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LEMBRANDO LÉLIA GONZALEZ Por Luiza Bairros Conheci Lélia Gonzalez quando entrei para o Movimento Negro Unificado/MNU em 1979. Ela era membro da Comissão Executiva Nacional, e a todos surpreendia pelo comportamento ousado, a risada de corpo inteiro, o linguajar popular, bem ao modo do falar carioca, salpicado de expressões acadêmicas, que até permitia que nós, os militantes mais novos, entendêssemos o que é epistemologia! Na época não havia ninguém com a capacidade dela de pulverizar os argumentos racistas nos debates de que participávamos, de defender a legitimidade e a necessidade do movimento negro quando todos os setores auto-intitulados progressistas nos acusavam de divisionistas da luta popular. Quando a maioria das militantes do MNU ainda não tinha uma elaboração mais aprofundada sobre a mulher negra, era Lélia que servia como nossa porta voz contra o sexismo que ameaçava subordinar a participação de mulheres no interior do MNU, e o racismo que impedia nossa inserção plena no movimento de mulheres. Mas através de muitas e longas conversas e dos textos dela, aprendemos como incorporar um certo modo de ser feminista às nossas vidas e à nossa militância, articulamos nossos próprios interesses e criamos condições para valorizar a ação política das mulheres negras. Lélia exerceu um papel fundamental na criação e ampliação do movimento negro contemporâneo. Mas, em termos pessoais, do que ela mais se orgulhava era de ter catalisado os anseios de uma parcela da juventude negra de Salvador, Bahia, no final dos anos 70. A partir de um ciclo de palestras que ela realizou na cidade em maio de 1978 - Noventa anos de abolição: uma reflexão crítica - várias pessoas que já discutiam a questão do racismo formaram o Grupo Nêgo, núcleo a partir do qual surgiria o MNU - Bahia. Este fato revela o que, para mim, foi o traço mais característico de Lélia: a capacidade ímpar de nos instigar com a exuberância de sua fala e nos inspirar com a luminosidade própria de sua personalidade. A contribuição de Lélia e de outros militantes negros para nossa história recente ainda não foi devidamente avaliada e reconhecida. Este artigo é apenas um passo no sentido de provocar outras iniciativas, de maior fôlego, que busquem entender melhor o que os últimos vinte e cinco anos representaram em termos da construção de uma alternativa negra de pensar a sociedade brasileira. Por outro lado, também é parte de uma tarefa que me atribuí enquanto amiga e companheira de militância que fui de Lélia. Assim, mais do que analisar criticamente suas idéias, procurei escrever de maneira a permitir que ela falasse através do texto, numa pequena amostra - espero que não muito fragmentada - dos temas que motivaram sua intervenção em diferentes momentos. Lélia de Almeida Gonzalez, para quem nasceu em 1º de fevereiro de 1935, filha de uma família operária de Minas Gerais, penúltima de dezoito irmãos. Entre séria e brincalhona, bem ao seu estilo, afirmava que só passou a admitir ser mineira depois que o MNU foi criado em Belo Horizonte. Aí, sim, dava orgulho ser de Minas. Do pai negro ferroviário pouco falava, mas não se cansava de repetir que da mãe índia, empregada doméstica, aprendeu as primeiras lições sobre a necessidade de ser independente. Um irmão jogador de futebol trouxe a família para o Rio de Janeiro, em 1942, e aí começa a trajetória da mineira que sempre se identificava como carioca e torcedora incondicional do Flamengo, o time do irmão que tanto admirava. De “babá de filinho de madame”, passou a estudante aplicada de história e de filosofia, professora da rede pública, mestre em comunicação e em antropologia, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutoranda em antropologia política na Universidade de São Paulo.
A partir de 1974, despertada para o conteúdo político da questão racial, Lélia passou a participar das discussões que então reuniam ativistas negros no Rio de Janeiro. Procuravam analisar a histórica subordinação dos negros no Brasil, avaliar os efeitos da ditadura militar sobre a organização dos negros, bem como estudar sobre a situação e a luta dos negros em outros países. Estas inquietações afloravam ao mesmo tempo em que os negros do sul do Brasil promoviam uma agitação político-cultural baseada na soul music, como que numa preparação intensiva para o movimento aberto de combate ao racismo que eclodiria mais tarde. Os militantes cariocas, então, tinham dois encontros por semana “para preparar dois tipos de texto: um, com o noticiário a respeito de atos de discriminação e, outro, relativo ao período pré-colonial na África. Aos sábados, reunião geral ... No domingo tava todo mundo na Noite do Shaft no Renascença. A cada reunião o grupo crescia.” A partir deste ponto toda a atuação de Lélia será marcada pela certeza de que o combate ao racismo é a sua tarefa principal. Para ela, a chave para entender a questão racial no Brasil está na compreensão das matrizes da cultura brasileira, onde a vertente negra exerce influência quase que total. Além disto, enfatizava, talvez em conseqüência de sua experiência pessoal, que o branqueamento é um dos obstáculos maiores a serem vencidos, se quisermos, enquanto negros, efetivamente mudar a cara do país. Na sua opinião, a ideologia do branqueamento é a forma ideológica mais eficaz do racismo na América Latina, porque “reproduz e perpetua a crença de que as classificações e os valores da cultura ocidental branca são os únicos verdadeiros e universais. Uma vez estabelecido, o mito da superioridade branca comprova sua eficácia pelos efeitos de estilhaçamento, de fragmentação da identidade étnica por ele produzidos; o desejo de embranquecer (de ‘limpar o sangue’, como se diz no Brasil), é internalizado com a negação da própria raça, da própria cultura.” 3 Contudo, o estímulo ao branqueamento não pode concretizar-se totalmente por causa da ação de organizações negras, como o Ilê Aiyê da Bahia, “pioneiras no sentido de demonstrarem que cultura é política com ´P´ maiúsculo, na medida em que da maneira mais didática e prazerosa, fazem com que nossa etnia tome consciência do seu papel de sujeito de sua própria história e de sua importância na construção não só deste país, como na de muitos outros das Américas.”
Tempos de Partido Pelo contrário, ela temia que sucumbíssemos às tentativas do sistema de nos guetizar. Entre os membros da Comissão Executiva Nacional do MNU, ela foi uma das primeiras a candidatar-se a um cargo eletivo, concorrendo a deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores/PT no Rio de Janeiro, em 1982. Talvez tenha sido este o momento em que o MNU começou a pavimentar o caminho para o gradual afastamento de Lélia da entidade. Na época, a necessidade de garantir o caráter suprapartidário da entidade fez com que se tirasse uma posição no sentido de que candidatos não poderiam permanecer em cargos de direção. Uma exigência que hoje soa absurda, fazia perfeito sentido numa época em que a cultura política predominante levava os partidos a “aparelharem” os movimentos sociais, assim sufocando os interesses prioritários do movimento em favor das chamadas questões gerais colocadas pelos partidos. “não gostam de ‘preto’ até a atitude ‘democrática’ que nega a questão racial, diluindo-a mecanicamente na luta de classes.” “o quadro da classe política: é a mesma coisa desde que o Brasil é Brasil. É o cara, daqui a pouco é filho o dele, daqui a pouco é o neto dele, o poder rola nas mesmas mãos e nós ficamos de fora, nós que somos o povo - o movimento negro cultural está cansado de mostrar que nós somos o povo, já provou isso tranqüilamente pra todo mundo.” Os que participaram da primeira campanha eleitoral de Lélia falam do entusiasmo que tomava conta de seu comitê, da procura de formas novas de levar a plataforma política ao povo negro, às mulheres e aos homossexuais. Ousando na maneira de praticar a política em tempo de eleições, as caminhadas de campanha eleitoral eram pontilhadas por flores amarelas em homenagem a Oxum e, não raro, ao invés de falar em comícios, Lélia cantava sambas por achar que os compositores negros melhor interpretam os sentimentos e as expectativas do crioléu, como ela costumava dizer. Também foi membro da Executiva Nacional do PT, mas pouco se sabe a respeito de sua atuação nesta instância. Sem dúvida, uma consulta aos relatórios de reuniões, assim como entrevistas com petistas daquela época revelariam muito da forma aberta como questionou a resistência das lideranças do partido (menos brancas do que se imaginam) em reconhecer o acerto das análises do movimento negro sobre os mecanismos de exploração e opressão que operam na sociedade brasileira. Em 1986, por sugestão de Abdias do Nascimento, tem uma conversa com Leonel Brizola, figura mais destacada do Partido Democrático Trabalhista/PDT, e entusiasma-se com o fato do PDT colocar a questão racial entre as prioridades do partido - junto com questões da mulher, da criança e do trabalhador. Lélia como candidata, numa demonstração inequívoca de que seu programa político originava-se no compromisso com as lutas do movimento negro que ela ajudou a construir, tendo pouco a ver com as contramarchas da questão racial no interior dos partidos.11 Os quatro anos que separam as duas campanhas não apagaram a necessidade de levantar bandeiras em defesa dos direitos e contra o racismo, o sexismo e a homofobia que atingem negros, mulheres e homossexuais, tendo como pano de fundo a questão do reconhecimento e valorização das diferenças culturais.
Entre os pilares da amefricanidade, Lélia destacava algumas figuras fundadoras que, enquanto parte de nossa ancestralidade mítica, estão referenciadas em propostas alternativas de organização social: os quilombos no caso do Brasil e, em outras partes das Américas, organizações similares designadas como cimarrones, cumbes, palenques e maroon societies. Tais experiências são patrimônio dos negros em toda a diáspora africana. Por isto, os escritos e a fala de Lélia constantemente referem-se a Zumbi dos Palmares não como mera alusão a um passado longínquo, mas como atualização histórica e simbólica das demandas do povo negro hoje. A imortalização de Zumbi, através da instituição do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, foi portanto “um ato político de afirmação da história do povo negro, justamente naquilo em que ele demonstrou sua capacidade de organização e de proposta de uma sociedade alternativa.”16 A incorporação dessa data pela sociedade como um todo pôde ocorrer porque “a morte de Zumbi transfigura-se no ato que, por excelência, aponta para a vida. Ao morrer, Zumbi continuou vivo, permanecendo na consciência de seu povo e também na dos opressores desse povo.” Ao lado de Zumbi, Lélia também ressaltava a figura de Nanny. Heroína do povo jamaicano, ela é reverenciada por comunidades rurais no leste da Jamaica que poderiam ser caracterizadas como remanescentes de antigos quilombos/maroon societies. Nas várias narrativas que Nanny protagoniza, fala-se de sua intimidade com o mundo dos espíritos, indicando que “enquanto mediadora entre vivos e mortos, ela simboliza a continuidade das sociedades maroon no espaço e no tempo.” Por outro lado, as lendas também registram “sua liderança militar que se impõe na questão da paz com os ingleses”,18 assim referenciando sua representação como mãe e guerreira nas lutas contra a opressão e a escravidão e restabelecendo o lugar da mulher no ato fundador de nacionalidades amefricanas. O lixo vai falar... As contribuições de Lélia de maior impacto foram as que buscaram articular racismo e sexismo. - Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira - foi apresentado, em outubro de 1980, no IV Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais/ANPOCS. “na medida em nós negros estamos na lata de lixo da sociedade brasileira, pois assim o determina a lógica da dominação ...o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados ... que neste trabalho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa.” A origem comum destas três noções será buscada na etimologia do termo mucama21 e em textos históricos que dão conta do uso sexual a que as escravas domésticas eram submetidas. Lélia nota o deslocamento do significado original da palavra africana mucama, onde a dimensão da prestação de serviços sexuais parece ter sido esquecida, para designar apenas a escrava que presta serviços domésticos. “continua aí com sua malemolência perturbadora. E o momento privilegiado em que sua presença se torna manifesta é justamente o da exaltação mítica da mulata no entre parênteses do carnaval.” Doméstica* “a mucama permitida, a da prestação de bens e serviços, ou seja o burro de carga que carrega sua família e a dos outros nas costas. Daí, ela ser o lado oposto da exaltação; porque está no cotidiano. E é nesse cotidiano que podemos constatar que somos vistas como domésticas. ...Melhor exemplo disso são as mulheres negras da classe média ...Os porteiros dos edifícios obrigam-nas a entrar pela porta de serviço, obedecendo a instruções dos síndicos brancos (os mesmos que as `comem com os olhos` no carnaval ou nos ôba-ôba da vida).23 Quanto à mãe preta, “mãe preta também desenvolveu as suas formas de resistência ...cuja importância foi fundamental na formação dos valores e das crenças do nosso povo. Conscientemente ou não, ela passou para o brasileiro branco as categorias das culturas negro-africanas de que era representante. Foi por aí que ela africanizou o português falado no Brasil (transformando-o em `pretuguês´) e, consequentemente, a cultura brasileira.” Movimento Feminista Reconhecendo a existência de feministas comprometidas com a questão racial - a quem chamava de irmãs - Lélia via o feminismo como um movimento de mulheres brancas, onde ela era a criadora de caso. Isto porque no “interior do movimento havia um discurso estabelecido com relação às mulheres negras, um estereótipo: As mulheres negras são agressivas, são criadoras de caso, não dá pra gente dialogar com elas, etc.”27 Para ela, a dificuldade das feministas em reconhecer a diversidade interna ao movimento, aspecto particularmente problemático na América Latina onde a maioria ameríndia e amefricana tende a ser excluída, advinha de um processo de recalque da dimensão racial, que só começou a esvair-se lentamente a partir de 1985 com a Conferência da Década da Mulher em Nairobi. Assim, refletindo sobre as contradições internas do feminismo latino-americano, por um lado Lélia reconhece a contribuição que a teoria e a prática feministas tiveram em nível internacional, e seu papel propulsor na discussão do homossexualismo, a partir do debate sobre sexualidade em geral. Por outro lado, alertava que a ausência da dimensão racial indicava, no mínimo, uma falta de reciprocidade, considerando que, nos Estados Unidos . Além de deflagrar a discussão sobre a mulher negra no interior do MNU, Lélia fundou o NZINGA-Coletivo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, em 1983, juntamente com Elizabete, Mira Corrêa, Jurema Batista e Rosália Lemos, entre outras, esteve entre as primeiras conselheiras do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher/CNDM. Também participou do Taller de Mujeres de las Americas e do Mujeres por un Desarollo Alternativo/MUDAR, duas organizações de mulheres do terceiro mundo vistas por Lélia como exemplos de um novo olhar feminista, porque aberto à participação de mulheres étnica e culturalmente diferentes. Participou de Conferências Internacionais da Mulher em 1975 no México e em 1985 em Nairobi. Por exemplo, os movimentos homossexual e feminista foram grandemente impulsionados pela luta política dos negros por direitos civis. Desta perspectiva, sexismo e racismo seriam variações de um mesmo tema mais geral que. O “esquecimento” da questão racial pode ser interpretado como um caso de racismo por omissão, que se origina de perspectivas eurocêntricas e neocolonialistas da realidade latino-americana. É importante notar que esta crítica se insere na perspectiva de Lélia sobre amefricanidade, onde o racismo que subordina índias e negras decorre de uma visão falaciosa de latinidade que legitima a inferiorização dos setores sociais cuja cultura e história não têm a Europa como referência. O conceito de latinidade é, portanto, uma forma de eurocentrismo que ao descartar, ou pelo menos subestimar, as dimensões índia e negra na construção das Américas, compromete a radicalidade do feminismo latino-americano. Alienação. A primeira categoria “designa aquele que não é sujeito do próprio discurso, na medida em que é falado pelos outros,” enquanto a segunda “diz respeito às identificações imaginárias com determinadas figuras, às quais se atribui um saber que elas não possuem.” Assim, se por um lado “nós, mulheres e não-brancos temos sido falados, definidos e classificados por um sistema ideológico que nos infantiliza”, por outro lado as feministas, ao esquecerem a dimensão racial da luta anti-sexismo, acabam por atribuir superioridade ao colonizador, assim reproduzindo o eurocentrismo cujos efeitos neocolonialistas “são formas alienadas de uma teoria e de uma prática que se afirmam como libertárias.” Lélia afirma que o movimento de mulheres tem sido analisado a partir de três vertentes: a popular, a político-partidária e a feminista. É na primeira que se concentram as amefricanas e as ameríndias que incorporam a suas lutas questões relativas à sobrevivência familiar e outras reivindicações específicas, vinculadas a uma significativa presença no mercado de trabalho informal. Mas a vertente popular tende a apagar a dimensão racial mesmo face a evidências de que a condição de pobreza é redefinida pelo pertencimento racial. Nas duas outras vertentes - político-partidária e feminista - a presença de amefricanas e ameríndias é minoritária . Além disto, é preciso considerar que a luta destas mulheres só aparece em sua especificidade como conseqüência da existência de movimentos étnicos. Estas constatações levam Lélia a concluir que nossa inserção no movimento de mulheres deve ser caracterizada como uma quarta vertente, pois nossa “tomada de consciência da opressão ocorre, antes de tudo, pelo racial.” Luiza Barrios é socióloga e pesquisadora associada da Universidade Federal da Bahia (UFBA)(voltar ao topo) |
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