Ações Afirmativas:
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"Quem tem medo das Ações Afirmativas?"





Afinal de contas,
onde estão os negros?
Diva Moreira*

Uma pergunta que sempre me fiz foi como os brancos puderam suportar a injusta situação dos negros nos Estados Unidos da segregação racial e da África do Sul do apartheid. Como puderam conviver com aquilo no quotidiano sem experimentar profunda indignação. Ou seja: entrar numa fila diferente para ter acesso a refeitório, entrar em banheiros reservados só para eles, aceitarem que a parte traseira do ônibus pudesse estar lotada de gente em pé, enquanto que a parte dianteira dispusesse de lugares e assim por diante. Abrir os jornais quase toda a manhã e ver no noticiário que mais um africano, em seu próprio país, havia sido assassinado por não ter aceito as iníquas restrições e leis impostas por um sistema que acreditava na supremacia racial dos brancos. Diante de tudo isso eu sempre me perguntava: como deram conta de testemunhar, de conviver com tamanha opressão e não resistir, não ter dito não, não ter colocado para fora a sua sagrada ira? Claro que muitos foram aqueles que se indignaram, ao preço até de sua própria vida. Brancos se juntaram à resistência anti-apartheid na África do Sul. Judeus e católicos brancos se aliaram ao movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Falando de uma forma genérica, naturalmente.

Aí passemos a analisar uma outra realidade racial mais próxima a nós. A brasileira, onde uma segregação elegante e cheia de melindres, mas efetiva, se estabeleceu. Não na desnecessária grosseria de bebedouros e bancos de praça separados, como aconteceu nos lugares mencionados. Mas no controle hegemônico das instituições-chave relacionadas com o poder econômico, social e político. Centremos no caso das universidades para aproveitarmos o recente debate sobre ação afirmativa nas universidades públicas. Nossos professores universitários, reitores, administradores e toda a direção dessas instituições nela entraram e dela saíram, deram aulas, fizeram pesquisas, orientaram teses, entregaram diplomas, e executaram todas as demais rotinas acadêmicas durante longas décadas, e - chocante - nunca se perguntavam porque os estudantes e os professores negros não estavam lá, nunca deram faltam deles, nada estranharam a ponto de se perguntarem: “Afinal de contas, onde estão os negros; por que eles não estão entre nós? O que poderemos fazer para que eles possam merecer o mérito pelo qual entramos aqui”? Em meus 56 anos de vida nunca ouvi que algo do gênero tivesse acontecido no apartheid de nossas universidades. Pelo contrário: fizeram até para que isso nem mesmo pudesse acontecer. Lembro-me da experiência dos CIEPs, no Rio de Janeiro, iniciada nos anos 80. Foi de gente educada (provavelmente nas nossas universidades públicas) que mais se ouviu a crítica desmoralizante da iniciativa. Não estou aqui a afirmar que a experiência não merecesse reparos, não se trata disso. Estou a dizer que experiência como aquela, caso os próprios críticos impiedosos tivessem tido a disposição de colaborar para aperfeiçoar, poderia ter-se multiplicado pelo país afora, e teria preparado milhares de estudantes negros e mestiços para a aprovação no vestibular, sem a necessidade de demandar quotas especiais. Mas, aí, chegou o momento pós-Conferência das Nações Unidas sobre Racismo e Discriminação Racial, realizada na África do Sul no ano passado. Pressionando o governo para que este coloque em execução a Plataforma de Durban, muitas organizações anti-racismo passaram a exigir a entrada dos estudantes negros nas universidades públicas, por via das quotas. O furor se estabeleceu. Aí, é que todo o mundo se deu conta de que há tão raros negros nas universidades brasileiras, que os poucos que existem são confundidos com estudantes africanos de intercâmbio. Provavelmente são os professores e reitores daquela mesma safra que condenou os CIEPs, ou que nunca se indignou com a ausência dos estudantes negros nas universidades, que mais brandem contra a iniciativa. O mérito, dizem eles, é e deve continuar sendo a única porta de entrada à universidade e afastá-lo seria promover a decadência do ensino. Ora, a universidade não deve se legitimar apenas pela excelência do ensino e da pesquisa, mas também pela eqüidade que promove ao passar a ser representada por todos os segmentos que constituem a população brasileira, e que justamente pleiteiam acesso à educação superior.

  Não seria melhor se os lados que se polarizam no debate se assentassem e buscassem saídas para a dessegregação da universidade brasileira? Infelizmente isso pouco tem acontecido. Professores, reitores e o ministro da educação, vêm apresentando uma tardia saída para o problema: fortalecer a escola pública, melhorar a qualidade do ensino primário e secundário. Ora, este também é um problema sério que nunca ou raramente mereceu a atenção desses mesmos professores e reitores. Por uma razão muito simples: na grandíssima maioria dos casos, seus filhos estavam estudando nas caríssimas escolas particulares, por meio das quais o capital do mérito é acumulado e apropriado por uma minoria que vai ter acesso às universidades públicas. Minoria não por acaso branca, pelas virtudes do racismo brasileiro. Mesmo assim, continuo insistindo, desses mesmos professores e reitores que conviveram tranqüilamente com o apartheid brasileiro sem denunciá-lo, espera-se que se juntem a nós para discutir os métodos para promover o acesso dos estudantes negros à universidade, evitando-se sua estigmatização. Bem recebidos e estimulados eles poderão não apenas compensar as defasagens cognitivas que acumularam, mas também alcançar níveis de excelência caso eles tenham a segurança de que é isso que a universidade e a comunidade estão aguardando deles.

Diva Moreira é formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais e é mestre em Ciência Política também pela UFMG. Tem curso de especialização no Instituto de Política Social da Universidade John Hopkins/Baltimore e participou do Programa de Pós-doutorado sobre Raça, Direitos e Recursos nas Américas, no Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade do Texas, em Austin de agosto de 2001 a Maio de 2002. Atualmente é consultora de Questões Raciais e de Gênero do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Fundou em 1987, junto com outras pessoas, a Casa Dandara-Projeto de Cidadania do Povo Negro. Dirigiu a Secretaria Municipal para Assuntos da Comunidade Negra/Belo Horizonte, de 1998 a 2000.

Livros:
“Psiquiatria: Controle e Repressão Social”Editora Vozes - Petrópolis/RJ - 1983 (edição esgotada)
“Alternativas Escassas - Saúde, Sexualidade e Reprodução na América Latina” (Capítulo: Casamentos Interraciais: O Homem Negro e a Rejeição da Mulher Negra”, em parceria com Adalberto Batista Sobrinho) - Fundação Carlos Chagas, Editora 34, São Paulo/SP, 1994.
E-mail: divamorbr@yahoo.com.br

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