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História
e cultura
afro-brasileira no currículo escolar
A Lei respalda e garante a implementação
de projetos pedagógicos que tornam o currículo escolar
mais democrático
*Rachel de Oliveira
Até o final da década 70, os
estudos sobre a situação dos negros no Brasil, ficavam
concentrados basicamente em três áreas: medicina, psicologia
e antropologia que tinha como foco principal o folclore e as religiões
afro- brasileiras. Porém, no início dos anos 80, surge
na universidade uma nova vertente teórica, elaborada quase
que exclusivamente por pesquisadores militantes do Movimento Social
Negro, que estrategicamente vem forjando espaços políticos
para a inserção de suas propostas nas diferentes campos
de conhecimento.
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Uma grande
conquista deste grupo foi a promulgação da Lei 10.639, de
09 de Janeiro de 2003, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a
obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro
-Brasileira”. Em seu parágrafo primeiro a nova Lei estabelece
que o conteúdo programático a ser desenvolvido pela escola
deverá conter o estudo da História da África e dos
africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o
negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição
do povo negro nas áreas social, econômica e política
pertinentes à História do Brasil.
O Movimento Social Negro, na sua ampla configuração, abriga
pessoas de diversas tendências partidárias, bem como educadores
e especialistas de diferentes áreas, com destaque para a área
da educação, onde o número de publicações
de dissertações e teses tem crescido. Ao refletir o pensamento
dos negros sobre a educação, tais obras oferecem subsídios
para a construção de propostas pedagógicas que contemplem
a diversidade étnico -cultural da sociedade brasileira.
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Esta
nova abordagem desvela o conflito entre o conhecimento produzido pela
a universidade sobre a história e o cotidiano do negro e o
ângulo de visão do negro sobre sua cultura. Entretanto,
tal conflito não se restringe apenas ao campo teórico
e metodológico, porque ao trilhar o caminho da superação
em busca de caminhos para a eliminação do preconceito,
os negros ultrapassaram a posição de objeto e se transformaram
em sujeitos do conhecimento. Consequentemente, ampliaram a sua base
de poder. |
Conhecimento
e poder caminham juntos e são instrumentos fundamentais para assegurar
a cidadania. A escola representa um espaço privilegiado que propicia
condições para que estes elementos se entrelacem de forma
harmoniosa. Por esta razão deve ser constantemente revisitada a
fim de que se torne cada vez mais democrática, na construção
do seu currículo, na relação com os alunos e com
o mundo que a cerca.
Neste sentido, julgamos acertada e necessária a posição
do novo governo de dividir com a escola, a responsabilidade de providenciar
meios para inserir a população negra no projeto político
da nação. Com esta medida, alunos e professores, independentemente
de cor, fenotipia e etnia terão a oportunidade de ampliar seus
conhecimentos, reavaliar seu processo de formação quanto
à sua identidade étnico-cultural e se reapropriarem da história
de resistência do povo negro, que tem sido sistematicamente distorcida
e ocultada.
Para
cumprir esta importante tarefa, os educadores deverão colocar
em prática a concepção de educação
proposta por Paulo Freire, autor da obras “Pedagogia do Oprimido”,
“Conscientização”, “Educação
como Prática de Liberdade” entre outras.
Paulo Freire afirma que a pedagogia do oprimido “tem de ser
forjada com ele, e não para ele, enquanto pessoa ou povo, na
luta incessante de recuperação de sua humanidade”.
A base desta pedagogia é o diálogo, que é o principal
instrumento para a educação como prática de liberdade.
O diálogo é essencial para quem exerce o papel de educador
-libertador. Diz o educador que o diálogo transforma as relações
de poder. O verdadeiro diálogo ocorre quando os agentes em
relação se comprometem com o pensamento crítico,
que só se concretiza quando há humildade e esperança
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Na prática
escolar, o diálogo começa na busca do conteúdo programático,
quando o educador está preparando a abordagem dos seus encontros
com os alunos. Neste momento, os professores deverão privilegiar
temas, que no caso, sejam significativos para a compreensão da
História da África e da situação do negro
no Brasil, e articulá-los aos pressupostos da “Pedagogia
do Oprimido”.
Evidentemente, seu diálogo não poderá concentrar-se
apenas na escravidão. Cabe ao professor buscar novos conhecimentos,
através dos quais os alunos negros e não negros possam compreender
que os afro-brasileiros possuem uma história cultural milenar que
é parte integrante da história da humanidade.
Ao abordar tais assuntos, os professores estarão contribuindo para
a eliminação de preconceitos e discriminações.
Entretanto, faz- se necessário ter cautela para que o debate não
venha concorrer para a reificação de valores negativos,
como acontece freqüentemente, quando o educador desconhece a eficácia
e a crueldade dos fundamentos da dominação. Quando falta
tal discernimento, o oprimido acaba sendo punido e responsabilizado pela
situação em que se encontra.
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Um
exemplo clássico deste caso é a afirmação
equivocada de alguns historiadores, que tentam justificar a escravidão
argumentando que na África já existia tal sistema, que
foi simplesmente ampliado para outros continentes, “com a colaboração
dos próprios negros que venderam seus irmãos”.
Ora, a escravidão fez parte da história da humanidade,
diversas potências participaram ativamente deste sistema, não
apenas os africanos. A escravidão negra (a última da
história do mundo), apenas reproduziu a organização
milenar que se fecundou em outros continentes, como o asiático,
o europeu e o americano. Vale lembrar que o mesmo fenômeno ocorreu
na Civilização Asteca. |
Outra falácia
comum, que soa como verdade absoluta, é a afirmação
que os próprios negros se discriminam e têm vergonha de sua
cor. É preciso observar que os negros e particularmente as crianças
negras estão inseridos num contexto de constante violência
e discriminação. Esta condição pode provocar
um profundo sentimento de desvalorização, por si e por seus
semelhantes, aqueles que igualmente carregam as mesmas características
étnicas e culturais que por sua vez são sistematicamente
hostilizadas e desprezadas pela sociedade. Entretanto, não podemos
ser simplistas, a ponto de deixar de perceber que tal sentimento não
nasce no seio da família negra, mas é continuamente forjado
pelos sofisticados mecanismos de comunicação.
Adultos, jovens e crianças negras na condição de
oprimidos, “sofrem de uma dualidade que se instala na interioridade
do seu ser. Querem ser, mas temem ser, tais pessoas introjetaram a sombra
do opressor e seguem suas pautas”. “Sua luta se trava entre
serem eles mesmos ou serem duplos” Entretanto, há-de-se considerar
o grande número de negros que escapam a tais condicionamentos e
que fazem oposição sistemática à ideologia
do embranquecimento, buscando identificar-se com suas raízes culturais.
Paulo Freire argumenta que a vocação natural de todo ser
humano é ser mais e não ser menos. O sentimento de ser menos
ocorre e, às vezes, se cristaliza, quando o oprimido se encontra
em permanente situação-limite, na qual o dominador aparece
(sempre) como o vencedor que detém todo poder sobre a produção
econômica e cultural.
No Brasil, quem detém este poder, em grande escala, são
os homens brancos, em segundo lugar as mulheres e crianças brancas,
em seguida os homens negros, por último as mulheres e crianças
negras, e estas nem de longe desfrutam dos bens materiais disponíveis
à classe média, composta pela maioria branca. E, então,
a discriminação contra os negros privilegia os brancos de
todas as classes, inclusive os desfavorecidos socialmente.
Diferentes estudos, como os realizados por Silva, 1995; Silva P.B.G. 1996
e Oliveira, 1992 e 2001, entre outros, revelam que o currículo
escolar, o livro didático, alguns professores e alunos, às
vezes inconscientemente, discriminam as crianças negras. Por esta
razão os educadores necessitam fazer um diagnóstico sério
dessas situações e realizar intervenções pedagógicas
adequadas, facilitando a aprendizagem do respeito para com a diversidade
humana .
Entretanto,
esta ação não se realizará sem conflitos
e desvelar sua presença, latente nas relações
raciais, será a nova tarefa dos professores que visualizem
a superação dos preconceitos e a necessidade da promoção
da cidadania.
Desta forma, os alunos negros terão a oportunidade de se fortalecerem
no direito e vocação de ser mais: mais valorizados e
culturalmente mais respeitados. E os alunos não-negros apreenderem
que ninguém pode ser mais, se considera o outro como ser menos.
Pois, ao violentar e proibir que outros sejam, não podem igualmente
ser pessoas humanas. |
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Alicerçados
na pedagogia do oprimido, sugiro ainda, que os professores abram um diálogo
com o povo negro, por meio da articulação com os militantes
do Movimento Social Negro, que, com a promulgação da Lei
10.639, poderão entrar na escola pela porta da frente, e busquem
caminhos que possam ajudá-los a fundamentar sua prática
cotidiana. Só assim será possível transformar a escola
em um espaço plural, onde todas as crianças poderão
ter a oportunidade de ver a sua história e a sua imagem refletida
positivamente
Bibliografia
FREIRE, Paulo.
Pedagogia do oprimido.
2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.
FREIRE, Paulo.
Pedagogia do oprimido.
17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
FREIRE, Paulo.
Ação cultural para a liberdade.
Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1976.
FREIRE, Paulo.
Educação como prática
da liberdade.
10ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
FREIRE, Paulo.
Conscientização.
São Paulo: Moraes, 1980.
OLIVEIRA,
R. Relações raciais: uma
experiência de intervenção.
1992. Dissertação (Mestrado em Supervisão e Currículo)
Pontifícia Universidade Católica, São Paulo.
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OLIVEIRA,
R. Preconceitos, Discriminação
e Formação
de Professores - Do Proposto ao Alcançado,
2001.Tese - doutorado em educação
Universidade Federal de São Carlos - SP
SILVA,
Ana Célia da. A discriminação
do negro no livro didático.
Salvador: CEAO, CEDE, 1995.
SILVA,
Petronilha B.G; BARBOSA, Lúcia M. A. (Org.).
Pensamento negro em educação
no Brasil:
expressões do movimento negro.
São Carlos: EDUFSCar, 1996.
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(*)Pesquisadora,
especialista em educação e relações raciais.
Coordenadora do Projeto:
“Vida e História das comunidades
Remanescentes de Quilombos no Brasil”
Secretaria de Ensino Fundamental -MEC
Contato:
E-mail rakka@terra.com.br
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