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Alforria
Boletim de Ocorrências
Contato

Diária
Espaço
Iansã (Oyà)
Labirintos


Laroiè
Movimento

Nascer
Outro Jardim


Oxum
Para um afoxé
Quando o Carnaval Chegar

Resgate

Resisto

Rota
Solo

Sem retoque
Sufoco





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Laroiè

Maravilha ver
Parambebê
Tiririlonã
Exu já
Paraumbebê
Exu desmascara
Paraumbebê
Exu se encerra em paixão
Paraumbebê
Tiririlonã

Iansã (OYÁ)

Iansã – Oyá mulher
Dona de vento e relâmpago
Tua beleza é o fogo
O teu raio decisão
Animas o que é vida
Lá onde o amor é sentido
Zarpando do teu olhar
Rota de estrela e paixão.


Oxum

Me disseram que ser mulher
É ter os dengos de Oxum
Ouro de mel e espelhos
Fitas e flores nos cabelos
Ser a calma de um rio
Deixar a pedra afundar
Não lutar pelo direito
Pois isso é um defeito
De mulher mona de aló
Escutei muitas estórias
De como Oxum guerreou
Água apagando fogo
Onde espada não ousou
Aí pensei repensei
E a vi dona do amor.

 



Para um afoxé

Bate bumbo
Bate tambor

Bate bumbo
Bate tambor

Nêgo qué falá
Nêgo qué falá

Fale nêgo fale
Fale sua dor
Fale da senzala
Mostre o seu valor
Navalha no pé
Ginga no cordão

Joga capoeira
Levanta do chão


Alforria


a dor goteja nas paredes
o grito ecoa na garganta
dia que se faz à noite
e me traz à tona
carta de alforria
que a vida rabisca

Rota


Depois da morte
Um negro morto
Sem mandato
Modismo brasileiro
Tapas no rosto
Revólver na boca
Episódio na noite

Ontem.


Quando o Carnaval
Chegar

Negras fantasias
E enredos
Arremessam-se
Na fria seda
Corpos fundidos
Seiva e dança
Imagem e calor
Correndo o sangue
Três dias
Presos
Na garganta.

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Movimento

Eu mesma   faço              
O meu rumo
O traço

Minha jangada
eu mesma   iço            
minhas velas                      diante                                   dos tempos bravios


Nascer

Recém-nascida do banho
De folhas
Dia diferente
Roda saias coloridas
Rompendo o calendário
Leis de trânsito
Uma urgência de chegar
Mãos fortes decididas
Sabendo.


Solo

Miolo de fruta verde
Muda de folhas crescentes,
Peixes virando cardumes
Canoas que não se quebram
Lua que escapa da nuvem
solo
Água da noite
Sereno a prenha
Liquida madrugada
Carne neurônios pálpebra
Ápice     ápice      
Não,não te afaste
De medo.

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Espaço

Cansaço de ver coisas sem tocá-las
Cansaço de tocar pessoas sem senti-las
Cansaço de sentir os abismos e fugir

Quero correr as sendas dos sentidos
Acariciar as pálpebras dos mistérios
Crispar o corpo nas primaveras
Trocar sorrisos com os pássaros da loucura
Puxar os cordéis de luar    flor e água
Cortar minha sombra com espaços de cristal
Arrastar-me contra as estrelas do charco
Arremessar meus pessoas contra a poesia

Dos que voltam fugindo

 

 
Sufoco

Eu tenho de ir

Pra viela

Do trabalho, do sufoco.

Do medo sem liberdade

Do salário que não dá

Nem mesmo pra ver Piaf

Amanhã vou para a gráfica

Ás cinco de la matina

Minha saúde vem pó

Poluição

Em calor, refrigerador.

Sem lazer e sem perdão

Mas o patrão diz não,

Eu não queria estar só

Eu queria só mudança

 Como criança que brinca

Carrega sua casinha

Mas meu mundo é mais amplo

Queria chutar bola

E derrubar esse esteio

Esteio de falsidade

Montar casa de verdade

Onde tivesse jasmim

Onde eu soubesse de mim.

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Labirintos

Ajuda coração magoado
A lua tem dos lados
O bem  o mal
Também é errado
A vida tem seqüências

Ajuda coração
O meu favor
E do meu lado
Não troca a direção
Não segue o endereço errado

Ajuda coração
A luta tem segredos
Dois lados labirintos
Não faz a diferença

Magoado


Contato

Manifesto tudo
Fixo o olhar vivo
Faço luz
Douro estrelas
Mesmo que isso assuste
Fogo    fogo
Corpo presente
Energia
Na palma da mão
Cuido das águas
Do poço
Da sede sol
Luz do sol
Faça amanhecer


Sem retoque

Me dá um tempo
Não tira a casca
Que o sangues brota
Não quero o dia
Nem mesmo a noite
Isto maltrata
Eu quero um gole
Eu vou cair
Cair de quatro
Não quero espelho
Eu sou o vinho
Dormi de mentirinha
Pra fechar meu diário
Pra serzir   ai meu tórax
Não deixar cicatriz

Desgrampeei.

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Outro Jardim

Vou m’ imbora
Vou florescer
Iaiá vou
Noutro jardim

Vi negro sofrer
Chibata batendo
Bata batendo

Iá        iá
 Ai  ai  ai
Uma coisa velada
Magoada
Nó na garganta
Vou m´ imbora
Iaiá

Florescer noutro jardim.

Diária

Hoje não li o jornal
Não sei do bem e do mal
Mas também não estou de touca
Com cigarro na piteira
Vou pra mesa de sinuca
Eu não quero compromissos
Quero rever os amigos
Ver a onda e a marola
Gente se encontrando
De olhar manso



Boletim de Ocorrência

Mulher negra,
Não pára
Por essa coisa bruta
Por essa discriminação morna,
Tua força ainda é segredo,
Mostra tua fala nos poros
O grito ecoará na cidade,

Capinam como mato venenoso
A tua dignidade,
Ferem-te com flexas encomendadas
Te fazem alvo de experiências,
Tua negritude incomoda
Teu redemoinho de forças afoga
Não querem a tua presença
Riscam teu nome com ausência

Mulher negra, chega
Mulher negra, seja
Mulher negra, veja
Depois do temporal.

E volto pro boteco
De onde nunca saí
Peço cerveja gelada
Vinho é só ostentação
E entre um corpo e um copo

Transpiro a liberdade

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Resisto


De onde vem este medo?
Sou
sem mistérios existo
Busco gestos de parecer
Atando os feitos que me contam
Grito de onde vem esta vergonha sobre mim?

Eu, mulher negra,

Resisto


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