade, o que no mundo do açúcar estava atrelado à posse da terra. Calcula-se que em 1640, conforme levantamento dos holandeses - que diga-se, também mandaram expedições contra Palmares (a primeira em janeiro de 1644, comandada por Rodolfo Baro, captura 37 e mata cerca de cem palmaristas) - os mocambos já deviam ter dez mil habitantes, maioria absoluta de ex-escravos e negros nascidos no quilombo.
Nessa conjuntura, um ano após a retirada dos flamengos, Zumbi viria ao mundo. Com os pulmões incendiados pelo ar, sua voz foi a voz de todo o recém-nascido. A voz da dor, da inconformidade: "Por que me tiraram dali?". A vida, está claro, o obrigou a sair da barriga da mãe. Até então, era livre, germinado nas matas de Palmares. Porém, Brás da Rocha, que atacou o quilombo a mando do governador geral em 1655, o obrigou a sair da barriga da serra. Zumbi - que ainda não tinha este nome e ninguém jamais saberá qual - ainda recém-nascido foi entregue ao chefe de uma coluna, que por sua vez o presenteou ao padre Melo, cura de Porto Calvo. Chamaram-lhe Francisco.
O padre se afeiçoou ao menino, que foi educado em português, latim e religião. Porém, numa noite de 1670, aos 15 anos de idade, o coroinha Francisco foi em busca de um conhecimento que nenhum branco poderia lhe dar. Tomou o rumo do lugar onde havia nascido, para se encontrar com sua própria história. A história dos milhões que, como ele, foram suprimidos de sua cultura, tida como um estorvo à escravização. Francisco talvez tenha fugido para recuperar a sua humanidade perdida com o batismo que atropelou sua herança simbólica. Francisco fugiu à escravidão de sua alma, e libertou Zumbi.
Chamaram-lhe Francisco. Mesmo nome do governador de Pernambuco que enviou, após a expulsão dos holandeses, a primeira expedição contra aquela região montanhosa habitada por negros fugidos, denominada Palmares. Foi lá que, livre e mirrado, veio ao mundo em 1655. Foi lá que sua rota deixou de ser livre, poucos dias depois. Tirado ainda bebê dos braços da mãe capturada, deram-lhe de presente a um padre português que morava no distrito de Porto Calvo. Aprendeu a língua da metrópole, aprendeu os ofícios de coroinha e, um dia, aprendeu que ali não havia mais o que aprender.
Tinha 15 anos quando tomou o caminho daquele mesmo reduto de onde viera. A mãe que encontrou foi outra, tão capaz quanto a primeira de gestar grandes expectativas. No abraço da Serra da Barriga, passou a se chamar Zumbi. Aos 20 anos, já era respeitado como guerreiro. Aos 23, recusava o tratado de paz entre o então líder palmarista Ganga-Zumba e o governo. Aos 25, torna-se o chefe maior de Palmares. Aos 40, recordista de vitórias militares em toda a história do Brasil, passa à eternidade como o líder máximo que o maior conglomerado de mocambos das Américas conhecera.
O quilombo que sobreviveu por quase cem anos às investidas de mercenários e caçadores de negros fugidos, contratados por senhores de engenho e pelo governo, teve na "era Zumbi" sua mais exuberante demonstração de força e poder de renovação. Não raras foram as vezes em que aldeias inteiras conheceram as labaredas do ódio e o inferno da recaptura e condução de centenas de pessoas aos engenhos de onde haviam batido pernas no calar da noite. Mas também foram inúmeras as expedições que encontraram somente casas vazias, ou que viram homens perderem a vida em batalhas de guerrilha ou em fossos camuflados e recheados de pontiagudas estrepes. Demonstração clara de que tanto os sistemas militar e de comunicação de Palmares quanto a estratégia de locomoção pela mata eram trunfos muito bem utilizados por quem tinha o poder de definir todo o sistema de defesa das comunidades palmarinas ou palmaristas.
Conforme relatam alguns documentos enviados por expedicionários ao rei de Portugal e ao governador de Pernambuco, vários ataques a Palmares conseguiram surpreender e reconduzir algumas dezenas de almas de volta aos açoites do canavial, a partir de então, muito mais vorazes. Porém, na maior parte do tempo, mesmo antes de Zumbi, os esporádicos e dispendiosos movimentos de recaptura de escravos tinham resultados bastante inferiores àqueles produzidos pelo êxodo negro que assolava as fazendas de Pernambuco, Alagoas e Bahia. Muitos sublevados que desataram pela mata em pequenos ou grandes grupos formaram novos quilombos, que se espalharam pelo interior dos estados e sobreviveram anos e anos à saga escravista dos colonizadores brancos. Outros, seguiam em direção ao eldorado negro de Palmares, onde os oprimidos encontravam abrigo. Independentemente da cor.
Do ponto de vista historiográfico, grande parte do processo Palmares ainda é uma incógnita. Mas se há uma certeza é a de que Zumbi foi muito mais que um grande estrategista militar. Até porque suas vitórias se fizeram pela herança da tática volante de Ganga-Zumba, que utilizava a mata e o desconhecido a seu favor, para desespero das expedições que prometiam exterminar os negros sublevados. Quando dela Zumbi se desfez, pagou com a destruição de sua república livre, o preço por ter enfrentado de peito aberto os canhões do bandeirante paulista e caçador de índios Domingos Jorge Velho.
Diante de toda a luta pelo direito à liberdade, naquele pedaço de Brasil entranhado nas serras que hoje pertencem ao estado de Alagoas, Zumbi e Palmares desafiaram a ordem vigente com maior organização e capacidade de resistência que em qualquer outro quilombo, ao propor um sistema que dispensava o escravismo como rotor da produção. Movidos pela necessidade de sobreviver a todo o custo e pela obrigação de negar o sistema que os oprimia, aqueles mocambos articulados encontraram no espírito coletivo e no caráter inclusivo as principais referências para uma convivência despida de preconceitos. Esta é a faceta que constrói a ponte entre as aspirações negras do passado e as dívidas que persistem para com os negros do presente.
Em 20 de novembro de 1695, um ano depois de fugir ao cerco final de Domingos Jorge Velho, o maior guerrilheiro negro do Brasil é traído por um ex-quilombola e morto. A cabeça vira estandarte no Recife e a história do Brasil, durante muito tempo, "se esquece" de incluir Zumbi entre os seus grandes personagens. Quase 300 anos depois, na década de 70 do século XX, o homem cujo cordão umbilical permanece eternamente preso à Serra da Barriga surge como herói, símbolo do movimento negro em todo o país. Movimento que exige a transformação da "luta contra Palmares" na "luta dos escravos", que contesta a data da abolição oficial da escravatura (13 de maio) e estabelece no seu lugar como ícone resignificado da batalha étnica e social, o 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra.
O exemplo de Zumbi está muito longe de respeitar divisas e fronteiras. Tanto que, às vezes, fica difícil imaginar que ele não seja baiano. O principal líder negro da história brasileira sobrevive no estado mais negro da federação, talvez, com uma força maior que em qualquer outro. Movimentos políticos, associações culturais, candomblés, irmandades, blocos carnavalescos, centros de estudos especializados, fundações, escolas: inalar Zumbi e sua essência, para quem trabalha com a causa negra, é a gênese de toda a compreensão do processo histórico que descambou numa sociedade que, em grande medida, ainda reproduz os valores daquele século. Aos poucos, através do exemplo de Zumbi, a Bahia negra tenta se livrar dos grilhões da história, reconstruindo os caminhos que levam à placenta geradora do sentimento palmarista, um sentimento sem fronteiras.
Repórter, Correio da Bahia, 29.01.2006 - www.correiodabahia.com.br
Revolta dos Búzios
OLODUM HOMENAGEIA AOS HERÓIS POPULARES DA REVOLTA DOS BÚZIOS
O panorama político e social do Brasil escravista e colonial foi marcado profundamente por levantes, rebeliões e revoltas da massa escravas e da plebe livre que lutaram de forma o organizada ou não contra o sistema de opressão reinante naquele momento social e político ocorrido no Brasil a pregar a organização de uma República, onde não houvesse desigualdade econômica e social e onde pessoas não fossem julgadas de acordo com cor da sua pele.
A Revolta dos Búzios, Revolta dos Alfaiates ou Revolta das Argolinhas, como ficou conhecido o movimento, recebeu estes nomes devido ao fato dos revoltosos usarem um búzio preso à pulseira para facilitar a identificação entre si, por usarem uma argola na orelha com o mesmo fim e também por que alguns dos conspiradores eram alfaiates. Presume-se que os búzios seriam usados como moeda na nova república já que os búzios era moeda correntes em muitos lugares da África Foi formada por pessoas de várias etnias e classes sociais, desde escravos, negros livres, soldados, oficiais militares, sapateiros, carpinas, comerciantes, padres, etc., que aderiram ao Partido da Liberdade.
No dia 12 de agosto de 1798, em dez locais diferentes da cidade do Salvador amanheceram com um manifesto colado em suas paredes, que dizia:
'Está pra chegar o tempo feliz da nossa liberdade; o Tempo em que seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais'.
'Homens, o tempo da liberdade para nossa ressurreição; sim para ressuscitareis do abismo da escravidão, para levantareis a sagrada Bandeira da Liberdade'.
'Ó vós povos que viveis flagelados com pleno poder do indigno coroado esse mesmo Rei que vós criastes; esse mesmo Rei tirano há que se firmar no trono para vos veixar, para vos roubar e para nos maltratar'.
Estes trechos do manifesto bem demonstram o que combatiam e o que queriam os revoltosos.
No dia 23 de agosto, o autor do manifesto, Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, soldado, negro, foi capturado pelas forças de repressão do governo colonial. Pouco a pouco os revoltosos foram sendo presos, porém todos os intelectuais brancos e detentores do poder econômico foram perdoados; os que foram castigados foram degredados para Fernando de Noronha, ou para a África. Apenas os negros foram severamente punidos, a fim de servir de exemplo para aqueles que teimassem em sonhar com um Brasil livre, democrático e sem preconceitos.
O que foi a Revolta dos Búzios .
Denominada 'Conjuração dos Alfaiates', 'Inconfidência Baiana', 'Conspiração dos Búzios', Primeira Revolução Brasileira, Sedição de Mulatos, o movimento revolucionário de 1798 na cidade do Salvador foi uma das mais importantes manifestações anti-coloniais no Brasil nos finais do século XVII.
Mas sua importância histórica não fica somente no anticolonialismo; e ainda mais singular nos seus aspectos sociais em sua avançada formulação política. Esse movimento se formou sob a influência da filosofia iluminista. Sua concepção política era a República Moderna, regime no qual todos seriam iguais perante a lei e o poder teria sua origem no povo. Eram idéias colocadas em circulação na Europa ao longo do século XVIII, mas que alcançaram a Bahia, via Portugal, com o prestígio das revoluções de 1789 e 1792 na França.
Essas idéias ganharam cor e local na Bahia. Por isso mesmo a concepção de igualdade perante a lei tomou ênfase na igualdade de cor; uma repulsa as discriminações pela cor que então atingiam a Bahia e que não eram agressivas apenas para com os negros. Era bastante mais extensa, por exemplo: com relação aos mulatos (uma categoria que envolvia os pardos e brancos da terra) essa discriminação proibia o acesso aos cargos da administração e a proporção a patente de oficial nas tropas de linha. E somente por causa da cor. Ou porque os mulatos eram a classe de gente a mais orgulhosa e inquieta de todo país, como observou o marechal comandante das tropas pagas em 1803. A idéia de comércio em todos os mares e portos, o movimento de 1794/1798 deu formulação local ao exigir que o porto da cidade do Salvador exercesse o comércio livremente com todos os povos.
OS BOLETINS SEDICIOSOS
O movimento foi publicado na manhã do dia 12 de agosto de 1796 através de 11 boletins sediciosos, papéis manuscritos, com erro de grafia e redação confusa, colocado em pontos centrais da cidade. Desses boletins ainda existem dez no Arquivo do Estado da Bahia, maço 581 da seção Histórica o décimo primeiro foi queimado pelo Coronel Francisco José de Matos Ferreira e Lucena só o conhecemos pelas declarações do seu filho, capitão do Segundo Regimento pago, Antônio José de Matos e Lucena, que assistiu ser deslocado da parede de uma casa e o levou ao pai.
Esses papéis sediciosos, como foram denominados na ocasião, faziam severa denúncia da exploração colonial (latrocínios, furtos com os títulos de impostura, tributos, e direitos que não são elaborados por ordem da Rainha). Expressavam sentimento de independência (seja exterminado para sempre o péssimo jugo reinável da Europa); queriam igualdade de todos perante a lei (ficando cada sujeito as leis do novo código) e formularam promessas de recompensas para os soldados e oficiais dos regimentos pagos (cada soldado receba de soldo dois tostões cada dia, os oficiais terão aumento de posto e soldo).
Ao tomar conhecimento desses boletins, governador da capitania da Bahia, D. Fernando José de Portugal e Castro (1788 - 1801), mandou que o ouvidor- geral do crime, Desembargador Manuel de Magalhães Pinto Avelar de Barbado, procedesse imediata e rigorosa devassa para identificar.
No dia 16 de agosto foi preso o mulato e solicitador da causa Domingos da Silva Lisboa, em casa de quem foram apreendidos papéis que depois se soube que eram os de maior circulação entre os intelectuais e oficiais militares brasileiros (baianos): o Orador dos Estados Gerais as quadras a liberdade e igualdade. Domingos da Silva Lisboa ainda estava preso quando apareceram duas cartas no Convento dos Carmelitas Descalços. Tinham a mesma letra dos boletins. Deduziram logo que isso inocentava Domingos da Silva Lisboa. Foi então o próprio governador examinar requerimentos e petições arquivadas na Secretaria do Governo e encontrou semelhanças (não ficaram provadas) entre as letras dos boletins e a dos requerimentos feitos pelo soldado Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, antigo desertor e conhecido como homem de rezas e orações. D. Fernando ordenou sua prisão. Efetuada, na busca que deram em sua residência encontraram cada manuscrito com o Orador dos Estados Gerais.
A REUNIÃO DO CAMPO DO DIQUE DO TORORÓ
Após a prisão do soldado Luis Gonzaga, ocorreu uma prisão em casa do ourives, Luis Pires. Estiveram presentes o soldado Lucas Dantas do Amorim Torres, o alfaiate João de Deus Nascimento, o aprendiz de alfaiate Manuel Faustino dos Santos Lira, Nicolau de Andrade, José de Freitas Sacado (Sa Couto).
E decidiram consultar o comerciante - mascate Pedro Leão de Aguiar Pantoja sobre a conveniência de uma reunião no Campo do Dique do Desterro na noite de 25. Não encontraram, que era irmão do Tenente Hermogenes Francisco Pentoja, mas assim mesmo, João de Deus, Lucas Dantas e Santos Lira fizeram convites para a reunião a diversas pessoas. Três dos convidados denunciaram a reunião, foram o cabelereiro Joaquim José de Santa Anna, o ferreiro Joaquim José da Veiga e o soldado Joaquim José Siqueira. Em seguida as denúncias, o governador Coronel Alexandre Theotonio de Souza e determinou ao Desembargador Francisco Sabino Alvares da Costa Pinto que realizasse devassa para descobrir os responsáveis pela pretendida sedição. A reunião do Dique ao compareceram 14 pessoas. Luis Pires, Lucas Dantas e João de Deus esperavam que fossem muitos...
AS DEVASSAS E CONDENAÇÕES
O inquérito do Desembargador Costa Pinto desenvolveu se paralelo ao Desembargador Avelar de Barbelo. E foram realizados dezenas de prisões, dentre as quais as dos Tenentes Hermogenes Francisco de Aguiar Pantoja (5 de janeiro de 1799) e José Gomes de Oliveira Borges (26 de agosto de 1798); do professor de latim Francisco Muniz Barreto de Aragão (20 de dezembro de 1798), do cirurgião e médico Cipriano José Barata de Almeida (19 de setembro de 1798), ao todo 311 escravos, seis soldados da tropa paga, cinco alfaiates, três oficiais militares, dois ourives, um pequeno negociantes, um bordador, um pedreiro, carapina, um professor e um cirurgião tal foi a composição realmente processados.
Em dezembro de 1798 chegou de Lisboa enérgica Ordem Regia. Ordenava imediata conclusão das devassas e severa punição para os culpados. Ainda assim, novamente em sete de novembro de 1799 o tribunal da redação decidiu condenar à morte, pela forca os soldados Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga e Lucas Dantas do Amorim Torres alfaiates João de Deus do Nascimento, o aprendiz de alfaiate Manuel Faustino dos Santos Lira e o ourives Luis Pires último fugitivo jamais localizado.
O advogado José Barbosa de Oliveira[1] apresentou sucessivos e inúteis embargos, nos quais analisava as acusações e contestava que houvesse cometido crime de Lesa Majestade. Mas esses soldados e alfaiates tinham sido os escolhidos pelos desembargadores Avelar de Barbosa e Costa Pinto, como responsáveis pela sedição intentada e suas condenações valeriam como terror político para os escravos. Os ex-escravos e os soldados e artesãos da cidade de Salvador, ao mesmo tempo desautorizando investigações capazes de revelar pessoas importantes, oficiais militares, intelectuais, comerciantes e proprietários de engenhos, homens bons da cidade do Salvador e Recôncavo (no caso, Santo Amaro, São Francisco do Conde e Cachoeira).Santos Lira, Lucas Dantas, Luís Gonzaga e João de Deus (nesta ordem), foram enforcados e esquartejados no dia 8 de novembro de 1799 na praça da Piedade. Frei José Monte Carmelo, que os acompanhou da capela dos jesuítas até a forca, deixou relato dos últimos dias desses mártires brasileiros.
[1] Pai do Jurista Ruy Barbosa.
AS INFLUÊNCIAS IDEOLÓGICAS
Existem duas questões a serem considerados nesse movimento de 1794/1798: a influência dos iluministas e pensadores políticos franceses e dos acontecimentos da Revolução Francesa. Foi o professor de gramática latina em Rio das Contas, Francisco Muniz Barreto de Aragão, quem trouxe de Lisboa o Orador dos Estados Gerais em 1792; o Doutor Antonio Alvares de Figueredo lhe emprestou As Ruinas, e um moço pernambucano, chamado José Porphirio lhe deu uma cópia das quadras a igualdade e liberdade. Essas quadras ensinavam:
Igualdade e liberdade
No sacrifício da razão
Ao lado da sua justiça
Preenchem o meu coração
Esses foram os principais documentos que circulavam na Bahia no período de 1794/1798 quando existiu um grupo, até hoje não de todo identificado, que realizava reuniões fora do centro da cidade e discutia um Governo Democrático para a Bahia. Suas conversas chegaram aos soldados e aos artesões, todos esses homens de cor e filhos de escravos. Borges de Barros (os confederados do partido da liberdade) Afonso Rui (a primeira Revolução Social Brasileira) divulgaram a suposição de uma organização maçônica, denominada cavalheiro da luz, nesse grupo, seriam maçons agrupados pelo Francês Antonio Rene Larcher, capitão da marinha francesa e o comandante do La Preneuse, que esteve na Bahia de Todos os Santos de 30 de novembro de1792 a 2 de janeiro de 1797.
Mas, a não ser a passagem de Larcher pela cidade do Salvador, nada disso está provado. É somente possível afirmar que a influência ideológica nesse movimento de 1796/1798 a Revolução Francesa, acrescentando se: chegou a Bahia via Lisboa. Mas as Consignas de Liberdade, igualdade e fraternidade; as concepções de Governo Democrático Republicano essas foram adaptadas as condições locais. E é por isso que encontramos nos documentos de 1798 repetidas exigências de igualdade sem distinção de cor.
Ousaram escrever um projeto de Brasil diferente deste que hoje vivemos e espalharam um 'aviso' pelas ruas da cidade mais precisamente no Centro Histórico, enviaram para o governador geral da época. A tradução para o português atual é a seguinte:
'Aviso ao povo bahianense, que está para chegar o tempo feliz da nossa liberdade, tempo em que todos seremos irmãos, tempo em que todos seremos iguais e fazem parte do partido novo'.
Heróis e Heroínas da Revolta dos Búzios
Estes personagens não desfilaram nas páginas da nossa história oficial, mas estão presentes na memória coletiva do seu povo.
1. João de Deus do Nascimento, homem pardo, livre, casado, 27 anos, natural da Vila de Cachoeira, cabo de esquadra do segundo regimento de milícia desta praça, alfaiate, preso em 25 de agosto de 1798.
2. Luís Gonzaga das Virgens, pardo, livre, solteiro, 36 anos, natural da Cidade de Salvador - BA, soldado granadeiro do primeiro regimento da linha desta praça, preso em 24 de agosto de 1798.
3. Luiza Francisca D'Araújo, parda, livre, casada com João de Deus, presa em 26 de agosto de 1798 e solta em 05 de setembro do mesmo ano.
4. Lucrécia Maria Quent, criada, forra, natural desta cidade, presa em 15 de setembro de 1798 e solta em 26 de setembro do mesmo ano.
5. Ana Romana Lopes, parda, forra, natural desta cidade, presa em 15 de setembro de 1798 e solta em 20 de setembro do mesmo ano.
6. Inácio Pires, pardo, natural desta cidade, preso em 04 de outubro de 1798.
7. Antônio Simões da Cunha, pardo, livre natural desta Cidade, casado, pedreiro, preso em 10 de setembro de 1798.
8. Lucas Dantas de Amorim Torres , negro, liberto, solteiro, 24 anos natural desta cidade, soldado do regimento de artilharia e marceneiro.
9. Manoel Faustino dos Santos Lira , pardo, forro, solteiro, 18 anos, alfaiate e marceneiro, natural de Santos Amaro da Purificação.
Fontes:
Livro O dia em que o povo ganhou -Autor: Joel Rufino dos Santos/Apostila do Olodum 1985 – Curso afro brasileiro do Olodum/
Autor: A.V.S Godi
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