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01. Decênios e Conferências
Mundiais contra o Racismo


02. Declarações e Convenções
contra o Racismo


03. Unidade Anti Racismo da ONU

04.Reflexões sobre Durban 2001-Alzira Rufino



Introdução

Saurê.  Vai pedra aí, moço?
Saurê.  Vai argila aí, moço?
             Que é pra misturar
Saurê.  Vai braço, aí?
             Que a vontade é trabalhar.
Saurê.  Vai fome aí?
Saurê.  Vai banzo aí?
Saurê.  Vai sonho aí?
Saurê.  Que agonia!
Saurê.  Que esperança!
Saurê.  Vai vida aí, Dona?
   Informar: ferramenta fundamental para construir, verbo a se conjugar nos movimentos sociais, brasileiros, raciais, feministas, sindicais, fortalecendo a idéia de “direitos humanos de uma raça, de um povo”.
   A Conferência mundial contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e todas as formas correlatas de intolerância: uma obra em construção que deve contar com a participação de todos e todas.
   É preciso ter trabalhadores (as) com técnicas de consciência, dignidade e responsabilidade, para que esta obra tão sonhada, ontem e hoje, não caia numa noite de chuva forte. Nós, negras e negros deste país, Afro descendentes, precisamos bater o martelo, “basta o racismo”, na mesma proporção de responsabilidades que a ONU, governo e países que não permitem a discriminação.
   Nesta construção é preciso que saibamos o nosso papel na empreitada: a que horas precisamos chegar, onde e como fazer para não nos atrasarmos.
    Nós, mulheres negras, não aceitamos mais apenas o papel de companheiras, esposas e amantes dos trabalhadores da obra, nem musas do samba da cabrocha bamba.

    Exigimos a nossa participação do alicerce ao acabamento final.

     Estamos antenadas na urgência de multiplicar esta construção. Conjugar o verbo comunicar é azeitar as tantãs usados pelo (a)s nosso (a)s comunicadore (a)s em um tempo africano. Juntamo-nos às iniciativas que estão surgindo em todo o Brasil. Um (a) mais um (a) é sempre mais que 2.

Esta edição especial n. 01 da Eparrei traz um pouco de tudo o que pudemos colher e recolher sobre o processo da Conferência. Temas, orientações, eventos, dicas para a viagem a Durban, fontes de financiamento, mulheres negras em movimento. Um recorte parcial diante da variedade de visões, documentos dos movimentos de todo o Brasil.
   Não podemos esquecer que esta Conferência tem cor e não tem dinheiro. Nosso poder político precisa do nosso poder econômico.

   Comunicar, informar, participar e mudar, é responsabilidade de todas e todos.
   Ao iniciar este editorial com uma saudação poética, pretendemos des - estressar (nos) nesta dialogação com o poder. Lá e Cá.
   A Conferência está aí, precisamos nos apropriar dela.
 
  Alzira Rufino, 
Presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra.                                                      

Revista Eparrei nº. 01- Maio de 2001

A Conferência da África do Sul e o Pós - Durban. Como Ficamos Nós os Afro- Brasileiros?

A importância de uma Conferência Mundial

Dois terços dos conflitos mundiais verificados no mundo atual têm motivação étnico-cultural. Fator mais do que suficiente - teoricamente- para que os olhos do mundo se voltassem para a cidade de Durban, na África do Sul, entre os dias 31de agosto e 7 de setembro, quando aconteceu a 3a.Conferência Mundial contra o racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela Organização da Nações Unidas- ONU. Tanto a primeira quanto a segunda, tiveram por sede países europeus e insignificante presença de delegações brasileiras.

Com a queda do apartheid, nada mais óbvio do que a escolha da África do Sul para sediar a 3a. Conferência. Á revelia dos movimentos pró- direitos humanos nos últimos 20 anos o quadro político - econômico mundial piorou. Aprofundaram- se as desigualdades. Acentuou- se o desrespeito às diferenças. Recrudesceu o racismo. A África sangra,chora e morre de fome como nunca.

A abertura da Conferência Oficial foi feita pelo presidente da África do Sul, Sr. Thabo Mbeki, compondo a mesa de abertura com o Sr. Kofi Anan, Secretário Geral das Nações Unidas, Sr. Dennis Sassou Nguesso, presidente da República do Congo; Fidel Castro, presidente do Conselho de Estado de Cuba; Sr.Manuel Mocumbi, Primeiro Ministro de Moçambique, Sra. Vaira Vike- Freiberga, presidenta da República da Latvia e Sr. Yasser Arafat, prsidente da Palestina; sendo eleita a presidenta da Conferência a ministra sul-africana Diami Zuma. O forúm das ONGS teve em sua mesa de abertura a Sra. Mercia Andrews, presidente do SANGOCO, Sra. Mary Robinson, representando a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, Sr. Obed Mlaba, prefeito de Durban que saudou os quase 14000 delegados presentes. Os painéis e grupos de trabalhos contaram com a presença de ilustres personalidades  como: o prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela e Winnie Madikizela Mandela, ovacionada e aplaudida de pé, durante 5 minutos enquanto falava no Fórum ONGS para mulheres de todo o mundo. Caminhadas de protestos, uma extensa programação cultural e um Centro de Exposições com farto material dos 99 países ali presentes, deram o caráter organizativo da Conferência.

Em meio aos conflitos étnico- culturais em curso no mundo, algumas personalidades mundiais, conscientes da importância significativa deste momento, ousaram comparecer e se fizeram ouvir. Registro apenas algumas destas figuras de participação extensiva:

Sra. Sonan Dagbo, do Tibet; Profa. Angela Davies, USA; Sra. Stella Makanya, Zimbawe; Sr. Youri Mustafa, Egito; Sr. Romero Rodrigues, Uruguai; Adv.Adjoa Aiyeton, USA; Sr. Hannan Ashawai, Paletina; Dr. Xolela Mangu, África do Sul - Fundação Steve Bikoo; Gay McDougall, USA- International Law Group, F. Ashrafi, Teerã; Irene Léon, Equador - Diretora da Área de Mulheres e Direitos Humanos, Risa Kumamoto, Japão; Eileen Pittaway, Austrália.

Destaque especial para a apresentação do Dr. James Dennis Akumu, da Nairóbia, que começou, na fala, lamentando a ausência do grande amigo pan-africanista brasileiro Abdias do Nascimento.

Não Estamos Partindo do Nada

Face à fraca representatividade de uma delegação indígena, de homossexuais, comunidade judaica e religiões afro- brasileiras, a intervenção política no Fórum das ONGS ficou por conta das quase 150 organizações não governamentais negras: comunidades remanescentes de quilombos, universidades, conselhos estaduais e municipais, entidades do movimento negro, que alimentadas em informações por entidade como Geledés-Instituto da Mulher Negra, de SP; do CEAP, do RJ e da Casa da Mulher Negra, de Santos, envidaram esforços para que fossem garantidos os onzes pontos, resultado dos documentos elaborados pela comissão executiva do Fórum Nacional de Entidades Negras, para a Conferência Cidadã, em Santiago do Chile em 2000, a Declaração dos Sindicalistas Brasileiros em Defesa de Políticas Públicas de Promoção de Igualdade Racial, de 2001, assinada pela CUT, CGT, PS, SDS e INSPIR; o documento da Articulação Nacional de Mulheres para a Conferência Nacional;o documento da CONEN; o documento do CEERT; o documento do ENZP, o documento do CNAB; o documento da Conferência Nacional contra o Racismo e a Intolerância, presidida pela vice- Governadora do RJ, Benedita da Silva. Influíram também os documentos tirados no lll Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em BH- Minas Gerais e o documento tirado no Encontro de Parlamentares Negros- Carta de Salvador, Bahia - ambos realizados em julho de 2001. Inestimáveis também as contribuições do CENIERJ- Conselho de Entidades Negras do Interior do RJ; do MNU- Movimento Negro Unificado; da UNEGRO- União de Negros pela Igualdade e do GRUCON- Grupo União e Consciência Negra que, mostram o caráter organizativo de federação e confederação das Entidades Negras - em todos os formatos que nortearam as discussões no Chile, Equador e Genebra e garantiram uma participação conseqüente na África do Sul. Fonte:Revista Eparrei nº.01 - Novembro/2001