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Escolha
um dos textos 04.Reflexões sobre Durban 2001-Alzira Rufino
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Saurê. Vai pedra aí, moço? Exigimos a nossa participação do alicerce ao acabamento final. É com esta visão, que nós mulheres da Casa de Cultura da Mulher Negra, trazemos a nossa EPARREI em 2001. Esta edição especial n. 01 da Eparrei traz um pouco de tudo o que pudemos colher e recolher sobre o processo da Conferência. Temas, orientações, eventos, dicas para a viagem a Durban, fontes de financiamento, mulheres negras em movimento. Um recorte parcial diante da variedade de visões, documentos dos movimentos de todo o Brasil. Revista Eparrei nº. 01- Maio de 2001 A Conferência da África do Sul e o Pós - Durban. Como Ficamos Nós os Afro- Brasileiros? Por Alzira Rufino A importância de uma Conferência Mundial Dois terços dos conflitos mundiais verificados no mundo atual têm motivação étnico-cultural. Fator mais do que suficiente - teoricamente- para que os olhos do mundo se voltassem para a cidade de Durban, na África do Sul, entre os dias 31de agosto e 7 de setembro, de 2001, quando aconteceu a 3a.Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela Organização da Nações Unidas- ONU. Tanto a primeira quanto a segunda, tiveram por sede países europeus e insignificante presença de delegações brasileiras. Com a queda do apartheid, nada mais óbvio do que a escolha da África do Sul para sediar a 3a. Conferência. À revelia dos movimentos pró- direitos humanos nos últimos 29 anos o quadro político - econômico mundial piorou. Aprofundaram- se as desigualdades. Acentuou- se o desrespeito às diferenças. Recrudesceu o racismo. A África sangra,chora e morre de fome como nunca. A abertura da Conferência Oficial foi feita pelo presidente da África do Sul, Sr. Thabo Mbeki, compondo a mesa de abertura com o Sr. Kofi Anan, Secretário Geral das Nações Unidas, Sr. Dennis Sassou Nguesso, presidente da República do Congo; Fidel Castro, presidente do Conselho de Estado de Cuba; Sr.Manuel Mocumbi, Primeiro Ministro de Moçambique, Sra. Vaira Vike- Freiberga, presidenta da República da Latvia e Sr. Yasser Arafat, prsidente da Palestina; sendo eleita a presidenta da Conferência a ministra sul-africana Diami Zuma. O forúm das ONGS teve em sua mesa de abertura a Sra. Mercia Andrews, presidente do SANGOCO, Sra. Mary Robinson, representando a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, Sr. Obed Mlaba, prefeito de Durban que saudou os quase 14000 delegados presentes. Os painéis e grupos de trabalhos contaram com a presença de ilustres personalidades como: o prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela e Winnie Madikizela Mandela, ovacionada e aplaudida de pé, durante 5 minutos enquanto falava no Fórum ONGS para mulheres de todo o mundo. Caminhadas de protestos, uma extensa programação cultural e um Centro de Exposições com farto material dos 99 países ali presentes, deram o caráter organizativo da Conferência. Em meio aos conflitos étnico- culturais em curso no mundo, algumas personalidades mundiais, conscientes da importância significativa deste momento, ousaram comparecer e se fizeram ouvir. Registro apenas algumas destas figuras de participação extensiva: Sra. Sonan Dagbo, do Tibet; Profa. Angela Davies, USA; Sra. Stella Makanya, Zimbawe; Sr. Youri Mustafa, Egito; Sr. Romero Rodrigues, Uruguai; Adv.Adjoa Aiyeton, USA; Sr. Hannan Ashawai, Paletina; Dr. Xolela Mangu, África do Sul - Fundação Steve Bikoo; Gay McDougall, USA- International Law Group, F. Ashrafi, Teerã; Irene Léon, Equador - Diretora da Área de Mulheres e Direitos Humanos, Risa Kumamoto, Japão; Eileen Pittaway, Austrália. Destaque especial para a apresentação do Dr. James Dennis Akumu, da Nairóbia, que começou, na fala, lamentando a ausência do grande amigo pan-africanista brasileiro Abdias do Nascimento. Não Estamos Partindo do Nada Face à fraca representatividade de uma delegação indígena, de homossexuais, comunidade judaica e religiões afro- brasileiras, a intervenção política no Fórum das ONGS ficou por conta das quase 150 organizações não governamentais negras: comunidades remanescentes de quilombos, universidades, conselhos estaduais e municipais, entidades do movimento negro, que alimentadas em informações por entidades como da Casa da Mulher Negra, de Santos,Geledés-Instituto da Mulher Negra, da capital de São Paulo; do CEAP, do Rio de Janeiro que não pouparam esforços para que fossem garantidos os onzes pontos, resultado dos documentos elaborados pela comissão executiva do Fórum Nacional de Entidades Negras, para a Conferência Cidadã, em Santiago do Chile em 2000, a Declaração dos Sindicalistas Brasileiros em Defesa de Políticas Públicas de Promoção de Igualdade Racial, de 2001, assinada pela CUT, CGT, PS, SDS e INSPIR; o documento da Articulação Nacional de Mulheres para a Conferência Nacional;o documento da CONEN; o documento do CEERT; o documento do ENZP, o documento do CNAB; o documento da Conferência Nacional contra o Racismo e a Intolerância, presidida pela vice- Governadora do RJ, Benedita da Silva. Influíram também os documentos tirados no lll Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em BH- Minas Gerais e o documento tirado no Encontro de Parlamentares Negros- Carta de Salvador, Bahia - ambos realizados em julho de 2001. Inestimáveis também as contribuições do CENIERJ- Conselho de Entidades Negras do Interior do RJ; do MNU- Movimento Negro Unificado; da UNEGRO- União de Negros pela Igualdade e do GRUCON- Grupo União e Consciência Negra que, mostram o caráter organizativo de federação e confederação das Entidades Negras - em todos os formatos que nortearam as discussões no Chile, Equador e Genebra e garantiram uma participação conseqüente na África do Sul. Revista Eparrei n. 01 nov/2001 NÃO PODEM ADIAR MAIS OS NOSSOS SONHOS Durban foi e está sendo um processo de aprendizado da nossa capacidade de ações e concretizações. Dois anos, ou mais, que engenheiras e engenheiros da construção encaminharam este estressante processo para que mais de 600 pessoas estivessem no ar, no mar, na terra de Durban, África. Na preparação da Conferência no Brasil, muitos/as não perceberam a importância de se ir a Durban com uma delegação expressiva. Priorizava-se a qualidade na mão de alguns e algumas. Por que uma delegação de 600 e não de 50, ou menos? É óbvio que o Brasil, ao levar a maior delegação à Conferência Mundial, deu um recado mais forte, e mais forte teria sido se não tivesse havido tantas reuniões a portas fechadas, informações retidas nas mãos de alguns/algumas, negociações não debatidas e a história contada pela metade. Tivemos alguns acertos e inúmeras falhas nesta caminhada: abuso de poder, informações truncadas, falta de habilidade de mexer a massa. Sabemos que o processo de construção não se faz de uma maneira fácil e rápida. Precisamos repensar a nossa estratégia nos passos que daremos adiante para que a Conferência de Durban não tenha morte súbita sem diagnóstico. Reuniões, financiadores, discussões, desacertos, esperanças, dúvidas, nos levaram a acreditar que é preciso coragem para mostrar ao mundo que nós negros/as desta parte do planeta chamada Brasil estamos com o nosso grito na garganta e para desmistificar representantes que passaram para o mundo que o Brasil é um país em que existe a democracia racial. O presidente Mbeki Thabo referiu-se à sociedade sul-africana pós-apartheid, na abertura da Conferência de Durban, dizendo: “Podemos não estar uns contra os outros - na luta contra o apartheid - mas também não estamos uns com os outros”. As palavras se aplicam bem à sociedade racial brasileira. Na etapa final da Conferência e com o impacto da discussão das cotas, conseguimos fazer com que o grande público, a mídia, superficialmente discutissem o racismo. Se não houver cumplicidade entre as entidades negras, nós não chegaremos a lugar nenhum. Tivemos o processo de Viena, dos direitos humanos, tivemos o processo de Beijing, recentemente a Conferência Mundial contra o Racismo, avançamos mas ainda é pouco. Falta conjunto. Em processo eleitoral,em nível estadual e nacional, precisamos de candidaturas e plataformas partidárias compromissadas. Nossa mobilização será necessária para podermos enfrentar as dificuldades que nos aguardam. Política não se faz sozinho/a. Vamos abrir o leque de compromisso com educadores/as, famílias, igrejas, sindicatos. Pré-condição: para termos poder político, o povo afro-descendente precisa estar no mesmo trem. Ser informado e convidado a participar. Precisamos de ousadia. Nossas ações ainda são muito tímidas. Fazer um grande estardalhaço, escandalizar com dados, campanhas, grandes marchas, vigílias, materiais com slogans (sugestão: você não é racista, certo?). Por outro lado, o nosso poder político precisa do nosso poder econômico. Ao concluir, não podemos deixar de mencionar que, resgatando nossas ancestrais africanas, as mulheres negras estão evidenciando a sua liderança na hierarquia da organização quilombola. Não podem adiar mais os nossos sonhos... 20 de novembro de 2002 Epa hei, Oyá! Ora Yê Yê, Oxum
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