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Ações Afirmativas
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Ação Afirmativa no Brasil e nos EUA: Semelhanças e Diferenças Por Vânia Penha-Lopes, Ph.D. Muito se fala sobre as semelhanças entre os programas de ação afirmativa dos EUA e do Brasil, a ponto de o primeiro ter sido chamado de “modelo predominante para o Brasil” (Contins & Sant’Ana, 1998) e, mais negativamente, de inspirar “divisões perigosas” aqui (Fry et al., 2007). Assim, quando, no ano passado, a Suprema Corte dos EUA aboliu a raça como critério de admissão nas escolas americanas (Egelko, 2007), os detratores da ação afirmativa viram aquilo como sinal de que a política também deveria ser abortada no Brasil (Magnoli, 2007). Na verdade, a maior semelhança entre os dois é a sua origem: ambos são tardias reparações pelos séculos de escravidão e a desigualdade a que foram submetidos os negros desde então, o que dificultou sua inserção e ascensão social nas sociedades de classe (Pinto & Clemente Junior, 2004; Zoninsein, 2006). Tanto aqui como nos EUA, os negros foram prejudicados pela escravidão. Com o fim dela, eles foram excluídos das formas mais lucrativas de emprego. Nos EUA, o programa que dava quarenta acres de terra e uma mula para os negros se tornarem proprietários de terras nunca foi implantado. Pelo contrário, continuaram a trabalhar nas terras pertencentes a brancos, onde tinham de cumprir uma certa produção de algodão, tabaco ou arroz (as plantações principais). |
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| Semelhante à situação brasileira, quando os negros iam entregar sua produção ou receber por ela, freqüentemente se viam devendo aos proprietários. Os poucos ex-escravos que conseguiram se tornar donos de terras eram intimidados—muitas vezes assassinados—por membros da Ku Klux Klan, uma organização terrorista fundada por brancos pobres sulistas ao fim da Guerra de Secessão, em 1865, com o fim de combater a competição econômica com os negros libertos. Isso, aliado à mecanização da agricultura, levou à “Grande Migração” dos negros para o nordeste e o meio-oeste dos EUA. Décadas depois, por conseqüência, as políticas se modificaram, pois, uma vez que os negros saíram do sul em massa, começaram a reivindicar direitos civis nas outras regiões; embora eles também tenham confrontado o racismo lá (onde eram preteridos no mercado industrial, que favorecia os imigrantes europeus), diferentemente do sul, eles podiam votar e, portanto, influenciar o processo político (Massey & Denton, 1999; Wilson, 1978). | No Brasil, os ex-escravos foram substituídos por europeus e japoneses, atraídos pelas ofertas de terras. Aos negros restou o trabalho em condição de semi-escravidão no campo e o êxodo para as cidades, onde a incipiente indústria dava preferência aos imigrantes e seus descendentes. Os imigrantes ascenderam relativamente rápido no Brasil, não porque eles trabalhavam arduamente enquanto que os negros recém-libertos eram indolentes (como é comum se ouvir), mas porque, devido à ideologia do embranquecimento, os brancos pobres e os imigrantes recentes tinham sobre os negros a vantagem do seu status racial, o que lhes dava mais oportunidades empregatícias. |
Em ambos os países, a defasagem dos negros perante os outros grupos custou a ser reconhecida, mas esse reconhecimento ocorreu bem antes nos EUA. Lá, a partir de meados da década de 1940, o governo começou a integrar suas agências, tais como as forças armadas. Nos anos 50, uma decisão da Suprema Corte desmantelou a segregação racial legal em vigor desde o fim do século XIX. Nos anos 60, o movimento pelos direitos civis se fortificou ao atrair a atenção do país para além dos estados sulistas; em 1964, o presidente assinou o Ato dos Direitos Civis, o qual iniciou o programa de ação afirmativa na educação e no mercado de trabalho. Embora sempre cercado de controvérsias, o programa americano foi relativamente apoiado até os anos 80, quando Ronald Reagan se tornou presidente e introduziu a idéia de que ação afirmativa era discriminação às avessas (Anderson, 2004). Sem dúvida, a política mais controversa do programa de ação afirmativa brasileiro é a adoção de cotas raciais nas universidades, uma das propostas do relatório que o governo apresentou na Conferência de Durban, em 2001 (Heringer, 2006). Desde que a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) admitiram os primeiros alunos cotistas em 2003, muitas outras aderiram às cotas: segundo os mais recentes dados do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj, “[m]ais da metade das universidades estaduais e 42% das federais adotam algum tipo de ação afirmativa no Brasil” (Gois, 2008). Referências Dra.Vânia Penha-Lopes, Ph.D. |
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Ações
Afirmativas A questão
racial está pautada definitivamente na agenda nacional, para
isso muitas lágrimas, sangue permearam essa nossa luta. A antiga constituição fazia entender que: se era proibido discriminar, a partir daí, cada qual teria as mesmas oportunidades, só dependendo do esforço pessoal para vencer. O tempo mostrou que não era bem assim, não bastava proibir, era preciso agir. Então em 1988, com a nova Carta Política, algo importante aconteceu: o debate sobre igualdade de oportunidades e de tratamento ganhou visibilidade, porque houve um reconhecimento de que para além de proibir a discriminação era preciso implementar programas de discriminação positiva. Por exemplo, o artigo 7.º CF/88, incisos XX; XXXIV, entre outros. Houve também o reconhecimento de que os Tratados Internacionais deveriam ter força de lei, o que abre várias possibilidades para os direitos humanos em geral, e para negros e mulheres especificamente, poderem acionar mecanismos de proteção internacional. Além
do fato de uma Constituição mais focada nos direitos da
pessoa humana, o debate da discriminação anti-negro cresceu,
e alguns fatores foram determinantes na construção de um
novo tempo: A nossa
luta forçou tanto o governo como a sociedade a debater o racismo
e suas conseqüências para a população negra.
E foi com essa série de acontecimentos, que o debate das Ações
Afirmativas se firmou no cenário brasileiro. Portanto,
Cota é apenas um dos modos de implementar as políticas de
Ações Afirmativas. Reduzir as políticas de Ações
Afirmativas às cotas é um artifício perigoso e desqualificador
de um projeto sério de inclusão. Por fim,
queremos afirmar que as Ações Afirmativas não ignoram
as qualificações, o mérito, como querem afirmar alguns,
mesmo quando tomam medidas radicais como as cotas, isto porque: • 1.
já temos muitos negros(as) qualificados, aptos a assumirem
postos de trabalho nunca antes assumidos; O que queremos
deixar bastante explícito é de que os jovens negros não
devem se envergonhar por entrarem na Universidade através das cotas.
Cotas raciais sempre existiram no Brasil. Não fosse assim, nas
universidades, nos altos cargos, nos meios de comunicação,
os políticos, etc., não seriam majoritariamente brancos.
A cota racial nesse país pertence somente aos brancos, o que estamos
lutando é para democratizar essa cota. Queremos a nossa parte.
E os brancos tentam enfiar em nossa cabeça de que estamos errados,
pois estamos querendo privilégios, como se os grandes privilegiados
durante séculos não tivessem sido eles mesmos. E ainda quanto
ao debate de que não se sabe quem é negro no Brasil, não
devemos entrar no mérito dessa discussão. Todos, sem exceção
sabem quem são os negros brasileiros. O questionamento de que não
se sabendo ao certo quem é negro no Brasil, fará com que
alguns “falsos negros” ou mesmo aqueles que realmente tem
pele escura, mas nunca foram militantes da luta contra o racismo poderão
utilizar das cotas, afirmando serem negros, chega a ser cômico.
Ou é falta de argumentos mais qualificados, ou é racismo
mesmo. Com todo o quadro de exclusão, todo o peso de ser negro
ou negra no Brasil, quem quererá ser negro? E ainda ser negro e
não ser militante não significa que não seja alvo
da discriminação. (*)Artigo
publicado na edição de Maio/2002 da Revista Eparrei - publicação
semestral da Casa de Cultura da Mulher Negra |
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Afinal
de contas, Uma pergunta que sempre me fiz foi como os brancos puderam suportar a injusta situação dos negros nos Estados Unidos da segregação racial e da África do Sul do apartheid. Como puderam conviver com aquilo no quotidiano sem experimentar profunda indignação. Ou seja: entrar numa fila diferente para ter acesso a refeitório, entrar em banheiros reservados só para eles, aceitarem que a parte traseira do ônibus pudesse estar lotada de gente em pé, enquanto que a parte dianteira dispusesse de lugares e assim por diante. Abrir os jornais quase toda a manhã e ver no noticiário que mais um africano, em seu próprio país, havia sido assassinado por não ter aceito as iníquas restrições e leis impostas por um sistema que acreditava na supremacia racial dos brancos. Diante de tudo isso eu sempre me perguntava: como deram conta de testemunhar, de conviver com tamanha opressão e não resistir, não ter dito não, não ter colocado para fora a sua sagrada ira? Claro que muitos foram aqueles que se indignaram, ao preço até de sua própria vida. Brancos se juntaram à resistência anti-apartheid na África do Sul. Judeus e católicos brancos se aliaram ao movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Falando de uma forma genérica, naturalmente.
Diva
Moreira é formada em Comunicação Social pela Universidade
Federal de Minas Gerais e é mestre em Ciência Política
também pela UFMG. Tem curso de especialização no
Instituto de Política Social da Universidade John Hopkins/Baltimore
e participou do Programa de Pós-doutorado sobre Raça, Direitos
e Recursos nas Américas, no Instituto de Estudos Latino-Americanos
da Universidade do Texas, em Austin de agosto de 2001 a Maio de 2002.
Atualmente é consultora de Questões Raciais e de Gênero
do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). |
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